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Eu vi a noite profunda
Eu vi em looping os casais separados
Vi corações quebrados em relações líquidas
Eu vi os famintos de alma comendo o que lhes restara
Vi ansiosos contando os dedos
Roendo as unhas
Eu fui a passeatas, protestos em junho
Cães correndo atrás do próprio rabo
Vi a dor em forma de mensagem
Num domingo ensolarado
Eu toquei nas lágrimas não correspondidas
Nas taças vazias sem bebida
Vivi os dias longos que não passaram
Dias que não passarão
Eu vi os planos mudados
Vi os não mais amados, descartados numa quinta qualquer
Vi a sombra mais escura no dia mais claro
Vi a nudez pretensiosamente vestida
Em sua tolice e estupidez
Li nas entrelinhas um interior de magoas
Eu vi seu disfarce, tão belo, tão doce, tão cruel
Assim compreendi que o espinho é mais duradouro
Que a rosa, mesmo a mais bela
Eu vi nas madrugadas as ruas imundas
Vi o pedinte sentimentalmente feliz no silêncio sem gente
Vi os oprimidos vencidos em síndromes de pânico
Uma geração inteira contorcida ansiando por amor
Escutei a musica mais linda dos lábios mais impuros
Vi a mim mesmo em todas essas coisas
Mudei de idéia
Assim cortejei a dama do desprazer
Lambuzei na lama
Na lama de mim mesmo
Na lama do mundo
Saí imundo e nunca tão limpo
Tão limpo como nunca estive
Escutei Deus nas buzinas dos carros
Nas músicas que odeio
Nos dias que detesto
E o amei.
Thiago Mendes 28/07/2017
Belo Horizonte, inverno.
