Relações abusivas: todos fazemos parte de uma

Você não possui ninguém. Em algum momento da nossa evolução humana, aquele que era o mais forte fisicamente descobriu que poderia subjugar os demais às suas vontades e ditar o modo como todos deveriam viver. É o que chamamos de obediência: seguir as regras do mais forte.

O advento do uso das ferramentas, do pensamento lógico-racional e da vida em sociedade colocaram muitas vezes os mais fortes fisicamente em condição de servidão e elevaram uma nova categoria de senhores: homens brancos e ricos, poderosos, donos de muitas coisas e pessoas. E isso aconteceu ontem. Na verdade, isso ainda acontece, literalmente, em muitos lugares. Homens, mulheres e crianças que são propriedades de outras pessoas.

Ainda que não de modo consciente, isso ainda se manifesta em muitas relações. Você está se comportando como posse de alguém nesse momento? Talvez você acredite que possua alguém. O mais comum é que ambas condições sejam reais e simultâneas. Não acredita? Eis aqui os sinais para você tirar a prova:

1) Você não se sente confortável em tomar uma decisão sozinho antes de “checar a opinião” da outra pessoa // Você se ofende quando a outra pessoa toma uma decisão sem consultar você;

2) Você costuma camuflar rastros de comportamentos que você sabe que poderão irritar a outra pessoa // Você fiscaliza e rastreia comportamentos que você não aprova no outro;

3) Você pára de contar fatos que considera positivos para a outra pessoa, pois ela sempre encontra um modo de identificar falhas e aspectos negativos no relato // Você nunca ouve de bom grado a história do outro e tenta mapear pontos potenciais de crítica, apenas com o “intuito de ajudar”;

4) Você nunca consegue persuadir o outro a fazer algo do seu agrado e sempre acaba cedendo // Você sempre impõe sua vontade e nunca permite que o outro esteja no controle de uma determinada situação.

E aí? Quantos desses sinais fazem parte da sua vida? Importante entender que os aspectos de dominado e dominador podem fazer parte dela em relações distintas. Como exemplo, você pode ser dominado na sua relação amorosa e ser dominador numa relação profissional.

Todo opressor já foi oprimido? Todo oprimido se torna opressor? Certamente não, mas a apropriação da liberdade do outro para restabelecer a sua própria é mais comum do que se imagina. É disso que trata o jogo dos Escravos de Jó? “Tira, põe, deixa ficar”. Um passando para o outro, num jogo absurdo, no qual termina com você aquele objeto que a princípio nunca foi seu.

Mas a questão aqui ainda é essa: você não possui ninguém. Ninguém possui você. Sua mente, seu corpo e suas ações são apenas suas. Mas a liberdade que tanto almejamos é uma longa estrada de mão dupla. Você só será livre de verdade, quando também proporcionar a mesma liberdade a quem está com você. O amor, o perdão e a comunhão só podem ser exercidos quando somos livres. E somos livres apenas quando libertamos.