Admirável Mundo Novo — Life Is Strange: Before The Storm, Episódio 2 — Brave New World

A experiência trazida por Life Is Strange é sempre uma faca de dois gumes, não importa quem está encarregado dela. Seja DontNod ou Deck Nine, a sensação é sempre a mesma: a mão que faz carinho é a mesma que bate — e com igual intensidade em ambas ações. E aqui não foi diferente. Prepara-se para emoções conflitantes em mais uma montanha russa de sentimentos que é este episódio.

Chloe e Rachel contra o mundo

Ainda que seja esta a proposta do jogo como um todo, neste episódio o foco no relacionamento entre Chloe e Rachel é maior, bem como nas consequências do episódio anterior. E aqui a Deck Nine não aliviou para o jogador nem no início, uma vez que o episódio já começa com as duas amigas no escritório do diretor Wells, em Blackwell Academy, enfrentando as consequências por terem matado aula no primeiro episódio — um ato aparentemente inocente, mas que acarretou em resultados catastróficos. A situação inicial serve como lembrete ao jogador de que o jogo, ainda que separado em episódios, deve ser encarado como uma única obra, de modo que suas ações em um episódio surtirão efeitos no próximo. E nesta situação, enquanto uma tenta salvar a pele da outra assumindo a culpa, as consequências podem ser distintas para ambas, dependendo das escolhas do jogador. Mas não se engane: o resultado não será bom pra ninguém. Afinal, é de Life Is Strange que estamos falando. E com a situação escolar de Chloe indo de mal a pior, o mesmo acontece com a sua relação familiar, já que ela não aceita ver os laços entre Joyce e David se estreitando cada vez mais, tornando o padrasto que tanto odeia ainda mais constante na sua vida. E com a única forma que sabe lidar com as coisas, Chloe sai para o ferro-velho. E o que vem a seguir leva a uma das melhores cenas de todo o episódio — se não da temporada até agora — , em que Chloe fuma um cigarro e relaxa ao som da espetacular trilha sonora da banda Daughter, já mencionada no texto sobre o anterior. A sequência de relaxamento tem o poder de quebrar a quarta parede, uma vez que funciona tanto para Chloe, quanto para o jogador. E estamos falando apenas dos primeiros minutos de jogo.

Poderes pra quê?

Ainda parece estranho falar de Life Is Strange sem a presença dos poderes de voltar no tempo. Mas precisa mesmo? Após dois episódios de Before The Storm, é de se questionar se essa mecânica realmente é necessária. Claro, faz falta, muitas vezes eu mesmo quis voltar no tempo para consertar alguma coisa, mas afinal, as decisões têm consequências, o que é ótimo! Sob este prisma, não parece justo que Max volte no tempo e desfaça suas escolhas erradas. Não, o jogador precisa lidar com elas e colher os frutos das mesmas, seja para o bem ou mal. E assim como na primeira temporada, este episódio começa a mostrar escolhas mais pesadas, principalmente do ponto de vista moral, que certamente prometem colocar o jogador em verdadeiros dilemas éticos. E tudo isso é reflexo do ótimo trabalho da Deck Nine — que, novamente, não é a DontNod, mas está de parabéns tal qual a própria — , que diferente do primeiro episódio, obrigatoriamente mais introdutório, aqui se vê livre do encargo de apresentar novos personagens (bem como de reinserir antigos) e pode focar apenas em desenvolver o cenário já introduzido, dando, assim, uma narrativa mais fluída, com mais ritmo, e que realmente leva a algum lugar — basicamente, tudo o que faltou no primeiro, por motivos totalmente escusáveis.

O desenvolvimento dos personagens aqui está excepcional, tanto no quesito gráfico (principalmente no que se refere a Chloe e Rachel, que se destacam dos demais na animação), quanto no quesito da trama, onde, assim como na primeira temporada, nada é preto e branco, e todos tem suas nuances em escalas de cinza. Nada mais justo para um título que carrega a tonalidade em aquarela como uma de suas principais características de arte. Além de Mikey e Steph, tão adorados que dispensam qualquer justificativa, personagens como Drew, Nathan (quem diria), até mesmo Victoria…. Todos humanizados de modo a mostrar ao jogador que eles não são exatamente quem aparentam à primeira vista, trazendo uma nova perspectiva diferente daquela obtida no primeiro episódio. E talvez a questão dos poderes não esteja totalmente descartada, como ficou insinuado acerca de certo personagem. Para não divagarmos em teorias, aguardemos.

Quebrando tabus

Dentre todos os pontos positivos que Life Is Strange traz, um deles sem dúvidas é a seriedade e naturalidade com a qual aborda temas ainda delicados para certa parte da sociedade — infelizmente antiquada e conservadora em diversos aspectos — , como questões relacionadas a bullying, assédio e preconceito, este último principalmente no que diz respeito aos relacionamentos LGBT, que também é muito bem representado neste episódio. Se o primeiro jogo já insinuava uma possível relação homoafetiva entre Max e Chloe, e anteriormente a existência desta mesma relação entre Chloe e Rachel, em Before The Storm isso é explorado com mais profundidade, na forma de uma relação muito bem construída, fazendo o jogador questionar se elas realmente podem vir a ficar juntas, e a até torcer por isso. Além disso, fomos introduzidos à personagem Steph no episódio anterior, e aqui descobrimos sobre sua sexualidade e lidamos com isso de maneira natural, como tem que ser. Pontos para a Deck Nine, DontNod e Square Enix por tratarem este assunto com a mesma normalidade que deve ser tratado na vida real, aumentando a empatia do jogador para com a causa. Talvez por este motivo seja tão difícil de separar o jogo da realidade: pois não é fácil acreditar que um simples jogo pode fazer isso.

Até os mínimos detalhes

A Deck Nine certamente fez direitinho o seu dever de casa. Por tratar-se de um prequel, é natural a referência ao primeiro jogo, já que todos querem ver como os eventos vão se desenrolar até os acontecimentos que já conhecemos. E este episódio é cheio delas, em cada detalhe. Os simbolismos estão lá (em determinado momento do jogo, Chloe se veste de pássaro azul e clama por liberdade, o que remete diretamente ao primeiro jogo); a velha caminhonete dirigida por ela está lá (desde o primeiro episódio, inclusive); o alarme de incêndio no banheiro de Blackwell Academy que salvou sua vida na primeira temporada está lá; parte dos graffitis da Chloe permanecem; Pompidou e os feijões do Frank estão lá; E claro, o gorro usado por ela no primeiro jogo também está lá, para aqueles que o encontraram. E certamente existem ainda mais referências ao primeiro jogo do que eu sou capaz de enumerar aqui, tudo minuciosamente detalhado

Parece a clássica foto de Max em frente à sua parede de retratos no primeiro jogo? Não é mera coincidência.

Outro jogo, mesma Arcadia Bay

Não é apenas Chloe retorna como protagonista aqui. Arcadia Bay também tem mais destaque nesta temporada, não como mero cenário para os eventos que ocorrem, mas como personagem ativo da trama. Claro, não diretamente, mas é possível ver que o clima de mistério e misticismo ainda paira sobre a cidade — e sobre os personagens. Chloe constantemente sonha com William, seu pai já falecido, e um misterioso corvo parece acompanhá-la durante todo o percurso (seja representado fisicamente, nos sonhos, ou em representações abstratas, como em desenhos ou roupas), como se profetizasse mal agouro, que, sabemos, é recorrente na série. Além disso, o elemento de iminente destruição permanece aqui tanto como no primeiro jogo; se antes era a tempestade, agora temos o incêndio — que pode ou não ter se iniciado por meios… sobrenaturais? Bom, isso fica para as teorias dos fãs — que não se exingue e parece avançar para a cidade. Basta conhecer a franquia para saber que não vai acabar bem.

Tecla SAP

É um ponto que deveria ter sido mencionado ainda no primeiro episódio, mas também vale para este. Se você não tem muito conhecimento da língua inglesa, não tenha medo de colocar as legendas em português brasileiro. Mais do que traduzido, a localização do jogo está muito bem feita. Das ofensas às piadas, tudo foi colocado de uma maneira que, embora não seja traduzido fielmente ao original, faz sentido no nosso idioma, mas sem perder a identidade do que se quis dizer. Claro, há quem discorde e prefira os textos originais, mas o jogo permite escolher o idioma de sua escolha para as legendas, independente do idioma em que seu sistema esteja configurado. Ponto para a distribuição da Square Enix!

A escolha pela linguagem mais coloquial, além de funcionar para o português, é condizente com o estilo de Chloe. Do Ep.1 — Despertar.

Já vi esse filme antes

Que Life Is Strange mudou a vida de muita gente — inclusive a minha — não é novidade. Que a Deck Nine já mostrou que pode, sim, levar o título para frente, também ficou claro. O segundo episódio de Before The Storm supera o primeiro em diversos aspectos, principalmente no ritmo e no desenvolvimento dos personagens, além dos momentos de tensão, dos dilemas morais e na diversão que entrega, não há duvidas. Mas há, sim, um ponto negativo no episódio, em minha opinião: A revelação final. A escolha de terminar o episódio com um cliffhanger para o próximo é uma boa ideia como forma de deixar o jogador ansioso e falando do jogo pelos próximos dois meses, mantendo-se em alta nos assuntos discutidos. É uma estratégia que funciona bem com séries, por que não em jogos episódicos? O problema aqui é justamente a respeito do que se trata o gancho deixado: a revelação final do episódio é um tanto… óbvia. Não sei quanto aos demais, mas na minha perspectiva, deu pra ver chegando de longe ao longo de todo o decorrer do episódio, e quando finalmente foi revelado, não houve surpresa, apenas um singelo dar de ombros, como confirmação daquilo que já era mais do que esperado. E isso tirou parte da experiência nos momentos finais do jogo, que se espera ser os mais tensos, pelo menos para mim. Um único defeito em um jogo que está repleto de acertos.

Tudo bem quando acaba bem, certo?

Não quando se trata de Life Is Strange. Aqui não é exceção: Tudo se encaminha para o pior. Já sabemos disso, mas, ainda assim, é impossível não apreciar o trajeto, ainda que o destino final seja trágico. E talvez a mágica de Before The Storm esteja justamente aí: Ao deixar o jogador experimentar o começo e o meio, o fim certamente terá mais significado — e será mais sentido. Não queremos que o fim chegue, mas ele há de chegar, eventualmente. Cabe a nós, então, aproveitar enquanto podemos. Mas não é assim com a vida, que, aliás, também é estranha?

Sobre o derradeiro Episódio 3, só sabemos que é intitulado “Hell Is Empty” (O Inferno Está Vazio), porém ainda não há confirmação da data exata de lançamento, mas a Deck Nine já disse anteriormente que pretendia lançar os episódios em um intervalo de oito a dez semanas. E considerando que entre os episódios 1 e 2 houve um intervalo de exatas 8 semanas, podemos esperar o episódio 3 sendo lançado por volta de 14 de Dezembro. Claro, pode demorar mais que isso, mas é bem provável que veremos o desfecho da história de Chloe e Rachel ainda em 2017. Até lá.

Segue um teaser do Episódio 3, mostrado no final do Episódio 2. Ainda sem data para chegar, a expectativa é para a segunda semana de Dezembro.