Quero Ficar No Teu Corpo Feito Tatuagem

“Eu não pude dizer que a amava. Ela cuidou de mim durante sempre. Quando ela morreu eu tava longe, então eu resolvi colocar ela aqui embaixo do braço para proteger ela, como ela fez comigo a vida toda.” -Nayana Pires, Gerente Comercial, sobre a avó.

Uma jornada de milhares de quilômetros começa com um passo. Mas quantos passos contam a tua jornada? A história da tua vida pode ser contada por tatuagens? Escrita na pele? E no fim das contas, porque não escrever literalmente?

É algo muito pessoal. Eu sempre vi com maus olhos tattoos de nomes de pessoas, escarnificações desse tipo ou qualquer modificação que tenha Jorge Amor Eterno. E todo mundo já viu por aí. Aquele nome tatuado no antebraço. Numa conversa ou outra, eu acabei mudando muito meu ponto de vista, mas demorou eu chegar ali.

Efraim Bastos, designer gráfico de uma agência de publicidade do Rio de Janeiro, têm os nomes das filhas tatuado no corpo.

“Depende muito do que você vai tatuar. Eu tenho o nome das minhas filhas e nunca colocaria Edna, o nome da minha mulher. O casamento acaba e amanhã estou com outra pessoa e aí? Minhas filhas são eternas.”

A eternidade da lembrança delas estará sempre marcada nele. Importa para ele.

O Cheiro do Ralo

Num filme brasileiro, O Cheiro do Ralo, há uma determinada cena onde um cara tenta vender uma caixinha de música para o dono de um antiquário/brechó vivido pelo Selton Mello. Basicamente, o filme todo é o personagem do Selton Mello, Lourenço, comprando as memórias dos personagens que se apresentam pelos seus pertences. Motivos você pode tentar descobrir nas entrelinhas das estórias ou na própria agonia dos personagens ao lidar com um homem tão mesquinho e isso você vê refletido na cena da caixinha de música. O homem tenta pedir para o dono do brechó um preço mais alto pela caixinha de música. Que aquele valor ofertado é muito baixo. “Você sabe, essa caixinha de música vale muito mais porque ela têm história.” Por um breve momento, eles se encaram. O dono do antiquário, abre uma gaveta, saca papel e lápis e coloca na frente do homem da caixinha de música. “Faz o seguinte, coloca aqui as suas histórias. Que quando eu vender essa caixinha, ela vai ser uma caixinha com historinha.” É uma cena escrota. Pelo teor e pela moral. Um homem que vê um valor sentimental maior do que o valor comercial de uma peça e não gostaria de vender ela, recebe uma proposta pela história de sua vida que nunca vai ser o valor verdadeiro. Nós sempre elevamos a história de nossas vidas a um ponto mais importante do que áquele que vemos. Tatuagens são caixinhas de músicas. Tatuagens de nomes de pessoas queridas são caixinhas de músicas com histórias. Tal qual o personagem do filme, nós queremos construir um relicário de memórias quando tatuamos algo em nossos corpos. Eu tenho, no momento em que escrevo isso, oito tatuagens. Sendo uma delas um texto enorme na minha coxa direita. Esse texto, é o discurso de Alexandre, O Grande antes da sua última batalha. Nele, ele abre seu coração para o próprio exército sobre ter uma vida dupla, a vida de guerras do lado de quem é teu irmão de armas e a vida em casa. É uma definição de caráter. Quem nós somos e quem os outros vêem. Ali, eu me encontro definido.

E por que a Tattoo da Natália Martino, atriz e dançarina de uma companhia de São Paulo, em homenagem ao irmão falecido, Jair, feita por uma assinatura pequena encontrada a próprio punho do irmão não é uma definição de querer ser maior tanto quanto qualquer outro desenho?

“Meu irmão morreu num acidente de carro. Foi muito triste e nós eramos muito próximos. Ele ainda era bem novo e eu sabia que ia tatuar o nome dele para superar. De uma certa forma saber que ela está ali, é saber que há um pedaço dele ali como o nome de meu avô que está vivo e que eu consiga suportar um pouco mais o dia-a-dia. É uma forma de superação pessoal.”

E faz bem. Não colocar o nome apenas para ser uma lembrança, uma homenagem. É importante. Gostar de ver a letra do próprio irmão no corpo. A vó que está sempre bem cuidada. É importante para sua própria lembrança pessoal. Suas memórias que não cabem apenas numa caixinha de música. É mais do que querer ser visto tatuado. É querer que perguntem, “quem é?” Porque ao contar é ouvir um livro da vida em imagem e cor. A tatuagem não ganha importância devida á sua trajetória artística e sim a sua própria importância que a primeira vista é só um nome, mas ao ser descoberta mais e mais enquanto se conta quem é, ela se torna a tatuagem mais importante que existe na vida daquela pessoa. Não estamos celebrando os mortos nem consagrando os vivos. Estamos contando a nossa história para nunca esquecer aos outros que existimos. É isso que fez mudar a minha opinião. Não é feio o nome, o lugar escolhido, o símbolo do infinito ao lado do nome amado. É lindo. É para ser adicionado ao perfil do tatuado como Registro de Nascimento de Maturidade. Não é impulsivo. É eterno e símbólico.

Thiago Manzo / 2015

Like what you read? Give Thiago Manzo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.