Plínio Chagas

Plínio é um hipocondríaco convicto. A ponto de acreditar que sua hipocondria está acima de qualquer outra hipocondria e pode até mesmo matá-lo.

A mais recente visita ao doutor Boaventura, seu médico pessoal e de longa data, transcorreu assim:

— Oi, doutor. Como vai?

— Ótimo. E você?

— Nada bem.

— O que você tem dessa vez, Plínio?

— Botulismo.

— O quê?!

— Botulismo.

— Hum, sei. Botulismo. E como você diagnosticou?

— Ando com dificuldade de engolir.

— Esse pode ser o sintoma de várias doenças.

— Quais?

— Diversas. Melhor não entrarmos em detalhes.

— Você acha que pode ser câncer, doutor? Seja sincero.

— Sinceramente?

— Jesus, tava na cara que eu teria! Um primo da minha mãe morreu de câncer!

— Eu tenho certeza que é ansiedade, Plínio.

— Ansiedade causa dificuldade de engolir?

— Causa.

— Mas e se for ansiedade e botulismo? Porque eu tenho tido realmente muita dificuldade de engolir.

— Não tem um mês que fizemos uma bateria de exames. Tudo normal.

— Mas eu li que botulismo aparece de uma hora pra outra, doutor.

— Plínio, não é botulismo.

— Tem certeza?

— Tanta que eu quero morrer de botulismo agora mesmo se você estiver com botulismo.

— Botulismo mata rápido assim?

— Pode progredir com certa velocidade, sim.

— Meu Deus do céu… Doutor, vamos fazer aquele exame de sangue que o resultado sai hoje mesmo. Eu espero. É até melhor que eu fico aqui caso piore.

— Você pode ter outra doença. Botulismo, é impossível.

— Aids dá dificuldade de engolir? Porque, além da dificuldade de engolir, eu ando espirrando muito também.

— Plínio, você tem alergia à pelo de gato.

— Quando eu tinha dezesseis anos eu transei sem camisinha, doutor. Será que…

— Plínio, você tem quarenta e dois anos e tem dois gatos!

— Gato pode transmitir doença, né?

— Ocasionalmente.

— Alguma dá dificuldade de engolir?

— Vamos fazer o seguinte: eu vou te receitar uns comprimidos pra ansiedade e você volta aqui daqui a vinte dias, tá bom?

— Não posso tomar.

— Por quê?

— Eu tô com dificuldade de engolir. Você já viu quantas pessoas morreram engasgadas no Brasil esse ano?

— Então tritura e mistura com água.

— Melhor. Assim o único perigo vai ser a procedência da água.

— Plínio…

— Se eu estiver na rua, posso chupar o comprimido igual bala?

— Contanto que entre no seu organismo, do jeito que achar melhor.

— Sabe o que eu acho melhor?

— Não faço ideia.

— Ficar internado em observação hoje.

— Garanto que não há necessidade. Ficamos por aqui, Plínio. Até a próxima.

— Melhor eu não apertar sua mão, doutor. Minha doença pode ser contagiosa.

— Não tenho medo.

— Mas eu tenho. Se o senhor ficar doente, quem vai me atender caso eu volte daqui a vinte dias?

— Caso volte? Por que você não voltaria?

— Nunca se sabe. Se for botulismo, tudo indica que não passo de hoje.

— Tudo bem. Mas você vai voltar, pode ter certeza.

— Deus te ouça, doutor. Deus te ouça.

Plínio saiu com os olhos marejados, mas não era pelo botulismo, nem pelo câncer ou, quem sabe, pela aids. Ele odiava despedidas e aquela poderia ser a última vez que veria o doutor Boaventura.