ESSA É MINHA INFÂNCIA

O Gregório disse que até voo perdeu enquanto lia Nu De Botas, livro de crônicas incríveis da infância do Antônio Prata. O livro é sobre, e é como, a infância, onde as coisas mais simples se transformam em histórias gigantescas, mesmo que seja sobre uma moeda enterrada no meio fio. Eu não perdi voo, mas tive a mesma sensação que o Gregório: à medida em que ia lendo as crônicas, minha memória absorvia e transformava a infância do Prata na minha infância. Eu não sabia mais dizer se aquilo era uma memória minha ou do autor. Me parecia que eu tinha vivido tudo aquilo. E isso me preocupou.

Não sei vocês, mas eu costumava olhar uma foto da infância apenas como uma foto. Pouco era capaz de descrever exatamente o que aconteceu naquele momento. Não por falta de lembrança, mas por excesso de síntese, do tipo foi isso e pronto. Minha infância estava perdida e eu estava enganado. Mas graças ao Antônio, decidi resgatá-la. A minha infância. Cheia de defeitos, alegrias, tristezas e pequenas reviravoltas. Com o mínimo de esforço fui capaz de relembrar grandes histórias. Como no dia em que fui criminoso de mim mesmo e decidi depenar meu porsche amarelo. Como na vez que jurei ter maturidade suficiente para abrir meu presente de natal antes da meia-noite. Da vez em que descobri que crianças prendiam outras crianças na festa junina do bloco da frente. Ou quando minha mãe passou mal numa festa em casa, cheia de parentes, e levei uma bronca do meu irmão por estar ouvindo música e não perceber a gravidade do momento.

O Antônio que me perdoe. As histórias de Nu de Botas são incríveis, mas não serão minhas memórias. Vem aí, essa é minha infância.