ESSE DIA FOI FODA #3

O PORSCHE AMARELO

Nos primórdios dos anos noventa, caso você morasse em Taguatinga — DF, mais especificamente na QNL quatro, com certeza teria cruzado com um Porsche amarelo a cerca de dez quilômetros por hora conduzido por um motorista de cabelos longos e cacheados, olhos verdes e no auge da malandragem que só crianças de cinco anos possuem. Homem ou mulher, com certeza ele teria buzinado para você oferecendo uma carona, quando na verdade estava apenas se exibindo.

Queria muito ter uma foto dele pra ilustrar. Ela até existe, mas no momento está a mais de mil quilômetros de distância. Amarelo, com rodas pretas e espaço para duas pessoas. Meu Porsche amarelo movido a pedal. Dentro dele eu era o cara. Tem uma foto que resume bem isso que sou eu no banco do motorista com o ray-ban aviador de lentes esverdeadas do meu pai tentando fazer pose de malvado. Tudo em vão, porque na verdade é uma imagem bem fofa. Mas era divertido brincar de ser badass.

E eu tenho certeza que teria feito coisas incríveis com aquele carrinho caso minha mãe me permitisse ir além da rua em frente de casa. Poder ter dado umas voltas na rua de trás já seria o suficiente pra minha vida ter mudado por completo. Você sabe, o destino tem dessas coisas. Talvez eu teria me apaixonado por uma garota mais velha e viajado o Brasil no meu Porsche amarelo, na velocidade em que minhas pernas permitissem. Talvez eu quisesse me exibir e ultrapasse os limites de velocidade, invadindo a calçada e atropelando uma velhinha, fazendo as laranjas de sua sacola de compras rolarem pelo asfalto em uma cena dramática. Talvez eu seria preso por matar a velha e meu carrinho seria guinchado pelo DETRAN, malditos porcos covardes. E talvez eu não estivesse aqui escrevendo sobre como eu adorava aquele carrinho.

O triste é que eu não faço a menor ideia de onde ele foi parar. Mas antes de desaparecer, houve tempo para meu irmão me convencer de fazer experimentos com ele. Removemos todo o acabamento amarelo, deixando apenas a carcaça de ferro. As rodas pretas foram substituídas por rodas azuis, dessas de motoca. As ferragens foram pintadas de algumas cores ao longo dos anos, mas o que predominou mesmo foi a cor original do ferro que insistia em dar as caras. O sonho era colocar um motor de verdade nele, fato que nunca aconteceu. E o que antes seria um carro de playboy, no melhor estilo Thor Batista mirim, acabou virando uma versão infantil de Mad Max, o que eu descobri ser muito mais divertido.

Pensar nele me faz imaginar uma infância violenta que não tive, em que era preciso fugir de caras mais velhos, desses que roubam a grana do lanche. Isso nunca aconteceu, mas o carrinho me faz pensar que sim. É um sentimento tão forte que jurava que certa vez ele tinha sido roubado e recuperado por meu irmão com a ajuda do nosso vizinho. Segundo minha mãe isso também nunca aconteceu. Eu queria muito ter uma história mais legal pra justificar seu sumiço e encerrar essa crônica mostrando meu lado transgressor. Mas eu simplesmente não sei o que aconteceu com meu bom e velho Porsche Amarelo, que era muito mais legal que qualquer Camaro. Gosto de pensar que ele realmente está mofando em algum pátio do DETRAN e um dia será leiloado como uma grande relíquia. Por todas as histórias que me deu, ele merece isso. Mesmo que algumas só tenham acontecido na minha cabeça. Se alguém tiver informações sobre o Porsche Amarelo, favor, entrar em contato que eu pago bem.