Arquibancada da educação física

Durante boa parte da infância na escola os meus colegas esperavam ansiosamente pelo horário da educação física. A alegria de muitos era a causa de minha maior angústia naquela época.

A minha professora separava a turma por atividades. Os meninos eram levados para quadra de futebol e as meninas para a sala de dança. O momento de euforia da formação da fila era o instante em que eu sentia o medo percorrer a minha pele em forma de gota de suor. Eu me sentia deslocado entre os meninos e suas brincadeiras rudes. Nunca achei graça no futebol e na força imposta em tudo aquilo que eu enxergava como característico do universo dito masculino.

Eu queria a dança. Não que eu gostasse da atividade, mas eu desejava a companhia das meninas por me sentir mais seguro na presença delas. Um dia eu fugi da quadra para observar escondido a aula de dança. Logo, fui descoberto e recriminado pela professora.

“Aqui não é o seu lugar.”

O meu lugar nessa história toda era permanecer sentado na arquibancada da quadra da educação física. A mim cabia apenas a posição de observador do jogo de futebol dos meninos. A arquibancada se tornou a representação do não-lugar, o limbo entre o mundo das meninas e meninos. Um verdadeiro espaço da amplitude da minha solidão.

Foi na arquibancada que eu vi o menino mais popular do colégio se aproximar para me questionar: “Você é veado?” Foi a primeira vez que eu escutei essa palavra na vida. Naquela época eu não sabia o significado do que era veado, mas por dentro eu já sentia que era de fato algo relacionado com o meu jeito de ser diferente dos demais.

Cresci cercado por pessoas despreparadas para lidar com questões de gênero. A presença silenciada pelo professor de futebol. A recriminação da professora de dança pelo meu olhar curioso e a falta de preparo da minha família para buscar soluções em torno de uma interação de uma criança no meio escolar.

Eu lembro disso hoje e penso na quantidade de horas que deixei de desenvolver uma atividade que pudesse me acolher do jeito que sou.

A fala daquela professora de dança ressoa na minha mente através de uma série de questionamentos: qual o lugar que a escola oferece para criança que não se adapta nesse modelo ultrapassado da divisão de papéis entre meninos e meninas?

Quais medidas o nosso sistema educacional tem tomado para reduzir danos dessa divisão que promove tanta exclusão?

O que a escola pode fazer para estimular a interação entre as crianças?

O que nós estamos fazendo para retirar os meninos da arquibancada?

Precisamos refletir sobre a missão do nosso sistema educacional para que outras crianças não sejam esquecidas e silenciadas na arquibancada de uma quadra de educação física.

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