Almoço de segunda

Era um dia quente, pois eu que nunca tiro o paletó no horário de trabalho, não só me desfiz dele como abri os primeiros botões da camisa e afrouxei a gravata.

Ao meio dia em ponto, saí do escritório V&S Advogados rumo ao restaurante à quilo em que me habituei a almoçar. A qualidade da comida é razoável, o preço é bom e a distância, curta. Fosse um pouco mais à frente, eu escolheria outro, já que opções próximas não faltam. Como é o caso do restaurante chinês de nome impronunciável que fica logo na saída do escritório. Até aquele dia, eu nunca havia almoçado nele graças à piada do “Xô, flango” que me vem à cabeça sempre que vejo um asiático servindo comida.

No entanto, o calor me prostrou de uma forma sem precedente. Talvez eu estivesse com a pressão baixa, ou mesmo desidratado por suar demais. O fato é que, querendo caminhar o mínimo possível, acabei trocando a segurança do restaurante à quilo pela roleta russa que é a comida chinesa em dia quente. E não só troquei, como fiz a festa. Foi rolinho primavera, foi macarrão com flango — o original, se Deus quiser — , foi uma sobremesa de gosto inominável, foi cafezinho com biscoito. E, infelizmente, foi caro demais para um almoço de segunda-feira.

Voltei para firma me arrastando, suando mais do que quando saí. Processo vai, processo vem, de duas, uma: ou o frango se revelou vivo e claustrofóbico depois de ingerido, ou a coisa tinha azedado entre o estômago e o intestino. Súbito, uma vontade de cagar me assaltou com a mesma voracidade que almocei. Era o chinês falando em alto, mas péssimo som: “tudo que entla, tem que sair.” Joguei os processos em cima da mesa e desci atabalhoado pela escada rumo ao andar de baixo. Nunca gostei de fazer o número dois — mijar eu mijo em qualquer canto — em um lugar onde pessoas que conheço podem entrar junto comigo, ou pior, assim que saí.

O banheiro de baixo estava vazio. Corri com uma marcha atlética invejável até minha privada preferida, a última, ao lado da parede. Tivesse sentado três segundos depois, minha cueca teria feito boa parte da função do vaso. Então, o banheiro virou uma sinfonia liderada por um maestro com Parkinson. Era como se eu tivesse ligado um rádio AM e transitasse rapidamente entre as estações. O som e a fúria.

De repente, ouvi a porta de entrada se abrir, como eu desconfiava que aconteceria. O pós-almoço é a hora do rush em qualquer banheiro do mundo. E o desgraçado veio sentar-se na privada ao meu lado. Uma mísera tábua de madeira separava a minha desgraça da dele. O silêncio que fazia, pois eu travei o esfíncter quando ouvi a porta abrir, foi quebrado por uma voz grossa e pretensiosamente sensual:

— Agora tô podendo te ouvir. Fala comigo, fala…

Esperei uma resposta para deixar o frango e companhia saírem por completo. Essa é minha tática em dias de intestino conturbado: misturar meus sons com os sons do ambiente para abafá-los. A voz que veio a seguir era inconfundível. Depois de quatorze anos de convívio, sabemos a entonação com que cada palavra vai ser dita. E, foi com uma excitação que eu há tempos não percebia, que a Sônia falou:

— Seu louco! Eu espero que você esteja ouvindo no fone! Meu marido trabalha aí!

Era isso. Aos quarenta e quatro anos de vida, logrei meu primeiro —assim espero — chifre. Para completar, o canalha soltou um peido estrondoso enquanto ouvia minha mulher, a mulher que divide comigo a mesma cama, falar com alegria ímpar que ele era um louco. Porque esse “louco” não é pejorativo. É o louco que faz as mulheres suspirarem, reviverem os dias de aventuras. E enquanto a Sônia se entrega a essa paixão, ele caga e, pelo volume dos peidos, depois de ter almoçado um trombone.

Que situação. O amante da minha mulher, que trabalha no mesmo prédio que eu, está se borrando igual a mim, na privada ao lado da minha. Será que fomos ao mesmo restaurante? Comemos o mesmo frango? Eu, aqui com o peito e ele, ao lado, com a coxa? Um yin yang perfeito: o yin, a noite, o fogo, o estranho; o yang, o dia, o frio, o corno.

— Eu vim aqui pra sala de reunião, min…

Depois dessa mentira deslavada, a raiva me subiu à cabeça, desceu vertiginosamente até o cu e interrompeu o áudio do bonitão. Meu peido saiu tão alto que o carteiro, lá na esquina, daria meia-volta e deixaria para entregar a correspondência daqui no dia seguinte. Se Deus quiser, a gravação foi enviada sem querer, como acontece com bastante frequência, e a Sônia há de ter ouvido.

Ele parou de falar na hora. Enfim, percebeu que não estava sozinho. O ouvi pigarrear e mexer rapidamente no papel higiênico. Às pressas, deu descarga e levantou-se como se o prédio estivesse em chamas. Também levantei ligeiro, sob risco de sujar privada, cueca, calça e sapatos, mas eu já estava pouco me fodendo. Quando olhei por cima da minha porta, vi as costas de um homem mais baixo que eu, mais gordo que eu, e que, ainda por cima, saiu sem lavar as mãos.

Com um misto de nojo e ódio, voltei à privada, limpei-me, lavei a mão duas vezes — queria ser totalmente o oposto daquele porco — e voltei para o escritório. Ficar sozinho em casa até a chegada da Sônia seria deprimente demais. Sendo assim, passei o resto do dia trabalhando, tentando não pensar na Sônia nem no porco e, em apenas uma tarde, adiantei o trabalho da semana inteira.

Quando cheguei em casa, lá estava ela, a filha da puta. Mas era uma filha da puta linda, que conseguia preservar a mesma boa forma de quatorze anos atrás. Me recebeu com um beijo desses que precedem o sexo, a língua dela fazendo ciranda com a minha, coisa que ela não ousava há meses. E, durante esse beijo, eu só imaginava que o porco devia ter confessado para ela que alguém ouviu a conversa entre eles dois. Na dúvida, seria melhor parecer uma mulher contente com o casamento. Daí essa encenação toda.

Terminado o espetáculo, eu a levei para o sofá e contei tudo o que tinha acontecido. Ela chorou, negou, chorou de novo, negou de novo, mas no fim, admitiu que me traía há três semanas. Que acabou gostando dele pela forma carinhosa, mas sensual, que ele a tratava. E ponto. Era isso. Não sabia mais o que dizer. Se eu quisesse, ela arrumava as coisas e iria para casa da mãe, ou de uma amiga qualquer que a abrigasse pelo menos naquela noite. Não pediu desculpas. E acho que pedir desculpas numa hora dessas é desenterrar o morto para colocar mais um prego no caixão.

Ela não conseguia me olhar e eu não conseguia dizer nada. Quando o silêncio se tornou incômodo até para mim, ela levantou a cabeça e me fitou. Então, eu vi os mesmos olhos castanhos e brilhantes do dia em que nos casamos. Vi a casa toda atrás dela: os moveis que ela escolheu, os porta-retratos com nossos sorrisos, a TV em que assistimos centenas de filmes comendo pipoca, vi o Zidane, nosso vira-lata, deitado na cama que ela comprou mesmo repudiando o nome que eu escolhi, vi toda uma vida escorrer pela privada.

Quando o nó na minha garganta desapertou, falei que ela tinha até o fim do dia seguinte para terminar com ele e voltar a ser a esposa que recebe o marido com um beijo apaixonado. Ela chorou, dessa vez de alegria, e disse que eu era o melhor homem do mundo. Talvez eu seja mesmo. Mas, durante o prazo que dei, ela teve que usar o banheiro de hóspede e dormir no sofá. Aquele porco filho da puta não lava as mãos.