James

Um conto de terror psicológico

Thiago Manzo
Jul 27, 2017 · 6 min read

Ela finalmente encontrou a casa. Não estava esperando encontrar mais. Ela puxou de dentro do bolso do casaco a foto. Ele tinha aqueles olhos verdes escuros. Cabelos estranhos. Barba. Algumas rugas mirradas, olheiras. Naquela foto, ele sentado no bar, ele olhava para ela. Ela caminhou da estação de trem e parou na rua de barro, a tarde sumia atrás dos montes. Aos poucos a noite tomava conta. Uma luz acendeu e iluminava uma das janelas. Era uma velha casa, destruída pelo tempo. Suas paredes escamavam a tinta. A telha era velha. Tinha uns 30 anos mais ou menos. Não fazia tanto tempo assim. Ela caminhou e bateu na porta. Duas vezes.

Ele abriu. A encarou como uma desconhecida. Ela sorria tímida. Ele sorriu de volta. Cabelos estranhos, os olhos, a barba. Era o mesmo homem da foto. “Em que posso lhe ajudar?”, ele indagou. Ela achou que era uma brincadeira. Insistiu. “Sou eu, posso entrar?” “Eu não te conheço, moça.” Ela achou tudo estranho. Era o mesmo homem. Mesmo porte físico. Mesmo cheiro. Estranha forma de sorrir. “Eu posso entrar.” “Claro, tá frio. Desculpa.” Ela sentou na mesa. Olhando para ele. Ele parecia não reconhecer ela mesmo. Mas era o mesmo homem. Ele foi na cozinha. Trouxe café. Ao pegar a caneca, os dedos se tocaram. Ele encarou ela por um tempo mais longo. Sentou do outro lado da mesa. Ela retirou a foto e empurrou para ele.

Era o mesmo homem. “Sou eu.” Olhou para ela. “E você.” “Você não se lembra de nós?” Como quem cata pedacinhos de esperança, perguntou. “Eu lembro, mas…” Hesitou. Olhou a foto. Olhou ela. Deslizou o papel amassado para o outro lado da mesa. “Esse cara. Não sou eu.” “Claro que é. É você, sim.” “Sim, eu sei. Sou eu. Mas não somos o mesmo.” Ela não entendia.

“Eu sei muito bem o que você tá procurando. Você já olhou para dentro dos meus olhos muitas vezes e sorriu. Nos últimos meses juntos, você olhou com medo. Eu tô te dizendo. Eu não sou esse cara. A aparência pode ser a mesma, mas ele é um fantasma do que eu antes fui. Você sabe, atrás de você, nesse longo corredor escuro, tem um quarto, ele tá trancado com sete cadeados. O cara tá ali dentro. Nós somos o mesmo e nos últimos dias eu parei de alimentar ele. Você pode acreditar ou não. Eu tô tentando fazer ele morrer de inanição. Ele não vive mais aqui. Eu não sei onde ele mora. Você pode entrar nesse corredor e tentar falar com ele. Eu não sei se tenho certeza se ele vai voltar. Se ele tá preparado. Isso é um fantasma antigo.”

Ela encara ele. Vira a cabeça para trás de si. Um longo corredor escuro, no bréu, bem ao fundo, uma porta de madeira. Barras cruzam a porta. “Mas é esse o endereço,certo?” Ela volta a olhar para ele.

“Sim, o endereço tá certo. Aqui é o lugar. Ele tá ali dentro. Eu tô aqui. Você acha que vai mudar alguma coisa? Não vai, certo?” “Seu nome é James.” Ele congela. Um barulho como algo querendo atravessar a porta ecoa pelo corredor e vem como uma onda de choque aos ouvidos dela. Ela se assusta.

“Esse nome não me é estranho. Era como ele era chamado, certo? Já faz muito tempo que eu não ouço esse nome. Isso não vai mudar o que está por trás daquela porta. Nem muito menos o que há dentro do que você tá vendo aqui na sua frente, desse novo ele. A mudança vêm de dentro. Nós usamos as mesmas roupas. As mesmas tatuagens. O mesmo rosto. Mas tudo isso é apenas uma lembrança do que antes já foi esse homem. Eu mudei e não espero que você entenda. Eu mesmo enquanto falo com você começo a sentir um aperto no coração. É ele querendo sair. Transmutação. O Observador no fim do corredor. Nada mais é que isso. Sua presença aqui afeta ele. Algumas coisas voltam. Tá sem ar aqui, né? Difícil respirar.”

Ele sai da mesa, se arrasta para um canto da sala. Ela acude ele. Olha para o corredor. Está com medo. Como se aquilo fosse sair correndo e agarrar ela e perceber que nunca mais estaria livre. O medo quase que palpável. Como se algo chamasse ela para o corredor. Ela se distrai do James e caminha calmamente em direção do corredor. O ar é pesado. Algo segura a mão dela e a para puxando-a para trás. James segura um machado com a outra mão. “O que você vai fazer com isso?” “Eu sei que parece impossível, mas se você caminhar naquela direção nunca mais você vai sair daquele quarto frio e escuro. Você não confia em mim, mas confia estranhamente no que ele já fez com você. Esse medo vai parecer difícil diminuir e eu só vou conseguir sair daquele quarto quando você parar de ter medo dele.” “O que você vai fazer, amor?” A porta é espancada com animosidade. uma das trincas cede. “Eu vou matar ele. Confia em mim. Eu sei que é difícil, mas eu vou matar ele. O problema é que ele só morre se você parar de acreditar que ele existe. Não é só parar de acreditar. É ter a convicção moral de que eu e ele não somos a mesma pessoa. Eu vou te mostrar isso, nem que dure a noite toda.”

Ele tira um molho de chaves. Sorri para ela. “Eu prometo que volto para você como deveria.” Caminha pelo corredor. Coloca as chaves e abre todas as fechaduras, retira as barras de aço. Ela observa do fim do corredor. Ela é o Observador. Ele chuta a porta. Pelo corredor dá para ver toda a área interna. Um lugar vazio. Escuro. Com uma leve luz de uma lâmpada amarelada cobrindo tudo. Encolhido num canto, James encara James com um machado firme nas mãos. Sentado, ele olha para ela. Seus olhares se cruzam. De alguma forma, ele ganha força e se ergue. Tirando as mesmas roupas, os mesmos cabelos, o mesmo porte físico, o mesmo rosto, ele parece maior e mais forte que o outro. Ele caminha em direção dela com firmeza como quem ignora James no seu caminho. James voa para um canto com um toque de dedo como se fosse um brinquedo segurando uma arma de madeira. Ele dá dois passos firmes para fora do quarto. Três. Quatro. Ela para e observa. Estática, ele se aproxima. Pode parecer que vai tocar nela. Ele para. Se ajoelha. Um objeto de metal afiado de cor vermelho rubro está fincado na cabeça dele. James encara ela enquanto segura o cabo do machado. Arrasta o corpo dele puxando pelo cabo para dentro do quarto. Com dificuldade tira o machado da cabeça de si morto no chão. James olha para ela. Olha para o chão e o corpo sumiu. No canto, encolhido e sorrindo para ela, ele voltava. Antes de levantar, James enfiou o machado no peito dele. Morte imediata. Olhando para James que segurava o machado no ar vazio, ele sorria de braços cruzados no outro canto do quarto. James corria em direção a si para diferir outro golpe. Enquanto morria agonizando, James respirou e limpou o suor do rosto. “Tem café na cozinha e seu prato favorito na panela. Hoje vai ser uma longa noite.” Segurou a porta e antes de trancar, sorriu para a menina. Ela encarou sem saber o que fazer, mas sorriu com carinho. “Seu nome é Rienda.” E trancou a porta.

Mesmo com o sol nascendo, não parecia que ele ia parar de voltar a vida tão cedo.

James não parecia cansado.

Thiago Manzo

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Escritos para Colunas e Cronicas.

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