As Crônicas dos Quatro Cantos

Capítulo Um: Luz e Sombra

-E então, com uma bravura inigualável, Sir Nicholas conseguiu conquistar todo o Norte de Jamieshaven, antes tomado pelo temível Sire, o Senhor das Trevas. É interessante notarmos que, com a conquista das Terras Altas, os tratados comerciais entre o Barão e o restante das colônias fora reestruturado, fazendo com que o soberano, antes escondido e oculto pelas sombras da discórdia, enfim se reerguesse, de todos os modos possíveis. Não podemos nos esquecer de que… — a voz monótona e regurgitada do Professor Nicolau ecoava pela sala de aula, ricocheteando pelas maciças paredes de teixo, enquanto suas mãos elaboravam um esboço do que teria sido a Batalha das Terras Altas. Seus dedos, perambulando pelo quadro-negro, descendo em escadas imaginárias e sendo degolados por espadas feitas de unhas, não paravam de dançar num ritmo descompassado.

Os alunos, nos primeiros minutos de aula tão atentos, já se debruçavam pelas carteiras de mogno, implorando para que a aula acabasse. Seus olhos formigavam e pareciam ser forçados a continuarem abertos.

Alguns deles olhavam impacientemente o relógio da Catedral, que se movia lentamente, como se não houvesse pressa de fazer o tempo passar. As grandiosas janelas transpassavam a luz refinada do sol. O forte cheiro de lavanda e azevinho se impregnasse não só nas vestes, mas em tudo presente na sala de aula.

Em alguns minutos o relógio badalaria, pensou um dos alunos. Um garoto meio magricela olhava esperançoso para os verdejantes jardins do Castelo. Suas vestes — calças risca-giz acinzentadas, sapatos pretos, uma camisa branco-pérola e um casaco enegrecido — emanavam um forte cheiro de jasmim, misturando-se ao pouco suor que o sol lhe causara.

- SENHOR LE FAY! — a voz do Prof. Nicolau trovejou. Muitas cabeças, envoltas em névoas de devaneios, viraram-se imediatamente para ele — Por que olha com tanta vontade para os jardins? — os braços do professor cruzaram-se sobre sua túnica azul-marinho cravejada com diamantes pretos e vermelhos. Seus olhos esmeralda fixavam-se no garoto, através dos grossos óculos de aros dourados. Seus cabelos prateados cobriam parte de sua face razoavelmente desfigurada.

O rosto do garoto se empalideceu. — Eu… Só estava… Bem, veja só… — as mãos adornadas por anéis de safira e topázio se levantaram

- Não quero desculpas. Escute-me bem, Sr. Le Fay… — ele se curvou à frente, e o garoto teve de chegar mais perto para que pudesse ouvi-lo. — Caso volte a devanear nas minhas aulas, poderá ter muito tempo para refletir sobre a vida na detenção. — pomposo, Nicolau voltou-se à frente da sala. Nesse exato momento, os badalos sonoros da Catedral se iniciaram. Em uníssono, os alunos pareceram acordar de um sono profundo, sobressaltando-se nos próprios lugares. — Como lição de casa — o professor começou, em meio a uma revoada de protestos — quero sessenta centímetros de pergaminho retratando quais eram os tratados comerciais da época em que as Terras Altas foram tomadas. Para a próxima terça-feira. — carregando o material, os alunos se dirigiram à porta, definitivamente ignorando cada palavra de seu mestre.

Olhando uma última vez à sala, William Le Fay, o aluno repreendido há poucos momentos, lançou um olhar significativo ao professor, que se perdia em meio às pilhas de livros e documentos históricos, em sua escrivaninha; um tinteiro e uma pena de pavão verde-esmeralda ficavam próximos a um grande rolo de pergaminho em branco; seu quadro-negro, preenchido por datas históricas, localizava-se à frente de uma estante completamente forrada de adornos excêntricos que variavam de cérberos feitos de cobre a hidras prateadas; de laelaps ornamentados com ametistas a testrálios cravejados de diamantes.

A abafada sala de Nicolau havia sido pintada num enjoativo e desanimador tom de ameixa-brava; o soalho, coberto com carpete cor de pêssego, abafava os passos, permitindo magicamente que o único som audível fosse a monótona voz do professor. No teto ogival, o qual apontava diretamente a uma claraboia, o esqueleto de um Dragão da Indonésia jazia, utilizado para fins acadêmicos.

A sala era iluminada, às noites, por archotes presos às pilastras de mármore; uma lareira, a qual nunca era acesa, permanecia intocada aos fundos da sala, enegrecida pelo carvão nunca usado. — WILL! — uma voz chamou o garoto, despertando-o de seu devaneio — ANDE! VAMOS NOS ATRASAR! — Will olhou para trás, e notou sua melhor amiga, Jennifer Keefe. Com quinze anos, possuía cabelos ruivos e lisos, além de olhos castanhos e um corpo realmente esbelto. Estendeu suas delicadas mãos ao encontro de Will, e puxou-o da sala de Nicolau.

Will e Jennifer começaram a andar pelos corredores preenchidos com os muitos alunos do Castelo. — Qual é o seu próximo período, Will? — Jennifer perguntou, retirando da mochila um pedaço de pergaminho envelhecido — Não me recordo do meu… Não decorei até agora… Ahá! Tenho Botânica, com a Profª. Garnet. Dois períodos… — ela murmurou, com um ar de desapontamento.

- Tenho Alquimia, com o Prof. Bones. Tenho dois períodos também. Não sei se aguentarei ter duas aulas com aqueles quartanistas… — disse Will, admirando as paredes de mármore do Castelo.

O Castelo era ministrado pelo Barão de Vermont, concedendo-lhe o nome. O governante de Jamieshaven havia começado a ensinar os jovens de seus domínios há apenas duas décadas, a fim de que formasse futuros governantes, até melhores do que eles. Os melhores alunos haviam sido escolhidos como Ministros e Senadores do próprio séquito do Barão. Outros viajaram a outras regiões de Jamieshaven, como Madge, Keegan e a Península das Três Ilhas.

Antes de o Barão ser nomeado definitivamente nosso governante, o reino de Jamieshaven era comandado por ninguém menos que o Senhor das Trevas, Sire. Juntamente aos seus comparsas, seu império de glória e terrorismo havia florescido das partes escuras do reino de Raven, além das Montanhas Proibidas e do Vale Lacrimoso.

Seus asseclas, os Warlogs, ajudaram-no a prostrar por entre a pacífica terra de Jamieshaven, suas exigências, para que não houvesse mortos. Entretanto, o reino não ficara calado. Saindo do oculto, um grupo de cavaleiros, cujos nomes são desconhecidos, incitou boa parte da população a revoltar-se quanto à tirania existente.

As forças de Sire se retesaram e ficaram à sombra desde então. O Barão, o único conhecido que realmente voltou à terra natal, tornou-se o governante da província de Vermont. As outras regiões, fragmentadas pela tortuosa guerra que tirou a vida de mais de um terço das pessoas, foram gradativamente recuperadas, e postas às mãos e aos cuidados do “salvador” — um carinhoso apelido dado ao Barão.

E, para que a ignorância não arrastasse o povo de volta à escuridão, ele abriu as portas do Castelo e fez questão de que todos os jovens das regiões — tanto de Vermont quanto das províncias vizinhas — fossem educados sabiamente pelos melhores mestres de Jamieshaven.

A partir daquele momento, o grande país fragmentava-se em onze regiões bem definidas por seus povos, separadas por altos muros construídos durante a Idade do Bronze. Ao Norte, sobrepunham-se as províncias de Madge, Keegan, Tristan e Brunshwick; ao Sul, Montgomery, Partênope, Raven e Tydligeth; ao Centro, Vermont, Ictinus e Deheon, as quais controlavam a economia, política, educação, transações comerciais com outras regiões dos Quatro Cantos, entre muitas outras coisas.

Ainda havia as ilhotas a Nordeste de Jamieshaven, Solum, Luna e Stellae, as quais formavam a Península das Três Ilhas. Nesse lugar, vivam as sereias e os gigantes, seres mitológicos, banidos para tão longe por terem se aliado às Sombras. Contudo, recentemente, os comerciantes de Jamieshaven descobriram diversos produtos — plantas, com mais exatidão — com propriedades medicinais poderosíssimas, como as arnicas e os cardo-marianos, e considerável valor lucrativo. Na verdade, a Península pertencia aos domínios das províncias Centrais, não podendo ser exploradas pelos outros povos. E é por essas razões que Jamieshaven cada vez mais se fortalecia, e criava laços econômicos quase indestrutíveis com várias partes do mundo.

Will atravessou o conturbado corredor e chegou ao Corredor Norte do primeiro andar. Examinou com cuidado o recinto, antes de se lembrar de onde se localizava sua próxima aula.

Os corredores do Castelo eram extremamente extensos; suas fortes paredes, criadas e erguidas por arquitetos de Partênope, eram feitas inteiramente de uma mistura de calcário e mármore. As janelas, cravejadas com pedras preciosas das Minas de Brunshwick, e cada qual representando seres mitológicos ou cenas de batalhas importantes na história, mostravam os bem-cuidados jardins da propriedade, os quais eram adornados com teixos, carvalhos, pinheiros, ameixeiras, ébanos, cedros, entre muitas outras; as sinuosas escadarias espirais eram construídas com granito branco-pérola; o soalho, forrado com mica, fazia com que os passos dos alunos ecoassem pelos corredores.

O Castelo abrigava pelo menos oitocentos alunos. Todos possuíam quartos — porém, estes eram usados apenas pelos recrutados de outras províncias -, localizados no oitavo andar. Possuía centenas de escadarias, que poderiam levar-lhe para qualquer dos muitos lugares excêntricos existentes nos terrenos, inclusive ao curioso Campo de Arco-e-Flecha, cobiçado por muitos e encontrado por poucos. Os quadros, pintados nos séculos dezesseis e dezessete, preenchiam as paredes guarnecidas em ouro. Os lustres, os quais portavam milhares de pequeninas velas que pareciam nunca se apagar, pendiam ao teto ogival do Castelo.

Havia um Saguão Principal, no qual diversas mesas retangulares permitiam que os alunos realizassem suas refeições. Cada mesa representava um ano escolar. Will e Jennifer sentavam-se na quinta mesa, pois, como supracitado, eram quintanistas. O Saguão encontrava-se no Térreo, assim como o Pátio Central e as entradas do Castelo.

As salas de aula espalhavam-se pelos demais andares; as matérias mais sofisticadas, como Aritmancia, Astronomia e Latim, ficavam próximas aos quartos dos alunos, nos andares seis e sete. Matérias como Botânica deveriam ser realizadas ao ar livre; contudo, a sala encontrava-se no sétimo andar.

História, Política, Economia e Geografia localizavam-se no quinto andar. Já Alquimia, Poções e Estudo da Sociedade Medieval, encontravam-se no quarto andar. No andar de número três, os alunos aprendiam Numerologia, Ocultismo, Adivinhação e Zoologia; no segundo, os alunos poderiam se reunir na Biblioteca, para discutirem sobre seus deveres, e para esfriarem a cabeça com um bom livro. No primeiro andar, encontravam-se os aposentos dos professores — todos subordinados do Barão — e os aposentos do próprio diretor, por assim dizer. Além disso, os clubes existentes por toda a escola haviam se formado no primeiro andar. Havia ainda uma aula especial, destinada a alunos com excepcionais habilidades… Todavia, era desconhecida pela maior parte dos corpo discente, incluindo Will.

Existiam outras matérias, com certeza. Porém, não tão relevantes quando as citadas anteriormente. Will e Jennifer tinham, pela maior parte, as mesmas aulas, apenas com algumas diferenças.

- Bom — disse Jennifer, após um longo silêncio que tomara conta dos dois amigos — Acho melhor ir lá para fora, se não quiser levar outra detenção. Nos encontramos na biblioteca mais tarde? — ela perguntou, ansiosa.

- Claro — Will respondeu, olhando às escadarias que teria de subir. De relance, percebeu que o grande relógio de pêndulo marcava nove e quinze. Ainda tinha dez minutos para chegar ao quarto andar. Começou a subir, vagarosamente, quando foi interceptado por um garoto de cabelos louros. O garoto tinha as vestes respingadas com algum tipo de substância esverdeada.

- Me desculpe, Will — o garoto murmurou. Seu nome era Bryan Garnet. Havia conhecido Will quando havia se mudado para a província de Vermont, vindo de Keegan. Bryan vinha de uma família de camponeses, a qual trabalhava para o governo. Os impostos que pagavam iam diretamente às mãos do Barão, o qual redistribuía entre os Comandantes: onze fiéis subordinados ao governante principal que ministravam o dinheiro como bem entendiam. Felizmente, todos eram — ou tentavam ser — extremamente bondosos para com seu povo. Agora, a família de Bryan trabalhava nos campos de Vermont, e moravam às proximidades do Castelo. — Estou atrasado. Se me der licença, por favor… — ele passou por Will rudemente, ainda tentando tirar o líquido esverdeado de seus trajes.

- Mas, Bryan… Nossa próxima aula é lá no quarto andar. Aonde você está indo? — ele perguntou. Bryan parou e se virou para ele.

- É verdade… — ele sibilou. Arrumou suas coisas, que estavam quase despencando de suas mãos lotadas, colocando-as na mochila vermelho-fogo. — O que eu estava pensando… Quanto tempo a gente ainda tem? — perguntou ele, consultando o grande relógio de pêndulo.

- Uns cinco minutos — eles se apressaram em subir as escadas. Desviando de vários alunos que vinham ao seu encontro. Seguiram reto, ao chegarem ao quarto andar; viraram à esquerda, num corredor mal iluminado, cujas paredes portavam archotes que quase se apagavam. As chamas bruxuleavam avidamente, tentando se manter acesas. Ao chegar ao final do corredor, o qual cheirava fortemente a guelricho, viraram à direita.

Pararam em frente a uma porta adornada com constelações, talhadas em madeira. — Sr Le Fay! Sr. Garnet! Por sorte não chegaram atrasados! — o Prof. Bones, um homem levemente careca no topo da cabeça, estendia-se por sobre uma pilha de pergaminhos amarelados. Suas mãos ossudas tamborilavam o tampo da mesa de mogno puída e envelhecida. O grande anel de safira que portava em sua mão direita, banhado em ouro branco, mostrava o reino a qual pertencia. — Tomem seus lugares, antes que eu os coloque em detenção. — Will e Bryan sentaram-se imediatamente, abrindo seus livros de Alquimia.

“Pois bem… Como estávamos estudando na última aula, diversos alquimistas, ao longo do século, tentaram descobrir incessantemente a Pedra Filosofal, tal como Paracelso e Fulcanelli. Todavia, a teoria mais aceita e mais comprovada foi feita no século XIV, pelo alquimista e cientista Nicolau Flamel. Flamel nasceu em Pontoise, Galdor, e antes mesmo de tentar escrever a teoria sobre o Elixir da Vida, era copista, escrivão e vendedor. Ao mudar-se para Tasartir, em Prímula, fez a tradução de hieróglifos de um livro, que se tratava de cabala e alquimia. Infelizmente, o nome do livro nunca foi descoberto, mas diz a lenda que, ao traduzi-lo, possuía a fórmula para a Pedra Filosofal.”

O Sr. Bones continuou explicando sobre os livros escritos por Flamel, enquanto os pensamentos de Will devaneavam novamente.

Cada província de Jamieshaven recebia uma pedra específica, a qual era trajada por seus respectivos Comandantes. As pedras que espalhavam-se pelo reino eram: safira, ônix, ametista, topázio, rubi, lápis-lazúli, jade, esmeralda, diamante, ágata e obsidiana. A safira pertencia a Vermont, o diamante, a Ictinus, e rubi, a Deheon. As outras pedras foram sorteadas na Grande Assembleia, ocorrida há exatamente cinquenta anos.

- SR. LE FAY! — a voz do Sr. Bones ribombou pela sala de aula, atingindo seus ouvidos — O senhor me ouviu? — ele perguntou, parado exatamente ao lado do grande quadro-negro, forrado com diversos hieróglifos.

Will, admirando o professor, tentara se lembrar do que havia dito. Talvez algo sobre o elixir da vida… Ou da transmutação de metais em ouro… — Pedi — ele começou, andando pela sala — para que abrissem os livros na página sessenta e cinco, e que lessem o capítulo três — ele acariciou seu cabelo grisalho e olhou fixamente a Will.

Envergonhado, abrindo o grande livro de Alquimia. Ao chegar à determinada página, começou a ler sobre o Sumário Filosófico, aprendendo sem qualquer vontade o que Flamel pensava antes de descobrir seu precioso elixir da vida.

*

Muitos momentos mais tarde, com os olhos cansados e as têmporas latejando, os alunos puderam fechar os grandes livros. Antes que pudessem ao menos se levantar, o Prof. Bones se levantou e declarou à classe — Para a próxima aula — houve um murmúrio de protesto por grande parte dos alunos — Quero cinquenta centímetros de pergaminho relatando a vida e os feitos de Paracelso e Fulcanelli. Sem desculpas! — com essa frase ameaçadora, Will foi o primeiro a sair da sala, sendo seguido por um olhar carrancudo daquele homem. Despediu-se de Bryan, que seguiria diretamente à parte mais norte do Castelo, começou a caminhar, pensando nas delícias que teria na hora do almoço. O cheiro de pernil assado invadiu suas narinas, enquanto, distraidamente, tropeçou num dos degraus levantados da escadaria de pedra. Derrubando as anotações que carregava às mãos, ele se apressou em juntá-las.

Subitamente, vozes apareceram no final do corredor iluminado pela luz do sol que atravessava as grossas janelas de cristal. Will, sendo rápido, tratou de juntar os papéis e escondeu-se entre duas pilastras que haviam criado uma fenda entre si. Parou de respirar, para que pudesse ouvir à conversa. O garoto era muito curioso e isso, às vezes, o colocava em perigo.

As vozes eram masculinas. Uma delas era velha, cansada, e parecia estar morrendo ao tentar se elevar. Espiando por entre os pequeninos buracos do frio calcário, Will conseguiu ver o Barão, examinando o jardim lá embaixo por entre as ornamentações em pedra ogivais. Em seu encalço, o professor de Poções, Prof. Vitgard, vinha, mancando. Sua túnica renovada, cor púrpuro-berrante, carregada com pequenas ágatas, esvoaçava.

O Barão, como sempre, portava seus trajes de guerra. Calças de couro amarronzadas, botas de cânhamo douradas, uma camisa branca-pérola e um casaco de tweed verde-água. Sua barba ruiva encrespava-se por entre seus dedos, e seus cabelos haviam perdido um pouco da cor de fogo. Suas mãos, carregadas com anéis antiquados, porém raramente vistos em toda a aldeia. Eles eram uma mistura de todas as pedras pertencentes às onze províncias de Jamieshaven.

O Barão também possuía um longo colar de prata, o qual ostentava uma safira azul-elétrica, que cintilava enquanto andava. — Vossa Majestade! Não podemos mais perder tempo! — o Prof. Vitgard estremeceu, quando retirou de um dos bolsos um pergaminho envelhecido — O senhor sabe que as rotas comerciais com Partênope e com as Terras Nórdicas estão se perdendo! As remessas de Theobroma e de açúcar foram interceptadas pelo controle alfandegário. — Will se perguntava o porquê do Prof. Vitgard se importar tanto com a entrada ou não de ingredientes importados nas terras de Jamieshaven — Lembra-se do dinheiro usado à restauração do Palladium?

- Sim, sim, lembro-me, James — o Barão parecia inquieto — Tenho certeza de que quando recebermos os impostos das Terras Altas, poderemos pagar à alfândega o dinheiro que eles tanto esperam.

- Milorde, não seria mais prudente mandar-lhes outro empréstimo…? — Vitgard calou-se imediatamente.

- Eu me recuso a abrir outro empréstimo com aqueles marinheiros novamente! Sim, poderíamos… Mas lembre-se de que perdemos quase mil turquinos àqueles canalhas, quando tivemos de fazer o acordo para compra de açafrão.

- E se mandássemos uma milícia até…

- Não seja tolo! Aqueles lobos do mar estão em seu total direito de reclamar pelo dinheiro! Havíamos pactuado de um jeito que os deixaríamos realizar suas barganhas e suas jornadas atrás de ingredientes secretos, a troco de que nos pagassem metade do que havia conseguido. Contudo, o ramo de especiarias tornou-se ativamente grandioso em poucos anos! Toda a costa de Jamieshaven está tomada pelos portos dos marinheiros.

- Porém, a verba que conseguimos…

- Será imediatamente mandada à alfândega, que fará os produtos entrarem em nossas terras. — Vitgard, a contragosto, anotou rapidamente as palavras do Barão no pergaminho, retirando uma longa pena do bolso. Ela parecia já estar encharcada de tinta.

Agora Will se lembrava. O Prof. Vitgard havia sido escolhido como Tesoureiro-Ministro Real há muitos anos. Ministrava o dinheiro conforme as necessidades que seu chefe demonstrava, fazia acordos de paz com os povos que ameaçavam se rebelar, mantinha o controle de todas as terras. Isso tudo observado de perto pelo Barão. — Temos outro problema — Vitgard reiniciou, seus passos ecoando na direção em que Will estava escondido. O garoto encolheu-se mais ainda. Sentia os óculos escorregando pelo suor da ansiedade, quase caindo da ponta de seu nariz. — Os gigantes de Tydligeth estão começando tornar-se… Instáveis… — a voz do professor hesitou. — Eles estão reclamando sobre os pesados trabalhos nos Campos…

- Estenda-lhes a mão e ouça seus clamores, James! — o Barão exclamou, um pouco impaciente — Mande um de nossos Conselheiros às suas terras para que veja quais são seus pedidos — os dois agora se aproximavam da vala onde Will estava escondido. Se o pegassem, provavelmente o poriam em detenção.

- Temos apenas mais um probleminha — disse o Prof. Vitgard, riscando mais um tópico de sua lista — E tenho consciência de que Vossa Majestade sabe.

Nesse momento, o Barão parou estatelado, olhando ao céu azul-safira — Eu já lhe falei que esse problema será resolvido assim que possível, James. — os olhos verdes do Barão se estreitaram. Crispando os lábios, olhou ao professor — Nós dois sabemos que o Manto está se rompendo. Há uma leve ruptura, talvez no Sul…

- Senhor, não é isso de que estou falando… Quero dizer que Sire está se fortalecendo novamente. Outro dia mesmo ouvi dois de meus subordinados conversando sobre uma longa remessa de calcário se dirigindo a Raven. Para onde ele foi banido. Isso não é um sinal? — esperançoso, o professor olhou ao Barão.

Assim que abriu a boca para falar, os sinos da Torre Leste badalaram três vezes. Eram três horas, e Will já estava atrasado para ir à Biblioteca encontrar Jennifer. — Encontre-me às oito horas em meu escritório. — o Barão virou-se para ir embora, suas roupas balançando levemente, enquanto, derrotado, o Prof. Vitgard passava pelo esconderijo que o garoto estava escondido.

“Manto? Ruptura?”, Will pensou, saindo da fenda e arrumando os cabelos que se levantaram nesse meio tempo. “Mas o que…?”. Intrigado, ele percorreu os corredores, descendo as escadarias de pedra novamente, virando à esquerda e então à direita. Finalmente, chegou às portas da Biblioteca.

- WILL! — uma voz esganiçada veio de uma das mesas próximas as estantes — Onde é que você estava pelo amor do Criador? — Jennifer havia se levantado, carregando um grande livro.

- Me perdoe, Jenny. Eu… Eu estava preso na sala do Prof. Bones. Ele queria reclamar para mim sobre minhas notas, novamente. — Will se perguntou porque não conseguira contar à sua melhor amiga sobre o que ouvira.

Eles seguiram, Jennifer ainda bufando de desespero mesclado à raiva, à mesa onde ela estava sentada há alguns minutos. A Biblioteca era um extenso recinto, o qual portava dezenas de estantes, talhadas em teixo marrom-escuro. As estantes guardavam seguramente milhares de livros, desde aqueles sobre a História Antiga de Jamieshaven àqueles sobre Alquimia Asiática Avançada. Todos eles eram inspecionados diariamente por Patrice Bahit, uma velha senhora de cabelos sempre presos em um longo coque. Seus olhos, pretos como pequenos besouros, examinavam, através dos óculos verde-claros, todas as pessoas que passavam por ali e carregavam seus preciosos livros.

Sempre trajava um vestido extremamente antiquado, usualmente preto-carvão. Todavia, a estampa mudava de xadrez para listrado dia após dia. — Não corram na biblioteca! — ela gritava, com sua voz esganiçada, toda vez que um dos menores estava correndo com um livro importante às mãos.

Will sentou-se à mesa com Jennifer — Já comecei o nosso projeto de Poções. Pesquisei sobre os usos da Espinha de Peixe-Leão e do Oode. Dê uma olhada nesses livros — Jennifer passou o maior livro — e o mais empoeirado — para Will, o qual examinou-o hesitante — Procure pelos efeitos do Pó de Borboleta e pelos sintomas do alto consumo de Alcaçuz. — ela voltou sua atenção ao longo pedaço de pergaminho. A pena pendia em sua mão, ameaçando derramar uma gota de tinta preta nas letras caprichosamente desenhadas.

Ele abriu as páginas, sentindo uma baforada de poeira nauseante invadir suas narinas. Contudo, seus pensamentos ainda voavam, voltando à misteriosa conversa que o Prof. Vitgard e o Barão tiveram naquele corredor. Tentou se concentrar nos relatos místicos sobre o Pó de Borboleta, mas não conseguia. Com tantos livros à disposição, esse era o momento perfeito para pesquisar sobre aqueles assuntos sigilosos. Porém, se fosse às estantes, Jenny perceberia. Teria de contá-la, de qualquer jeito. — Ahn… Jenny?

- Sim? — ela disse, olhando fixamente às anotações — Estou escutando.

- Eu preciso te contar uma coisa — ele murmurou. Jenny levantou a cabeça lentamente e observou o amigo. — Então… Antes de eu chegar aqui, eu ouvi uma conversa… Entre o Barão e o Prof. Vitgard e…

- Ah, sim, eu já estou sabendo. É sobre a greve dos gigantes, não é?

- Não é isso — ele disse, com um leve tom de impaciência — É sobre um tal de… Manto. — nesse momento, os olhos de Jenny se arregalaram. — Bom… Não tenho certeza se eu ouvi direito. Mas você sabe o que é isso? — Will perguntou, tentando não notar a ansiedade da garota. Contudo, ela estava tornando essa tarefa um pouco difícil. Will conseguia ver o suor escorrendo por suas têmporas. — Jenny? Tá tudo bem?

- Ah, sim… Tá sim…- a garota respondeu, devaneando. Ela arrumou os cabelos longos, jogando-os para trás. Suas mãos tremiam e tentavam incessantemente segurar a longa pena verde-esmeralda. Depois de algumas tentativas sem sucesso, largou-a na mesa, fechando o livro sobre ela. — Will, você pode continuar o trabalho? Eu, ahn… Preciso ir — ela disse, inexpressiva.

Will não se atreveu a perguntar mais nada. Carregando os grandiosos livros sobre os braços e entregando uma pequena nota amarelada à bibliotecária, Jennifer saiu rapidamente, passando pela extensa porta marrom-escura. Tentando ignorar o que acontecera, o garoto voltou sua atenção mais uma vez aos pergaminhos. Abriu um livro pesado, intitulado Conhecimentos Básicos sobre a Química Desconhecida, procurando pelo estranho e incomum Pó de Borboleta.

O Pó de Borboleta, encontrado na maioria dos Reinos Orientais, como Shahold e Oz, tem poderes altamente curativos — e perigosos, caso não seja manuseado corretamente. Obtido após a trituração das asas da Borboleta Monarca, esse pó pode ser usado em diversas poções anestesiantes e calmantes, como a Poção Curadora e a Poção da Paz Lúcida.

Seus efeitos anestésicos podem vir a ser um problema, caso seja utilizado frequentemente e torne-se um vício ao portador. Caso seja extraído da maneira errada, pode causar cegueira, coagulando imediatamente o sangue que percorre os olhos. Relatos indicam que, durante a Guerra dos Gigantes e a Guerra Mística, o Pó de Borboleta foi usado em quantidades imensuráveis como arma de alta periculosidade.

A cabeça de Will latejava, enquanto riscava os muitos erros de gramática que cometia. Provavelmente precisaria de um novo pergaminho para entregar ao professor. Porém, seus pensamentos o levavam de volta à pressa e à ansiedade de Jenny ao ouvir sobre o tal de Manto… “O que será que aconteceu?”

Com tantos livros ao seu redor, o rapaz pensava que certamente encontraria algo. Largou a pena sobre o tinteiro aberto, enrolou o pergaminho e se levantou da mesa.

Começou a procurar na seção de História de Jamieshaven, olhando as páginas menos amareladas, as quais diriam se o livro havia sido usado ou não. Se fosse uma coisa comum a ser sabida por todos, o Prof. Bones certamente teria comentado ou os teria ensinado. — Manto, Manto… — Will murmurou, lendo cautelosamente cada palavra. Porém, após meia hora, ele sentiu uma leve pontada de dor de cabeça e deitou-se sobre os vários livros que havia pegado. Não havia nada que satisfizesse a sua maldita curiosidade.

Olhou para o imenso relógio que se localizava entre as duas tapeçarias de prata, encostadas à parede. Eram quatro e meia, e teria ainda meia hora antes do quinto período começar. Seu estômago roncava, e ainda teria três horas de aula pela frente. Duas de Astronomia e uma de Política.

Will retirou uma maçã de dentro de um dos bolsos da mochila e mordeu um grande pedaço, seguindo para perto das tapeçarias. O cânhamo havia sido cuidadosamente costurado e tingido ao gosto de quem a havia encomendado. Várias pedras preciosas do tamanho de punhos fechados incrustavam todo o corpo do objeto.

Ao chegar perto delas, examinou-as cuidadosamente. Cada borda havia sido feita com os mais perfeitos detalhes. O garoto passou uma das mãos pelos pormenores, até que viu Madame Patrice fitando-o com ambos os braços cruzados. Imediatamente, Will recuou, terminou de comer a maçã e voltou à mesa.

Ele poderia deixar a busca para o outro dia. Terminaria a lição de Astronomia, afinal ainda não anotara todas as posições das setenta luas de Saturno. Recolheu os livros, guardando-os nos lugares onde os havia pegado, fez o mesmo com sua pena e seu tinteiro e saiu daquele lugar, sentindo os olhos da bibliotecária perseguindo-o enquanto caminhava.

Desceu as escadarias, desconcertado sobre o que havia acontecido. Mais tarde, durante o jantar, teria de encontrá-la e perguntar-lhe o que havia acontecido. Por qual razão ela tinha ficado tão angustiada sobre aquele assunto?

Ao chegar ao térreo, virou à esquerda e seguiu diretamente ao Saguão, para que pudesse terminar seu trabalho de Astronomia antes que pudesse subir à Torre Oeste.

O Saguão possuía duas dúzias de mesas retangulares e douradas, cada qual adornada com pequenas safiras, lembrando constantemente aos alunos a que província pertenciam e deveriam ser sempre fiéis.

À frente de três janelas-mestras, uma mesa, contendo vinte e cinco lugares jazia imponente. Essa era a mesa dos professores e do diretor, que sempre era presente durante todas as refeições. De cada lado da mesa, duas portas de carvalho se encontravam, direcionando o corpo docente para os corredores do Castelo

Will sentou-se em uma das mesas e retirou da mochila um pergaminho circular, que continha uma belíssima ilustração de Saturno e, ao seu redor, setenta pequeninos satélites. As linhas que se sobrepunham às luas estavam preenchidas com uma letra caprichosa, com exceção de cinco. O garoto perguntava-se quais seriam aquelas luas. Retirou um livro pesado da mochila, aparentemente deixando de lado assunto do Manto.

De repente, a porta dos fundos à direita se abriu com estrondo. Dela saíram o Barão, o Prof. Vitgard, a Profª. Allegra — professora de Economia.

E Jennifer.

Will tentou se esconder atrás da mochila, se concentrando no dever. “Esta lua é provavelmente Albiorix… Ou será Hyrrokin?”. — Temos que ter mais cuidado — a voz de Jennifer de sobressaiu — Tive de mentir para Will, e o senhor sabe, Vossa Majestade, que não suporto fazer isso. Principalmente com meus amigos.

- Sim, Srta. Keefe, nós sabemos. Foi apenas um deslize, não tornará a acontecer.

- Não podemos deixar com que todos saibam sobre o Manto — Will se esgueirou por detrás da mochila, a fim de que escutasse mais. Uma voz fraca e ao mesmo tempo severa falou. Era Allegra — Sabemos que ele é aquilo que lhe dá o poder e… — a mulher fora interrompida por um pedido de silêncio de Vitgard. Ela baixou a voz, e o rapaz deu graças de ainda poder ouvi-los — Não podemos deixar que todos os alunos saibam disso. Devemos manter sigilo. O segredo é importantíssimo. Nem todos têm esse dom, Srta. Keefe.

- É de extrema importância que você o faça se esquecer do que ouviu — o Prof. Vitgard interrompeu — Se esse segredo for descoberto por mais alguém…

- Tudo que viemos fazendo durante tanto tempo será em vão — o Barão completou o raciocínio do professor. Will, querendo saber mais sobre o que falavam, e tentando chegar numa conclusão definitiva sobre o que era o Manto, inclinou-se por sobre a mochila, mas deixou cair o seu livro no chão. Os professores deram um sobressalto, enquanto o garoto tentava se arrumar.

- Aham… — o Prof. Vitgard guinchou — Quem está aí? — todos se calaram. Will levantou-se rapidamente, envergonhado. — Ah… Sr. Le Fay.

- O senhor não deveria estar na aula?

- Bom, ainda tenho alguns minutos — ele percebeu Jennifer se escondendo atrás de uma das cadeiras, enquanto tentava falar.

- Tem apenas cinco minutos para chegar à Torre Oeste, Sr. Le Fay — o Barão disse, consultando o relógio da parede do fundo — Acho melhor ir andando — ele falou, solenemente. Erguendo-se de súbito, Will guardou suas coisas e saiu apressado do Saguão, subindo as escadas sem olhar para trás.

Chegou à sala de Astronomia em alguns segundos, ofegante. A Profª Clarice Hamilton, uma mulher alterosa, de cabelos ruivos e olhos extremamente verdes, fitava a repentina aparição de Will. Com o giz suspenso no ar, ela ergueu as sobrancelhas e, com um aceno de cabeça, mostrou o lugar do garoto. Trajava uma longa túnica púrpura e preta, coberta com esmeraldas. Óculos escamados pendiam à ponta do nariz. — Muito bem, senhor Le Fay… Quero seu trabalho sobre as luas de Saturno em minha mesa nesse exato momento — sua voz profunda não se desmantelou, e seu olhar sobre o quadro-negro tampouco — E por favor, alunos, abram seus livros na página 78.

Enquanto Will retirava seu trabalho e seu livro vagarosamente da mochila, pensava em Jenny. Por que ela estava se esquivando dele? Por que não poderia simplesmente contar-lhe o que sabia sobre o Manto? Ele achava que eram melhores amigos… Por que ela insistia em manter segredos com ele?

Will, agora tomado de fúria, arrancou um pedaço de pergaminho do rolo e começou a anotar distraidamente o nome das luas de Urano.