Resistir

Exata, chegou às 9 no trabalho. Não podendo mais aguentar a vida que levava, cheia de firulas e interstícios, foi até o décimo andar do prédio. Arregaçou um pouco a saia, subiu no montinho de cimento que estava perto da grade. Ficou a observar a civilidade das pessoas lá embaixo.

Um homem passou carregando a bolsa de uma mulher. Ela, do lado, estava feliz, contenta. Ela via o sorriso dela lá de cima. O óculos que a mulher usava eram engraçados. Era uma espécie de paralelepípedo torto. Ela gostava — ria e sorria sem parar.

Na lanchonete ao lado, o que pareciam dois colegas de escola, eram dois garotos que talvez voltavam de uma aula na faculdade ao lado. Conversavam como duas pessoas felizes, ao bem do vento que ora ficava forte, fazendo os cabelos dela voarem. Arregaçou mais um pouco a saia. Ao olhar mais para baixo, viu os dois garotos se abraçando.

Lembrou-se da infância, quando perdeu as amizades pouco a pouco. A medida que foi crescendo, os amigos foram se distanciando. Pensou ela: talvez seja por que foram entendendo o meu jeito treslouca, ‘fora do comum’, ou ‘diferente de tudo que já viram antes’. Pensava ela que ninguém gostava do que é fora do padrão. Qualquer comportamento que fugisse do comum — rejeitavam-na. E agora? Viver sozinha?

Mesmo vivendo com a mãe, a bolha na qual se encontrava já não a suportava mais. Sentia-se muda, sozinha. O universo tinha esgotado as possibilidades de tentar ajudá-la. Mas ela sabia, no fundo de sua confusa consciência, que a vida precisava ser. Não há cura na destruição — mas sim na incansável correção de nossos erros.

“Como se conserta? … Não consigo”.

O vai e vem dos carros, o som das folhas das árvores, o barulho fino dos passos das pessoas que frequentavam o décimo andar. Mas, no rosto, algumas lágrimas caíam. O tempo passava, o vento ficava mais forte, as pessoas continuando os seus intentos de viver. Viu a vida acontecendo. Ela lutava — simplesmente por resistir.

Os primeiros pingos d’água começavam a cair. O ar já estava frio. Uma lágrima já tinha descido do rosto. Ajeitou a saia. Desceu o montinho de cimento devagar. A porta que dava acesso a escada já estava aberta — não lembrava. Antes de descer o primeiro degrau, olhou para trás: “obrigado”. E foi embora.

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