Uma Crítica Cinematográfica Do Panelaço

Para vocês que batem a panela, façam como o façam, acho de igual forma necessário revelar as manifestações revolucionárias em filmes-chave do cinema. Se rebelar é um ato de revolução. Todo rebelde, no fundo, é um revolucionário. Ilustrando isso, eis o cinema.

“Eu estou louco com isso tudo e eu não vou aguentar mais isso!” - The Network / Sidney Lumet

Aqui, em terras tupiniquins, estamos nos apropriando de nossos conterrâneos argentinos de suas manifestações. Toda vez que eles estao descontentes com algo no país, eles recorrem às panelas de casa. Vão para a rua. Protestam fazendo o maior barulho. Isso acontece com muito mais frequência do que se imagina aqui. No Brasil, somos um povo pacífico, que em matéria de manifestações está bem atrás do hermano de Buenos Aires.

Da minha janela visualizei alguns bons minutos de luzes se acendendo e apagando, assovios, buzinas de carro, e, é claro… o famigerado panelaço. Isso me encheu de um certo orgulho, independente de achar que a direção está mal orientada. E me veio na cabeça alguns filmes sobre um ato de revolta sendo impulsionado. E que eu acho propício em traçar um paralelo com o momento que o Brasil vive.

12 HOMENS E UMA SENTENÇA

Antes de irmos muito além, nas semelhanças óbvias, preciso situar do que isso se trata: a justiça sempre foi servida nos filmes de forma que nós, como expectadores, mesmo sendo pequenos perante grandes atos de violência e meros observadores de uma situação que nós é apresentada, precisamos nós sentir parte daquilo. Quando um filme sobre um caso têm sua trama quase toda entrelaçada dentro do sistema judiciário e se passa dentro de um tribunal, quase sempre ele quer aproximar o expectador para a ação dentro da cena. Desvendar os mistérios. Apurar os fatos. Resolver o crime. Acima de tudo, ele quer que você vivencie aquele momento no tempo com a realidade dos fatos. Isso acontece com filmes como To Kill a Mockingbird, Capote, The firm, e, com um dos mais famosos filmes de todos os tempos: 12 Angry men (12 homens e uma sentença) de Sidney Lumet, escrito por Reginald Rose.

12 Angry Men lida com o caso de assassinato de um senhor por um jovem delinquente. Todo o filme e baseado na apuração dos fatos por 12 homens que precisam julgar se o menino é culpado ou inocente. Como é preciso que todo mundo vote unanimamente, um voto contra requer que repassem tudo para convencer quem votou contra ao veredito final. O voto contra é um Não. Um não que diz que esse menino não matou o velho, e, ao contrário dele ser convencido, ele apresenta argumentos sobre o porque que o garoto é inocente a seu ver, assim gerando um debate intenso entre todos. Forçando um paralelo muito parecido com o que vivemos no Brasil nesse momento, temos todo um povo insatisfeito com o que estamos passando agora. Como o diretor fez para que nós envolvêssemos numa história que se passa quase inteiramente dentro de uma sala de júri? Vamos assistir ao opening shot desse filme:

  • Bem no primeiro take, a câmera filma as escadas da entrada de um tribunal. Elas parecem imensas do ponto de vista que é filmado e a câmera começa a levantar e as colunas são como monólitos se erguendo até os céus. Essa cena demonstra que somos pequenos perante o que vemos. Somos inferiores. Antes do corte para o próximo take podemos ler a frase: ADMINISTRATION OF JUSTICE IS THE FIRMEST PILLAR OF GOOD(…)

ADMINISTRAR A JUSTIÇA É O MAIS FIRME PILAR DO BEM(…)

Essa frase confirma. Somos inferiores a justiça e ela está acima de todo mal. Nesses pilares essa frase se destaca como sendo o pilar mais resistente e forte. E quando alguém resolver fazer o bem, a justiça será administrada de forma justa. Continuando…

  • O segundo take já é dentro do hall da justiça e a câmera move de cima para baixo, focando bem no centro, seus pilares e a movimentação. A iluminação ajuda a compor com o cenário um ar de solenidade. Parece um lugar antigo. Tão antigo quanto o Tempo em si mesmo. Até aqui, somos apenas observadores, mas logo criamos uma identificação. A câmera foca numa pasta e em um homem que segue para o elevador e para outro homem bem nervoso que passa por outro no telefone exalando uma nostalgia que nos conduz para um grupo de pessoas comemorando uma sentença que são acalmados por um policial que pede silêncio e nos deparamos com uma porta de um tribunal. Muita coisa aconteceu aqui: Primeiro, vemos uma série de pessoas em suas profussas e particulares situações. cada um com suas aflições indica que ha um contingente de pessoas trabalhando, que aquele lugar é um organismo vivo e podemos visualizar isso sem ser mostrado. Uma Gestalt perfeita e bem conduzida. A segunda coisa é: não mais como expectadores, a cena foi filmada para dar ênfase nas atitudes mundanas, porém significativas. Ela é criada para que nós coloquemos como parte da ação e mais ainda, como elemento da ação. Os ângulos de câmera, quando começa a se mover, não demonstram imposição nem soberania, está a mesma altura dos personagens aqui, ou seja, estamos em pé de igualdade. Estamos colocados como um deles, dentro do salão de justiça. E a terceira coisa é: As portas do tribunal. Ela é decorada e fechada como um cofre. Como se nenhum segredo pudesse transpôr aquelas portas. Como se nada pudesse interferir em algo ali dentro. Elas são imponentes. Aqui, com a parada do movimento de câmera (a primeira que vemos), marcamos a importância do que irá acontecer ali dentro.
  • Agora vemos o tribunal, o juiz falando sobre dúvida razoável e como eles devem proceder, a câmera focando em cada um na bancada do júri, uma nova pan, a saída ordenada para a sala de julgamento, os olhos do menino cheio de medo e os créditos. Simples, certo? Sim, talvez. Lógico? Nem tanto. A cena só tem a força que tem e causa um silêncio incômodo pelos dois takes anteriores. Não nos sentíriamos impotentes tão cedo ou com um ar pesado tão breve no filme se não fosse pelos dois takes passados. Quando vemos o rosto do menino que será julgado, única vez que o veremos durante todo o filme, nos pesa a decisão. Agora, somos parte disso, ouvimos o que o juiz disse, percebemos que estamos no fim do julgamento e agora precisamos ouvir uns aos outros e chegar num consenso.

Essa é a cena que escolhi para começar. Para quem estamos fazendo a justiça ou nos rebelando? Para nós mesmo? Ou para um bem comum? Será que estamos aqui pensando democraticamente ou precisamos de uma ajuda, uma guia, uma vontade de mudar. Podemos fazer isso por nós mesmos? V de Vingança quer provar que o povo é mais forte e ele não pode ser manipulado.

V DE VINGANÇA

A cena da TV e da revolução “Programada”.

Isso não é novo, mas é o poder do enunciado que faz a cena ter força como outrora já teve com outro filme de Sidney Lumet, The Network que também falarei a seguir.

Aqui o foco é o discurso. O poder de persuasão. Quando assistimos V de Vingança (Wachowski Brothers) estamos maravilhados com o universo, com a persona de V, com tudo que nós é apresentado. Até então fica difícil como qualquer outro filme que lida com elementos sci-fi te prender e te tornar parte da ação. Até o momento do discurso.

Todo o discurso é um prenúncio de algo pior que virá. Isso você percebe desde o começo e é também uma manifestação de incômodo e desilusão com o governo. É um ato de discórdia contra o poder. Contra o Status Quo. E quem são os culpados pelo status quo estar assim? Nós. A culpa é nossa e por que? Medo. E porque não teriamos? O governo controla tudo. Controla todos. Como pensar. Como se vestir. O que comer. Onde gastar. Isso não é um filme de ficção científica. É a vida real. É o que vivemos hoje. Então, o roteiro, pega exatamente onde deveria para cativar a audiência. Nós somos nossos erros ao eleger e permitir que nossos líderes façam o que bem quiser. E ele te dá uma sugestão para tomar controle da situação e controle do filme: Faça algo para mudar isso. Em um ano.

Nós agora temos algo a se apegar. Daqui um ano, no dia 5 de novembro, data comemorativa da morte de 400 anos de um revolucionário britânico, estamos convidados a mudar o sistema. O filme nós coloca como testemunha ocular. Não tanto participativa pois o tempo real e contínuo é picotado. Mas mais como alguém que observa os fatos e os analisa. E os julga. Define quem são os culpados e os pune. E queremos fazer parte disso. O filme demonstra uma rebelião interna que toma forma e demora. Como um bolo que assa e precisa de tempo para crescer, assim é a dinâmica desse filme. Só que ele apresenta um problema de discurso narrativo que logo falaremos sobre. Mas muito parecida com essa cena e com uma premissa mais rápida, temos The Network.

THE NETWORK

The Network é um filme que lida com uma celebridade de televisão, um comentarista político que da noite pro dia se torna um profeta da mídia. O filme inteiro é uma crítica ao poder de indução em massa. Ao poder de pensar por si mesmo se tornar mainstream e logo todos pensarem por si só como um coletivo.

A cena tem similaridades com a do V de Vingança e não é por menos. Ela foi bem baseada nesse filme e nos ângulos. The Network(Sidney Lumet) trabalha com a mesma ideia de discurso, mas o conteúdo é diferente. Ele não pede que se juntem a ele ou que façam algo contra o governo, pois ele mesmo não saberia o que fazer. Ele só quer que as pessoas parem de se conformar com o que está acontecendo e que gritem. Esse é o ponto onde eu quero chegar. A necessidade de gritar “Eu estou louco com isso tudo e eu não vou aguentar mais isso!”

A solução de V de Vingança é o verdadeiro problema narrativo daquele roteiro. Enquanto ele apresenta que precisamos nos rebeler para uma causa em comum, Rede de Intrigas quer que você se rebele pela simples insatisfação com o todo. Ele não está promovendo a anarquia. Ele está promovendo o auto-pensamento. V de Vingança se perde em seu próprio argumento apresentando dúvidas em seu andamento a respeito da necessidade de mudar. Talvez precisamos de uma mudança externa. Mas a maior mudança precisa ser interna. O filme funciona? Sim. Mas parece utópico. Network promove a mudança de apenas dizer “Não. Eu não vou fazer parte disso.” É aí que entra o panelaço na estória. Você pode sim bater panela e ir para sua janela. Mas mais do que V de Vingança, ela não precisa ser invisível. Vá para a rua. Mostre a cara e a insatisfação. Não importa do que seja. Apenas o faça. Nós estamos todos revoltados com o que se passa ao nosso redor. E esses filmes só demonstram a ponta do iceberg que se tornou nossas vidas. A gente não aguenta mais e precisamos gritar que não aguentamos mais. Justiça deve ser feita e inserida no nosso meio. Precisamos nos sentir parte da revolução, não apenas expectadores. Precisamos dizer que queremos que as coisas mudem. Explodindo um parlamento ou gritando na janela. Apenas faça por si mesmo e o resto virá.

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