Quanto vale a música? Para a Apple, nada

No meu antigo blog, escrevi a respeito dos serviços de streaming e como esse modelo de consumo de música deve ultrapassar em pouco tempo o do download. Escrevi um sobre o Spotify, o líder desse mercado, e um sobre a Deezer, segunda maior.

Além de Tidal, Napster, Rdio e outros, o setor de streaming vai ganhar um concorrente peso-pesado: Apple Music, que ganhará vida em países como Estados Unidos no próximo dia 30. Mesmo antes do lançamento, a empresa que ficou conhecida recentemente pela capacidade de inovar e de chacoalhar indústrias como as de tecnologia e entretenimento é alvo de críticas fortes justamente pela estratégia ortodoxa e moralmente duvidosa com que apresenta sua nova cria.

A Apple está contatando gravadoras e representantes de artistas pedindo para que eles abram mão de receber pagamentos nos três primeiros meses da Apple Music — sim, uma banda libera suas músicas para o serviço e, em troca, não ganha nada nesse período.

A desculpa da Apple é a de que, depois desses 90 dias, a empresa vai repassar aos artistas mais do que os concorrentes — não foi divulgado o quanto mais (a Deezer, por exemplo, afirma que 70% da receita vai para os artistas.

Anton Newcombe

A estratégia da Apple foi recebida com espanto (e raiva) por artistas e selos independentes. Pelo Twitter, Anton Newcombe, líder do Brian Jonestown Massacre, escreveu:

“Não é certo que esses ‘fucking idiots’ decidam que a arte não tem valor”.

Também pelo Twitter, o cantor Bon Iver mostrou-se indignado com a proposta da empresa que um dia lançou iPod, iPhone e iTunes e mudou o mercado da música para sempre — e aproveitou para elogiar o Spotify:

“Estou amando o Spotify, que fique registrado. (…) e acho que cd’s + lp’s e cassetes são ainda melhores”.

O jornal britânico Telegraph soltou uma matéria ótima em que gente da própria indústria da música faz críticas ao método da Apple.

“Eles estão basicamente colocando todos os riscos nas costas das gravadoras. (…) A Apple está sentada em cima de uma pilha enorme de dinheito e dizendo ‘Nos ajude a começar um novo negócio’. Bem, não acho que isso vá acontecer com essas condições”.

As palavras acima são de Andy Heath, diretor da UK Music, empresa que cuida de interesses da indústria fonográfica britânica.

Ao Music Business Worldwide, um executivo de gravadora independente afirmou:

“É a Apple, que possui centenas de milhões de cartões de créditos de seus consumidores. Não oferecer nenhuma compensação às gravadoras por um serviço que vai ajudar a Apple a vender seus produtos é extremamente desapontador.”

Stuart Johnson, presidente da Associação de Música Independente do Canadá, foi ainda mais duro:

“A Apple está usando sua força enorme para pressionar as gravadoras independentes e seus artistas a assinar um contrato que vai beneficiar apenas a Apple.”

Entende-se a revolta de artistas e gravadoras (principalmente os indies). Essa proposta da Apple faria sentido se a empresa estivesse testando um mercado completamente novo, sem saber como o consumidor fosse se comportar. Mas não é o caso. O mercado de streaming já está estabelecido e deve crescer ainda mais nos próximos anos. Nada justifica essa estratégia da empresa. A Apple, assim, se coloca não como uma empresa inovadora, mas como as ultrapassadas e agressivas gravadoras quando apareceu o mp3.