O brado

Nesse mundo materialista e profundamente ideologizado (seja à direita ou à esquerda), cada ato humano é visto como algo que se encerra em si mesmo ou lido sob a ótica da ideologia predileta. Seja como for, o homem tornou-se inteiramente imanente. Filosofadas de lado, esquece-se (ou se ignora) de que o ser humano é dotado de alma. E que cada ato de um indivíduo revela o seu coração, revela onde está a sua alma. Pequeno ou grande, mostra, quer queira quer não, as aspirações mais profundas do ser.

Mas questionar coisas como alma, coração, aspirações incomoda. Como disse Chesterton, o homem de hoje tem uma opinião sobre tudo, menos sobre o tudo. Escolhemos viver fingindo que tais realidades são periféricas, sequer existentes. Há muitas preocupações mais urgentes: o desejo de comer, o desejo de prazer, o desejo de bem viver, o desejo, os desejos. Porém, se quisermos, veremos em cada gesto, em cada escolha, o coração do homem. Preferimos não querer ver. Jaz aí a beleza da verdade: ela não é uma escolha sua. A realidade dos fatos bate à porta, bate na sua cara se for preciso e mostra que sim, o coração do homem, a existência da sua alma, seu anseio é muito mais profundo do que podemos imaginar.

Poucas situações têm o poder de arrancar-nos de nós mesmos e nos perguntarmos sobre as questões fundamentais da vida como a morte. E nenhuma tem tanta força como a morte infligida voluntariamente a si mesmo. Nada é tão impactante. Junto a ela, perguntas e afirmações são brutalmente colocadas diante de nós. A primeira afirmação contida nessa escolha é: eu prefiro o não-existir. Para a maioria das pessoas, é uma ideia impossível de ser concebida. Muitos se encontram insatisfeitos. Alguns até afirmam que vão buscar outra vida, que não querem determinadas situações. Quantos dirão ou desejarão a não-vida?

Do absurdo da ideia (absurdo no seu sentido mais próprio, isto é: contrário à razão) e do mero refletir sobre ela, alguns pontos mais são levantados. Se escolho a morte, estou afirmando com o meu ato que o não-existir é melhor que o existir. Uma escolha tão radical pode ser feita unicamente sob a condição de não haver sentido algum em viver. Somente saio da minha faculdade de medicina no meio dela se, para mim, não houver sentido em nela permanecer. Entre uma escolha de possibilidades, escolho a que faz mais sentido para mim. No cotidiano, mais de uma alternativa até pode parecer razoável. Mais de uma tem sentido em determinados momentos. Quando se trata de viver ou não, não existem gradações. É o que chamamos de a escolha radical, ou fundamental. Todas as outras mínimas opções da minha vida podem ou não existir apenas a depender daquela que é a base: a vida em si mesmo. Pareço estar falando algo óbvio? Pode ser, mas essa obviedade me ocorreu somente hoje, como um tiro. Posso escolher a que horas dormir, o que estudar, quando casar, onde trabalhar, onde morar, quantos filhos ter. Contudo, a cada escolha trivial ou não, estou automaticamente dizendo: eu escolho existir. Quando afirmo o contrário, não estou afirmando apenas que não quero viver. Estou dizendo mais precisamente: não existe sentido em viver. Disso, decorre a consequência escandalosa, gritante, tantas vezes silenciada, ignorada: desejamos um sentido. Não, não assim, como uma afirmação: desejamos um sentido! Desejamos um sentido!

Aquilo que parecia mero ato (tirar a própria vida), escolha individual, a solidão mais profunda de ser vivida, torna-se, na verdade, um grito a toda a humanidade. Ou melhor, um brado. Não é mero grito. É o rugir de uma alma, utilizando toda a força do seu ser, todas as faculdades dadas gratuitamente a si, em suma, toda a sua vida para dizer que não encontrou sentido na vida. E deveria haver algum, pois se não há, o homem escolhe a não-vida.

Não é simplesmente um grito, é o brado, o rugir de uma alma

Ato solitário, de inteira ausência de sentido. Movimento desesperado, isto é, sem esperança, sem saber onde ancorar os seus anseios, o apelo da sua alma.

Em seu extremo oposto, apesar de exteriormente semelhante, está o Homem erguido no alto da Cruz. Ele, sendo Deus, poderia ter se apegado à sua vida nesta terra, lutado por continuar a existir, por permanecer. A pergunta que se levanta diante de Cristo, voluntariamente pregado na Cruz, é a mesma que nos fizemos anteriormente: por qual motivo deste Tu a tua própria vida? Qual é o sentido de tamanho absurdo? Escolher o não-existir? Tu, sendo Deus, escolheu perder-se para sempre?

Na própria Cruz, encontram-se também as respostas a tais perguntas. E ao brado do homem, aparentemente fadado à ausência total de sentido e de existência, brada também o Cristo, a sinalizar o nosso rumo: Elli, Elli, lamá sabctâni (Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste)?

Para alcançarmos a profundidade de tal grito, devemos nos recordar que Cristo, após horas de tortura, de sofrimentos inomináveis, é pregado na Cruz, fazendo esforços profundos para conseguir respirar. Eram seus últimos momentos de vida. Diante da morte, não falamos sobre qualquer coisa. Próximo ao fim, dialogamos com o que verdadeiramente importa, somente o que habita no mais profundo de nós mesmos. Ali, Ele se encontrava. Por meio da sua livre escolha, com a consequência última do Não a Deus dado pelo homem: a morte. Diante dela, Ele toma sobre si a radical interrogação do ser humano: fui abandonado neste mundo vil, duro, infeliz à minha própria sorte? Onde está tudo aquilo que minha alma parece desejar em tantos momentos? Onde estão as alturas a que meu coração parece querer subir? Se destinado a subir estou, por que afundo no abismo da corrupção e da morte? Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?

O grito, o brado de desesperança de Cristo é o brado de toda a humanidade. Sobre si, tomou Ele a radical ausência de sentido que se abateu sobre o homem em decorrência do pecado. Porém, antes mesmo de morrer, Ele nos devolve o sentido, Ele antecipadamente abre as portas que serão definitivamente abertas três dias depois: Pai, em Tuas mãos, eu entrego o meu Espírito.

Pai, em Tuas mãos, eu entrego o meu Espírito

Com suas últimas palavras, Cristo nos diz: é a Ti que meu espírito é devolvido. Para Ti a minha vida foi criada. Como uma bússola a apontar sempre para o Norte, a minha existência anseia por retornar, instante após instante, a Ti.

Ao brado dos desesperados, à loucura ansiosa por um rumo, um caminho, uma direção, capaz até mesmo de gritar a toda a humanidade: Eu prefiro o não existir, devolve-nos Cristo, suavemente, a esperança; abre-nos, uma vez mais, as portas do Céu: Em Tuas mãos, eu entrego o meu Espírito, Papai.