o caso do cachorro roubado no zaffari
vitinho levantou num pulo da cama feita no chão. já era 6 horas da manhã e ele precisava ver os corre de um trampo lá pros lados da 24. fazia tempo que sentia um misto de raiva e ansiedade pela situação que se encontrava, mas não sabia como organizar esse sentimento. queria trabalhar, mas estava fechando um ano sem conseguir nada. como tava com dinheiro só para um passe, tinha que caminhar da 6 do pinheiro até a bento, perto do campus do vale da ufrgs.
- que caminhada, pae! — pensou consigo mesmo.
queria dar uma olhada no seu instagram, mas não tinha dinheiro para colocar crédito. uma preta que ele tava de resenha tinha acabado de começar a seguir ele por lá, precisava ver qual era a cena.
tava passando uns tempos na casa de um tio, que o acolheu quando ele tava sem morada. dividia a casa com o tio, sua esposa e mais três filhos. era apertado, tanto de grana quanto de espaço físico.
comeu umas pipocas que tinha sobrado da noite anterior com um café fraco e partiu. a caminhada seria longa.
lá no bom fim, por volta das 9h30, flavinha bortoncello acabara de chegar em casa vindo da aula de yoga. estava apressada, pois o dia lhe reservava ainda aula de reiki, natação, cursinho de inglês e, para finalizar, um happy hour com as amigas num badalado bar com temática de signos na cidade baixa.
seu apartamento era modernamente decorado com lembranças de suas três EUROTRIPS que ela fez com os amigos da agência (dudu, léo e bruninha).
só passou em casa para pegar o seu cão Cassel — nome tirado de um ator francês que ela admirava. precisava correr para o mercado pois havia notado que acabara o HÚMUS e precisava de mais alguns uns itens para a sua dieta vegana.
pegou o cassel no colo, tirou uma foto e postou na sua conta e na conta do cachorro escrevendo #instadog. dá uma olhada no seu grupo de whats onde se organiza um encontro para o próximo final de semana, e resolve postar:
- ME CHAMA PRA TOMAR LITRÃO!!
chegando no zaffari, amarrou seu pet junto à grade e entrou no mercado.
vitinho estava saindo da sua frustrada entrevista. o recrutador mal o olhou e o dispensou, dizendo que entraria em contato logo.
- filho da puta! deve ser pela minha roupa e minha pele escura.
ele havia emprestado uma camisa do seu tio e o seu tênis estava com a sola furada.
como estava pelas bandas da independência, sem passagem para voltar, resolveu dar uma esticada pelas bandas do bom fim.
ao andar por aquelas ruas, sentia um desconforto que se manifestava quase que fisicamente. esticou as costas e o pescoço na esperança que esse incômodo desaparecesse. foi em vão.
descendo pela fernandes vieira, ele cruza por nei lisboa. vitinho não faz ideia quem seja nei lisboa. logo, isso não faz diferença nenhuma no nosso conto.
ele já se encontra na frente do zaffari e de cassel.
- porra, que cachorro bem cuidado do caralho! deve valer uma nota.
vitinho nunca havia roubado, mas naquele dia especialmente ele tava puto da cara e afim de fazer umas cobranças.
-será que meto esse sarnento? tô precisado, sangue — internalizou
num impulso quase que automático, ele desata o nó da coleira, coloca o cão embaixo do braço e sai caminhando calmamente.
flavinha está recém tirando a carteira da bolsa em que ostenta um adesivo “GO, VEGAN” para pagar a conta. se encaminha para a saída quando nota a ausência de Cassel.
- MEU FILHO, MEU FILHO! — grita desesperadamente
- meu deus, teu filho? que foi?? — pergunta um transeunte.
- meu cachorro que estava amarrado aqui! -
a informação de que era um cachorro que ela havia perdido cai como uma bomba entre os frequentadores do mercado e do bairro. um alvoroço se instala. uma mulher inicia um choro. um homem esfrega o rosto nervosamente. desolação é o sentimento geral.
- antigamente era mais seguro! –diz um senhor que tenta ajudar.
flavinha imediatamente posta a foto de cassel junto com a informação de que acaba de perde-lo no grupo do whats intitulado doglovers. redes sociais e pessoas já estão mobilizadas atrás do animal.
a algumas quadras dali, vitinho anda com o cachorro embaixo do braço sem saber o que fazer.
- já pedi um apoio nas ruas e bares da cidade baixa e notei que as pessoas pilham mais em dar grana quando se está com um bicho a tira colo. mas mano, não vão acreditar que esse pulguento é de rua e é meu. e outra, não posso levar ele lá para a vila, não duraria 3 minutos. vou ter que fazer uma outra mão.
aquele incômodo que sempre sente ao andar por ali, agora parece multiplicado por 10. sabia que logo iam desconfiar com aquele bicho no colo.ele estava certo.
não demora para que uma senhora de cabelos grisalhos, semblante pesado e óculos gigantes estranhe aquele rapaz de pele negra retinta na companhia de um cachorro que certamente custa uma boa quantidade de reais. ela o aborda:
- que lindo cachorro, filho. é seu?
vitinho fica nervoso. não sabe o que responder.
- ba, tia, é outra fita. encontrei ele perdido aí pelas ruas e queria encontrar a dona dele.
a intrépida senhora pensou no lucro que poderia ter numa possível recompensa com o animal:
- façamos assim, meu filho. te dou 50 reais pelo incômodo e tu deixa esse amorzinho comigo. tenho quase certeza que a dona é a minha vizinha.
vitinho raciocinou rápido e viu que poderia se livrar do problema e ainda lucrar um dinheiro, que viria muito a calhar naquele momento.
- feito, tia! pega esse cachorro aqui porque ele tá fedendo e me deixando cheio de pelos.
a transação ocorre de forma relativamente rápida. vitinho se despede da senhora e se encaminha para o lado da joão pessoa.
ele pensava no que poderia fazer com esse dinheiro. as primeiras ideias eram colocar crédito no celular para desenrolar a cena com a preta que ele tanto queria, comer um dogão e quem sabe até sobraria uma grana para bater aquela bola com a gurizada na quadra da vila mapa. vai dar para dar uma corrida atrás de trampo de forma mais tranquila.
flavinha reuniu as amigas no seu apartamento. choraram juntas. ela sabia que esse período seria difícil.
- estou no meu inferno astral, além do mercúrio retrógrado.
compadecidas, as amigas resolvem acender um baseado.
- que camarãozinho bom! exclama nanda, depois de dar uma tragada.
- o beto que trouxe da nossa última ida para o rosa — responde ana, que estava deitada na rede que atravessava a sala de flavinha.
já mais relaxada, flavinha tem uma ideia que até então não havia lhe ocorrido.
- já sei! vou pedir para o pai transferir mil reais para a conta daquele canil lá em cachoeirinha e pego um cachorro novo. vai se chamar frida.
As gurias ficaram animadas, se arrumaram e partiram para aproveitar a noite porto alegrense.
vitinho já se encontra no partenon. resolveu caminhar um pouco para pensar.
- podia ter pedido mais do que cinquenta conto. para aquela tia um galo não é nada. — pensa.
no meio do caminho, ele encontra uma lan house.
- irmão, mete quinze conto de crédito na oi, dois conto de currículo e uma hora no computador.
- escolhe a máquina, mano — responde o atendente.
- ô dos meu, a gente não se conhece de outros embolamentos. — interpela vitinho, de forma desconfiada.
- tua cara não me é estranha — diz o atendente — sipá a gente já se pechou por aí.
- sereno, mano.
