Vozes da Amazônia

os povos indígenas diante das mudanças climáticas

Munduruku, Pará, Brazil ©Thiago Cardoso

As mudanças climáticas vem afetando as paisagens bioculturais de nosso planeta. Apesar das negativas dos céticos e mal intencionados, não temos como negar as influências humanas nesses processos de transformação que marcam as estruturas geofísicas e a biodiversidade global, ao ponto de muitos geólogos afirmarem que vivemos num novo tempo, o antropoceno: a era das catástrofes, de extinções em massa e de paisagens precarizadas.

Se enganam os que pensam que os povos indígenas que habitam as florestas tropicais estão alheios e passivos a estas transformações. Das profundezas das florestas, das beiradas dos rios, de suas vilas e aldeias, das cidades, diretamente dos palanques dos congressos nacionais ou das assembleias da ONU, representantes dos diversos povos vem continuamente denunciando os impactos das mudanças climáticas para seus habitats e para os diversos modos de habitar o mundo, apontando que devem ser ouvidos e terem espaços efetivos nos debates sobre o meio ambiente e desenvolvimento, bem como sobre as iniciativas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. É por este caminho que desponta os povos indígenas na Amazônia.

Assim nos diz Sônia Guajajara, líder da maior organização indígena brasileira, a APIB, quando diz numa frase emblemática que “discutir mudanças climáticas e adaptação sem a presença indígena é negar o direito e a contribuição dos diversos povos para esta temática, os territórios indígenas são os que mais preservam e os que hoje sofrem grandes ameaças”1. No mesmo caminho, Estevão, do povo Bororo e membro do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC), afirma que “as mudanças climáticas já estão aí. E as terras e os povos indígenas têm um valor muito importante nessas questões”2. Para Manuel Kanunxi, liderança do povo Manoki, a convivência de seu povo com a natureza está mudando devido à influência da mudança do clima, causada pelo desenvolvimento de atividades como o agronegócio. Para ele “não sabemos dizer para onde a humanidade vai chegar”.

Estes valores dos povos indígenas diante das mudanças climáticas, podem ser visto nos seus conhecimentos ecológicos em torno de seus territórios tradicionais. Os conhecimentos ecológicos indígenas são mobilizados para o entendimento das mudanças ambientais e para a busca de novos caminhos para a vida cotidiana de uma aldeia. No filme “Para onde foram as andorinhas”, conhecedores dos povos indígenas do Xingu percebem as mudanças no clima devido ao aumento do calor e da falta de chuvas, do impacto brutal do desmatamento pelas fazendas de soja e construção de barragens. Em uma passagem do filme nos bridam com trechos belíssimos indicando a percepção da interconexão da biodiversidade e do clima, “cigarras não cantam mais anunciando as chuvas e borboletas não chegam mais avisando que os rios vão começar a secar e as andorinhas sumiram”. Tais mudanças afetam também os ciclos rituais e modo de organizar o trabalho numa aldeia xinguana.

Já no noroeste amazônico, David Kopenawa, renomado xamã e líder político yanomami, em companhia do antropólogo Bruce Albert redigem o fabuloso livro “A Queda do céu”. Nas páginas da obra Davi evoca a criação e a destruição dos mundos pelos ancestrais míticos, no tempo em que o céu caiu, e poderá cair novamente caso não sejamos capazes de reverter o processo destrutivo atual. Enquanto o homem branco com suas mineradoras e madeireiras insistem em furar a terra, derrubar árvores e soltar suas fumaças venenosas, os xamãs Yanomami se esforçam para segurar a floresta de pé num esforço quase quixotesco de política ameríndia contra-modernidade tóxica. Este alerta, nas palavras de Davi soa como uma profecia que vem sendo dada já há muito tempo, mas eu, ou o nós ocidentais, não somos capazes de ouvir…“o homem branco não sabe sonhar, por isso destrói sua casa”.

A mensagem é clara, o tempo em que os povos indígenas eram vistos apenas como mão de obra, ou como objeto da administração colonial ou até como portadores de conhecimentos exotéricos, exemplos dos “bons selvagens” rousseaunianos, acabaram e estão dando lugar a agentes políticos. Neste caminho, no que tange à questão ambiental, os povos indígenas falam por si diretamente de seus lugares, analisam e diagnosticam as transformações do clima e da biodiversidade por meio de seus especialistas, portadores de uma percepção acurada do ambiente em que vivem. E assim lutam em torno de seus direitos territoriais comunais e da manutenção de práticas ecossistêmicas ressurgentes, afirmando a possibilidade de habitarmos outros mundos, ou altermundos para o viver bem.

Esta mensagem vem sendo pouco apouco entendida pelas pessoas do ocidente, que cada vez mais reconhecem o papel ativo e central dos povos indígenas da Amazônia no debate sobre mudanças climáticas. O jornal The Guardian, por exemplo, vem divulgando uma série de pesquisas que concluem que as comunidades indígenas dos trópicos, em especial da Amazônia, possuem centralidade na manutenção do estoque florestal de carbono e na mitigação das emissões globais3. Segundo relatório publicado recentemente os povos indígenas dos trópicos manejam cerca de 24 porcento do total de carbono estocado nas florestas. Tais estudos chamam a atenção para a importância do reconhecimento dos direitos territoriais destas comunidades. Já os meios oficiais como o IPCC5, em seus Assessment Report, toma nota para a incomensurabilidade dos conhecimentos tradicionais para o desenvolvimento de bases para as estratégias de adaptação em respostas as mudanças ambientais e sociais em decorrência do clima6.

Todavia, apesar deste reconhecimento crescente, as observações e avaliações dos povos indígenas sobre as mudanças climáticas permaneceram relativamente inacessíveis ao processo do IPCC, principalmente devido a barreiras linguísticas e socioculturais, mas também aos resquícios de colonialidade do saber e do poder que ainda persiste nas esferas de governança ocidentais. Assim, em sua maior parte, o conhecimento dos povos indígenas, suas vozes, são invisibilizados ou marginalizados diante do discurso científico e da política dos Estados Nacionais, ou seja, permanecem fora do escopo das avaliações do IPCC. Desta forma, boa parte dos especialistas e cientistas deixam de observar e considerar a riqueza de modos de construção da paisagem e de manejo da biodiversidade terrestre e aquática por estes povos, bem como suas estratégias para perceber e lidar com transformações de larga escala. Ao continuarmos nesse caminho perderemos as oportunidades de aprender com a diversidade de modos de viver, de pensamento, com as diferenças de fundamentos sócio-ecológicos, memórias, praticas e experiências que cada povo estabeleceu ao habitarem um mundo comum.

Para finalizar deixo aos leitores uma frase de Ailton Krenak, renomada liderança indígena do Brasil, que nos faz pensar sobre as possibilidades de diálogo intercultural e intercientífico e os cuidados para lidarmos com as mudanças climáticas junto com os povos indígenas,

“As mudanças globais atingem diversas regiões do planeta e claro, afetam os lugares onde cada uma das comunidades indígenas, afeta a memória desses lugares onde nosso povo desenvolveu formas de percepção sobre os ecossistemas, dos ambientes onde vivemos. Essa memória confere com muitos relatórios que o painel do clima divulga e que está muito presente no nosso pensamento mas pouco em nosso coração. As pessoas tomam esses relatórios como estatistificas e não como perda qualitativa de nosso modo de vida e ligação com a terra”.

Published in http://deepforestfoundation.com/journal/voices-from-the-amazon

1 Ver no Filme “vozes indígenas num clima em mudança” (http://diplomatique.org.br/vozes-indigenas-num-clima-em-mudanca/)

2 Curso de Formação em Mudanças Climáticas e Incidência Política (http://www.socioambiental.org)

3 Watts, Jonathan, Indigenous rights are key to preserving forests, climate change study finds. The Guardian, November 2016. Parry, Bruce, Why land rights for indigenous peoples could be the answer to climate change. The Guardian, november 2016.

4 Toward a Global Baseline of Carbon Storage in Collective Lands, an updated analysis of indigenous peoples and local communities contribution to climate change mitigation, november 2016

5 Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) é uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU) pela iniciativa do Programa das Naçoes Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Metereológica Mundial (OMM). Tem como objetivo principal sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas que hoje afetam o mundo, especificamente, o aquecimento global, apontando suas causas, efeitos e riscos para a humanidade e o meio ambiente, e sugerindo maneiras de combater os problemas

6 PCC, 2014: Climate Change 2014: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, R.K. Pachauri and L.A. Meyer (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland, 151 pp.

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