As Crônicas dos Quatro Cantos

Capítulo Nove: Seda

O grupo ateou fogo à casa de Odem e Etrom. Caso alguém encontrasse o recinto, não acharia nenhum vestígio de que alguém estaria ali. O corpo em chamas de Odem caiu no lago esverdeado e definhou até a morte, sendo possuído pelo líquido ácido. Sua ossada flutuou após algum tempo e jazia às margens do recinto, seus dentes ainda arreganhados e os buracos negros fitando o garoto com um desejo mortal de devorá-lo.

Nesse meio tempo, Yelena prometera ajudar Will com seus poderes descontrolados. Mas em um outro momento, em outro lugar.

Seguiram através de um caminho coberto por folhas secas, atravessando a floresta morte e chegando finalmente ao rio. Descansaram para pegar um pouco de água e depois retomaram o caminho pelas margens, observando a correnteza levar troncos de pequenas árvores, algumas plantas aquáticas, folhas e alguns peixes. O rio acabava numa grande cachoeira, cujos fios de água espalhavam-se em grossas gotículas, encharcando a grama verdejante.

- Como vamos descer agora? — Myllian perguntou, suspirando ao olhar para o horizonte.

- Teremos que dar a volta pelo penhasco e descer aquela escadaria de pedra — Yelena disse, apontando ao paredão de pedra que sustentava diversas árvores contorcidas.

- Vamos ter que nos embrenhar no mato de novo? — Myllian perguntou novamente, resmungando e alisando a barba ruiva.

- Pare de reclamar, Myllian! — Agalard disse, dando um tapa em sua cabeça. O anão massageou o novo galo, às risadas de Yelena, Will e Jenny. Bryan tentava arrancar o sangue seco preso em sua pele dos arranhões que sofrera.

Eles entraram na floresta morta mais uma vez e desviaram de galhos pontiagudos e secos. — Will — Bryan chamou o amigo quando ambos ficaram alguns metros para trás. — O que você acha de Jenny?

Will arregalou os olhos. De todas as pessoas do mundo, não esperava ouvir algo do tipo vindo diretamente de seu melhor amigo. Seu coração acelerou por alguns segundos até ele recobrar a respiração — Co-como… Como assim? — ele perguntou, afastando um arbusto para o lado.

- Você entendeu… — ele murmurou, pisando em folhas secas e olhando para trás quase que instantaneamente. — Você… Acha ela bonita?

- Ah… Ela é… Legal — “Eu sou um babaca!”, ele pensou. Will achava Jenny a garota mais linda de todo o universo. — Mas, por-por que você está me perguntando isso? — ele gaguejou.

- É que eu acho Jenny… Hã… Bonita… Mas eu queria saber se… Você sabe, se eu tentasse alguma coisa… Com ela… Se haveria algum problema… Afinal, nós dois somos amigos há muito amigo, além de sermos amigos dela e…

- Não! — Will exclamou, interrompendo o amigo bruscamente — Não… Não tem problema. Se você quer ficar com ela, está tudo bem. — ele sentiu a fúria subir-lhe pela espinha. Ele cerrou os pulsos e sua respiração ficou mais ofegante. Bryan era seu melhor amigo, mas estava com vontade de meter um soco em sua cara. Não poderia falar para ele que sentia alguma coisa por Jenny. Mas não conseguia entender como ele poderia sentir alguma coisa pela melhor amiga. E não conseguiria suportar de vê-lo com ela. — Não tem problema.

Eles continuaram andando. Uma lágrima brotou em seu olho esquerdo. Ele sentia como se já houvesse perdido a garota que amava para Bryan.

Após algum tempo, acharam uma clareira e montaram acampamento ali. Se adormecessem cedo, poderiam caminhar durante a noite mais atentos, e com menos chance de serem atacados.

Acenderam uma fogueira e então Will observou Bryan se aproximando Jenny. Tentando desviar o olhar, ele pegou mais alguns gravetos e então retirou algumas salsichas de dentro da mochila, fritando-as nas labaredas crepitantes. — O que foi, Will? — Yelena perguntou, agachando-se ao seu lado. — Tudo bem?

Ele olhou de relance ao casal do outro lado da fogueira, antes de se virar para a irmã — Hã? Ah… Sim, sim… Tudo bem… Só estou cansado — ele forçou um bocejo e fingiu se espreguiçar. Levantou um pouco os gravetos com as salsichas e terminou de fritá-las.

Yelena sorriu — Você gosta dela, não é?

- Me desculpe, o quê? — ele perguntou, tentando fugir do assunto — Ah, que se dane… Sim, eu gosto. Bastante.

- Por que não vai falar com ela? — Yelena perguntou.

Will suspirou — Por que Bryan veio me perguntar se havia algum problema em tentar alguma coisa com ela. E eu…

- Você disse não. — ela murmurou, sorrindo — Você a deixou para seu melhor amigo, certo? — Yelena colocou a mão sobre o ombro do irmão e sentiu seu peito inflar e desinflar, à medida que a ansiedade tomava conta de seu corpo. — Isso é uma das qualidades que nem eu nem nossa mãe possuímos, Will.

- Do que você está falando?

- Altruísmo. Colocar as outras pessoas à frente do que você quer. Isso é um fio de esperança entre nós, sabia?

- Eu não dou a mínima para o que seja. — ele olhou furiosamente a Bryan, desejando pela primeira vez que ele não estivesse ali. Se era altruísta, porque sentia um ódio gigantesco pelo amigo naquele momento?

Bufou, ainda olhando ao casal, e então voltou a assar as salsichas, sendo seguido pelo olhar penoso e reconfortante da irmã.

*

Após algum tempo, decidiram descansar um pouco. Jenny e Yelena foram dormir dentro da barraca, enquanto os rapazes montavam acampamento do lado de fora. Estavam cercados pelas árvores de copa alta, e Yelena havia lançado um feitiço protetor em volta do acampamento, além de prometer a Will que o ajudaria com seus poderes ao cair da noite.

O sol se punha no horizonte, iluminando a planície com um tom alaranjado. Todos cochilavam profundamente.

Exceto Will.

O garoto lia um mapa gigantesco, tentando descobrir onde se encontravam. Forçava a vista e desviava das sombras que eram projetadas. Pareciam estar alcançando o primeiro quarto de Ictinus. Pareciam estar viajando mais rápido do que o normal, se bem que haviam perdido um dia na casa de Etrom e Odem.

Quando o sol desapareceu, ele se virou para o outro lado para que as labaredas da fogueira pudessem iluminar os escritos.

Até que outra sombra cobriu novamente o mapa e o fez suspirar e olhar para cima. Ficou de olhos arregalados ao perceber que a sombra era de Jenny. — Ah! Oi, Jenny — ainda um pouco ressentido, voltou ao mapa e continuou a estudá-lo.

- Oi… Will… — ela parecia um pouco assustada — Hã… Posso falar com você?

- Claro — ele disse, afastando um pouco a parte de cima do saco de dormir para que ela se sentasse — O que foi?

- Então… Eu conversei com o Bryan e… Na verdade, foi ele quem veio conversar primeiro comigo e…

- Eu sei, eu sei… Ele foi te dizer que gostava de você.

- Oh… — ela arregalou, os olhos, se afastando um pouco — Eu… Não tinha ideia de que você sabia disso… — Jenny ficou muda por um momento e então voltou a falar, levantando brevemente a mão para tocá-lo. — Então… Ele me disse que gostava de mim… Eu não tinha a mínima ideia, de verdade. Afinal, ele sempre tentou me superar em tudo, sempre achou que eu era melhor só para deixá-lo estressado.

- Sim… E caso você queria saber, eu disse que estava tudo bem… Então, se vocês quiserem ficar juntos, eu não…

- Espera aí! — ela interrompeu Will — “Ficar juntos”? Eu pensei que você soubesse que eu não quero ficar com ele. Ele é meu amigo. — Jenny parecia se sentir ofendida — E o que você quis dizer com “estar tudo bem”?

Babaca. Um completo babaca, Will pensou.

- Nada, nada… — ele tentou fazê-la esquecer do que tinha dito.

Jenny agora parecia furiosa com ele — Eu só queria te dizer isso. Boa noite — ela levantou e saiu para a barraca, batendo os pés no chão afofado com terra. Com um estalo de dedos, um vento ribombou no fogo e apagou o fogo da fogueira, deixando Will num completo escuro.

Ótimo. Sem a garota que eu amo. E agora sem fogo.

Babaca.


O frio gélido da noite enregelava as entranhas de Will. Mesmo reacendendo a fogueira, tremia debaixo dos ralos cobertores do saco de dormir, franzindo a testa cada vez que o vento transpassava pelas folhas das árvores e derramava o crescente orvalho em sua testa. Agalard, Bryan e Myllian pareciam não estar sentindo nada, e ele não conseguia produzir algo que o aquecesse ainda mais.

O suor que escorria de sua testa pelo calor das labaredas não ajudava muito. Até que ele abriu os olhos e fitou a escuridão do céu. As estrelas cintilavam e ele até conseguia ver sua respiração tornando-se condensada.

Passos foram ouvidos saindo da barraca. Provavelmente Yelena indo acordá-los para seguirem viagem. Will já se imaginava desmaiando no chão por causa da exaustão. Mas assim que a pessoa se aproximou de sua cama improvisada, sua mão tocou seus cabelos e os acariciaram. — Oi… — uma voz meiga atingiu seus ouvidos. Jenny voltara.

- Oi… Não conseguiu dormir também? — ele perguntou, virando seu rosto para a garota.

- Não. Está muito frio.

- Fique um pouco perto da fogueira. Se você quiser, pode deitar aqui e eu fico de fora. Não vou conseguir dormir de qualquer jeito mesmo…

- Na verdade… Eu queria saber se você poderia dormir comigo — ela disse. Will ficou estático por um minuto antes de processar todas as palavras que ela tinha dito. Dormir com ela?, ele se perguntou.

Diga que sim! Diga que sim!

- Hã… S… Sim… Claro… — ele saiu de seu saco de dormir e deu espaço para Jenny. — Pode entrar…

Um pouco relutante, a garota se ajoelhou e se embrenhou para dentro. Tentou se aconchegar e, então, olhou para Will — O que foi? — ele perguntou.

- Entre aqui — ela pediu, batendo a mão esquerda no espaço que sobrara.

- Tem certeza?

- Tenho sim.

As palavras de Jenny entraram como música em seus ouvidos. Quase em êxtase, ele se juntou à amiga, deitando-se ao seu lado. Ela pegou seu braço e o transpassou pelo seu corpo. — Obrigada, Will — ela disse, aconchegando-se no tecido do saco e se protegendo com o seu abraço.

Will não conseguiu responder. Aquele momento era o que sempre tinha imaginado. Estava com a garota que amava ao seu lado… Apenas os dois.

E, de repente, o mundo pareceu que tinha se apagado. Tudo o que existia naquele momento era ele e ela. O calor de seus corpos agarrados um ao outro, o cheiro de seu cabelo invadindo-lhe as narinas, o toque de sua pele macia… Estava tudo perfeito.

E então, um toque brusco em seu ombro o fez sobressaltar do saco de dormir, acertando de relance os cabelos de Jenny — O quê? — ele perguntou, exasperado e irritado por ter sido tirado de seu sonho.

- É hora de ir, pombinhos — Agalard murmurou, seu cabelo negro desgrenhado caindo em madeixas desiguais. Seus olhos estavam inchados. Provavelmente não havia conseguido dormir. Ele riu, antes de colocar o machado apoiado no ombro e sair andando.

Jenny, abobada, piscou os olhos e se levantou, olhando ao céu ainda escuro. — Boa… Noite? — ela perguntou, sorrindo a Will timidamente. O garoto se aproximou dela e lhe tascou um beijo na bochecha, retribuindo o cumprimento. Ao olhar para o lado, viu Bryan os olhando com certa raiva. — O que aconteceu com ele? — ela perguntou, aflita. — Ele sabe que não podemos nos desunir. Pelo menos não aqui.

Eles juntaram os pertences rápidos, sendo seguidos pelos olhos de todos. Yelena admirava a cena, incrédula. Quando apagaram os últimos vestígios de que alguém estivera ali, aproximou-se do irmão, o qual mantinha um sorriso indiscreto. — Posso saber o que aconteceu entre vocês dois? — ela perguntou, tomando uma atitude de mãe.

- O quê? Nada aconteceu entre a gente — ele retrucou — Ela estava com frio e pediu para que eu deitasse com ela.

- Vocês não…?

- NÃO! — ele gritou, olhando com repulsa para a irmã — Claro que não! — Will começou a andar mais rápido, tomando a frente de todo o grupo. Yelena suspirou e olhou para Jenny, a qual conversava com Myllian. Agalard falava com Bryan, mas esse não parecia escutá-lo; apenas concordava, a espada quase em punhos e pronta para rasgar uma garganta.

Yelena olhou para frente e percebeu uma leve movimentação nas folhagens. Ficou parada por um momento, mas abanou a cabeça. Talvez fosse apenas um animal pequeno… Um coelho! É isso! Era apenas um coelho saltitando por entre os arbustos — Calma, Yelena, calma… — ela observou o irmão utilizando o arco para abrir espaço entre as árvores.

Outro ruído colocou a feiticeira em alerta. Ouviu batidas fortes no chão, vendo a poeira se levantar sutilmente. Andou vagarosamente, não perdendo a vista do irmão, e deu uma maior atenção ao que se movimentava. Folhas caíam no chão, a brisa passava suave pelos galhos, e…

- Will! — ela gritou, de repente.

- Eu já disse que nada…?

- Cale a boca! — ela olhou para trás — Vocês também! — um silêncio mórbido tomou conta da floresta. — Estão ouvindo isso?

Will olhou ao redor, tentando encontrar qualquer coisa que emanasse um som. — Não tem som nenhum Yelena — ele sussurrou.

- Exatamente. — ela sibilou. — Nem pássaros, nem animais… Nem o vento está fazendo barulho. — Yelena olhou para frente, fitando o túnel de árvores que permitiria a entrada deles na floresta. — Algo está errado…

Will revirou os olhos e voltou-se para a irmã. — Yelena, não há nada aqui — ele disse, afastando outra folha para o lado.

- Will, confie em mim. A floresta nunca esteve tão quieta. — ela parou de falar e correu em direção ao irmão. — Acho melhor tomarmos outro caminho. Tenho um mal pressentimento sobre esse lugar — Yelena olhou em volta e tentou arrastar o irmão de volta à clareira.

- Yelena, pare com isso! — ele exclamou. — Nós precisamos chegar a Keegan o mais rápido possível! E se formos por outro caminho, vamos levar muito mais tempo.

- Eu sei, mas…

- Yelena, nada vai acontecer conosco. Fique tranquila — ele esboçou um sorriso e finalmente passou pela barreira de folhas.

Ela se virou aos outros e suspirou, seguindo o irmão. Jenny apertou o passo, seguida por Myllian, Agalard e Bryan. — Esperem! — a menina gritou, se enfurnando na mata. Os anões arrancaram as folhas com suas armas.

Bryan, ao entrar, esbarrou em Myllian, o qual olhava para cima. — Mas que…? — ele se calou ao notar que todos olhavam fixamente para o alto.

Toda a floresta estava coberta por grossos fios branco-pérola, que se alastravam pelos galhos e pelas folhas, sugando-lhes a beleza e a vida. Os raios do sol transpassavam com muita dificuldade o grosso lençol. Até os arbustos no chão sofriam: folhas amareladas preenchiam os secos galhos das plantas rasteiras, forçando-as a buscar claridade nos pontos mais iluminados. O chão daquela parte da floresta estava tomado por fios brancos e alaranjados.

E mesmo assim as árvores alcançavam alturas incríveis, formando uma espécie de cúpula. — O que é isso? — Bryan perguntou, dando alguns passos para frente. Tocou em um dos fios e sentiu sua textura frágil enrolar-se em seus dedos, grudando como uma cola — É macio e… Grudento. — ele tentou se desvencilhar, mas acabou esbarrando em outras linhas e acabou enrolado. — Mas que merda! — ele exclamou.

Yelena, rindo de Bryan, estalou os dedos. A substância branca soltou-se de seu corpo e jazeu no chão batido de terra. — Pronto — ela murmurou, e então voltou-se a Will. — Teias.

- Teias? — ele perguntou. — Isso são teias? Teias de aranha?

- São — ela passou a mão pela cortina sedosa e sentiu sua consistência nas mãos. — Por isso eu não queria vir por aqui, Will. Esse o território das Mya’vah. — ela se entristeceu.

- Pelo jeito como você falou, não parecem ser amigos… — Bryan disse, cruzando os braços e olhando ao redor.

- As Mya’vah são uma classe de aracnídeos perigosíssima. São carnívoras e as mais venenosas. Quando conseguem capturar uma presa, lançam uma substância entorpecente e muito, muito mortífera. — Jenny explicou — Pode matar um humano adulto em dez minutos.

- Como sabe de tudo isso? — Will perguntou.

- Ao contrário de você e de Bryan, eu presto atenção às aulas, sabia? — ela deu uma risadinha, seguida de Myllian e Agalard. Will corou.

- Mais alguma coisa que precisamos saber? — ele perguntou, abstraindo o que tinha acontecido.

- Sim, mas creio que essa informação vai atingir mais Yelena do que vocês — ela murmurou, desviando o olhar para a feiticeira. — As Mya’vah são extremamente resistentes à magia.

Yelena deixou os braços penderem ao lado do corpo. Seu rosto antes tranquilo se transformou gradativamente em uma expressão de horror, insegurança e pânico. — O quê? — ele perguntou, tentando acreditar que aquilo não era verdade.

- Não se sabe o que as faz desse jeito. Elas simplesmente são assim — Jenny murmurou, também preocupada. Afinal, a ajuda que ambas poderiam dar ao grupo desaparecera em alguns segundos.

O grupo ficou estático. Myllian e Agalard poderiam vencê-las com sua rapidez e sua força de anões. Bryan portava uma espada ameaçadora e Will tinha as flechas. Yelena e Jenny poderiam ajudá-los ao abrir passagem pela floresta.

- Não podemos fazer muito barulho — Jenny continuou, caminhando vagarosamente e desviando dos galhos e folhas secos que forravam o chão da floresta — Vamos simplesmente nos afastar dessa floresta.

- Por que não voltamos? — Bryan perguntou, cortando sutilmente um pedaço de teia que se enroscara em sua perna.

- Você já olhou para trás? — Yelena perguntou, cínica.

Todos se viraram para trás. O pequeno túnel que os guiara outrora para dentro da floresta havia se fechado. Grossas teias se entrelaçavam no tronco e nas raízes das árvores e criavam uma barreira quase impenetrável. Nem o som dos animais podia ser ouvido do outro lado. Eles sabiam que o sol alcançaria seu ápice muito em breve, mas quase nenhum raio transpassava a cúpula na qual se encontravam. Tudo jazia num cenário frio e sombrio. — E agora? — Bryan perguntou, o medo tomando conta de seu rosto.

- Sigamos em frente — Agalard disse, indo em direção a um grupo de arbustos fechado.

Sem mais opções, os outros o seguiram, cautelosos quanto aos ameaçadores animais que os rondavam, sentindo cada gota de suor que escorria por suas feições preocupadas, cada passo em falso com os quais adentravam na floresta, cada respiração mais profunda que exerciam naquela câmara mortuária.

Após passarem por um caminho de pedras já esquecido e que outrora levava os transeuntes até a Cidadela, chegaram perto de um riacho. As águas límpidas chocavam-se com as pedras pontiagudas e encharcavam as beiradas. Pequenas plantas verde-esmeralda cresciam para todos os lados, e davam entrada a uma ponte de pedra, localizada sobre o rio.

O grupo ficou olhando à ponte por um longo tempo antes de pensarem em prosseguir — O que foi, Yelena? — Will perguntou, notando que a irmã fitava aquele caminho com dúvida e hesitação.

- Muito fácil… — ela sibilou, como resposta — Algo está muito errado por aqui.

- Ah, tenha dó! — Agalard resmungou, levantando o machado até a altura dos ombros e seguindo em frente.

- Espere, Agalard! — a feiticeira gritou, apertando o passo para alcançá-lo. Jenny e Myllian seguiram na frente. Will começou a caminhar lentamente, com medo de que uma surpresa os aguardasse do outro lado da ponte.

Foi quando ouviu um ruído.

O rapaz congelou no lugar. Um movimento brusco e a Mya’vah pularia sobre seu corpo. Vagarosamente, virou-se para trás.

Nada.

“O que foi aquele barulho?”, ele se perguntou, relaxando os músculos contraídos. — Will! — Yelena gritou, já do outro lado. — Vamos logo!

- Espera um minuto aí! — ele exclamou, como resposta. O garoto observou o caminho atrás dele por mais alguns instantes. Até que viu um pequeno pedaço de tecido vermelho imóvel sobre o soalho. — O que é isso? — ele correu até o tecido e o pegou nas mãos. — Oh, não… — Will arregalou os olhos e tentou avisar aos outros — Yelena! Jenny! Eu encontrei uma coisa! Acho que Bryan…?

Não havia ninguém do outro lado da ponte.

Ninguém.

- Yelena? — ele perguntou ao vazio. — Jenny? — ele se voltou para trás. Também não havia ninguém. E eles não poderiam ter entrado na floresta tão rapidamente assim.

Will andou atravessou a ponte e parou exatamente na sua metade. O riacho passava por baixo da construção de pedra e seguia em direção norte, provavelmente atravessando toda a floresta e invadindo a província de Keegan. Se seguissem por aquele caminho, chegariam o mais rápido possível a seu destino.

O garoto desamarrou o cadarço de um de seus sapatos e o prendeu ao parapeito da ponte, para que se lembrasse para onde ir. Agora só faltava um único detalhe.

Encontrar os outros.


A Cidadela era o centro periférico urbano de Ictinus. Várias estalagens se localizavam à beira de estradas para viajantes exaustos que desejavam passar a noite em quartos quentes e aconchegantes.

Bem… Nem tão quentes. Nem aconchegantes. Mas com camas. E comida.

A estalagem mais famosa se chamava O Jüggernaut, em homenagem à criatura semideusa que habitava as terras inóspitas do Norte de Jamieshaven — um monstro metálico gigantesco, que tinha seis braços, dois olhos, dois chifres pontiagudos e uma língua de fogo, e que tinha como arma uma letal espada flamejante.

A placa que a indicava era talhada em carvalho, representando o momento em que a heroína Astrid fincava a espada Hübber no crânio do Jüggernaut.

Foi nessa estalagem, na beira da estrada, chamada O Jüggernaut, que Ireth Ringëril decidira se hospedar. A noite caía rapidamente naquela província, e a chuva que se estendera desde a manhã daquele dia castigava constantemente tanto o seu cavalo quanto seu corpo. Apesar de ser a guerreira elfa, tinha seus limites.

Com muita dificuldade, conseguiu arrastar seu animal ao estábulo, e pagou ao empregado dois fechinos para que o alimentasse.

Caso não tenha sido mencionado no decorrer dessa história, o sistema monetário não só de Jamieshaven, mas sim dos Quatro Cantos, era composto por quatro principais moedas: javons, fechinos, dallias e turquinos. Um turquino equivalia a cinquenta e quatro dallias. Uma dallia equivalia a trinta e sete fechinos. E cada fechino era composto por dez javons. Um sistema bem eficiente, mesmo que trabalhoso, visto que a plebe trabalhava com javons e fechinos, e a nobreza, com dallias e turquinos.

Após contornar a estalagem, chegou à porta de entrada e a abriu com um estrondo. Entrou rapidamente, tentando impedir a água de entrar.

Ao retirar o capuz que cobria seu rosto, sentiu o aroma quente de sopa invadir-lhe as narinas. O calor da lareira se alastrou gradativamente por seu corpo gelado e a fez se sentir relaxada momentaneamente. Queria se deitar e poder deixar que sua mente se esvaziasse, nem que fosse por alguns minutos.

Ela caminhou lentamente até o balcão e sorriu para o estalajadeiro — Boa noite — ela murmurou.

O homem se virou e a fitou por alguns momentos. Seus olhos percorreram desde suas vestimentas até a ponta de suas orelhas — Ora, ora… — ele disse — O que uma elfa faz aqui em Ictinus? — perguntou, lançando um sorriso malicioso em direção à Ireth.

- Estou procurando um lugar para passar a noite — ela respondeu, agora fria — Há algum quarto disponível?

- Sim, sim — ele largou a caneca de vidro que limpava sobre o balcão e abaixou. Quando retornou, segurava uma chave de bronze empoeirada, com o número 15 reluzindo ante a luz bruxuleante e escassa dos lampiões a óleo. — É no primeiro andar.

- Obrigada — ela retrucou, tomando a chave das mãos do homem.

Continuou andando, observando o recinto: várias mesas redondas de madeira escura preenchiam o saguão encardido e escuro. Várias canecas batiam o tempo inteiro no tampo das mesas e espirravam gotas grossas de cerveja e vinho para todos os lados. As gargalhadas dos soldados, dos marceneiros, dos trovadores, enfim, dos homens que encontravam brechas em suas vidas atarefadas para poderem se embebedar e se esquecer do mundo real, se misturavam ao crepitar do fogo e ao cozinhar dos assados.

Vários olhares com segundas intenções transpassaram a elfa enquanto ela seguia em direção à escada para ir ao quarto. Ela tocou o arco que carregava às costas e lançou um último olhar à multidão.

Ao chegar ao quarto, abriu a porta e caminhou lentamente à cama. Jogou suas coisas sobre os lençóis encardidos e se despiu rapidamente, colocando uma belíssima roupa de seda para poder dormir. Encostou a aljava na cômoda ao seu lado e prendeu a cadeira à fechadura, para impedir que alguém entrasse.

Deitou-se na cama e antes de dormir lançou um olhar perdido para fora, observando as copas altas das árvores, os raios da lua, o ponto luminoso no horizonte… — Hã? — ela se perguntou, sobressaltando-se da cama e correndo à janela. Observou uma luz se movimentando por entre a folhagem espessa da floresta, lentamente, como se estivesse apenas de passagem.

Ela se debruçou sobre o parapeito e franziu o cenho, já sabendo quem estava naquele lugar. Estava na hora.

Ireth recolocou o traje, rearmou suas coisas e desceu as escadas naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Aproximou-se do estalajadeiro e entregou-lhe um punhado de dallias. — Fique com o excedente — ela murmurou. Antes que pudesse retribuir o sorriso do homem, sentiu um apertão em sua retaguarda. Ela arregalou os olhos e cerrou os punhos, ouvindo a voz regurgitada de um dos homens que descansava no Jüggernaut.

- Ora, ora… Vejam essa belezinha aqui! — ele passou as mãos por seu corpo, até chegar em seu pescoço. Ele aproximou seu hálito quente dos ouvidos da elfa. — Que me diz de irmos lá para cima, gostosa? Assim eu posso fazer de você uma elfa muito, muito feliz… — ele disse, recebendo vivas e aplausos dos outros. Exceto do estalajadeiro.

Ireth se virou para o homem. Ele esboçou um sorriso amarelado e coçou o traseiro. Seus olhos avermelhados estavam completamente mareados. — Eu vou te dizer o que vou fazer, senhor… — ela aproximou o rosto do homem vagarosamente. Ele se preparou para levar um beijo.

E de repente a elfa jogou a cabeça para trás e para frente, atingindo-o com força. Ele se jogou para trás e caiu sobre uma mesa, nocauteado. Dois outros homens se levantaram, empunhando as espadas, e avançaram sobre a elfa. Ireth sorriu macabramente e pulou, abrindo ambas as pernas e acertando os homens em cheio no rosto.

Logo depois, percebeu que começara um grande tumulto na estalagem. Notou os homens se armando em posição de ataque. Pelo menos cinquenta deles contra uma elfa. — Nós podemos fazer isso do jeito fácil — ela disse, retirando a capa — Ou do jeito difícil. Vocês escolhem. — assim que colocou a capa no balcão, eles começaram a atacá-la.

Ela levantou o braço para se defender de um ataque de martelo, e então segurou o pulso livre do homem com força, torcendo-o. Ouviu seus gritos e então usou o relaxamento da outra mão para arremessar o martelo contra dois grandalhões que se esgueiravam por trás. Livrando-se do primeiro oponente, pegou duas garrafas e deu um salto mortal para trás, atingindo mais dois com uma mistura de vidro e vinho.

Ireth arrancou uma faca que tinha presa ao couro da bota e a jogou para frente, transpassando a mão de um dos oponentes que segurava a espada. A arma caiu no chão e ela se jogou para pegá-la, a tempo de se defender de três ataques seguidos. Usando as pernas, desvencilhou-se dos oponentes e se levantou.

Utilizando as mãos, defendeu-se de socos que voavam de um lado para o outro, de chutes que ameaçavam desestabilizá-la, e de ataques com martelos, machados e espadas. Após derrotas mais alguns adversários, ficou claro que estava na hora de utilizar seu arco-e-flecha.

Ireth se abaixou, desviando de uma lança de espada, retirou uma flecha da aljava e a prendeu no fio. Ela retesou o arco e o soltou, atingindo o tórax de um dos homens. Ele gritou e se jogou para trás, derrubando outras pessoas no chão. Ao se levantar, abriu uma meia-lua com a perna e acertou três homens no rosto, espirrando sangue e dentes para os lados. Todos foram nocauteados e jazeram no chão frio da estalagem.

A elfa pulou e se agarrou no lustre. Logo depois, se jogou em cima de um homem, prendendo sua cabeça entre o fio e a madeira do arco. Bateu repetidamente sua cabeça em uma das mesas e depois o soltou, arremessando-o contra outros adversários.

Depois de muito tempo de luta, Ireth lançou uma última flecha na direção de um bêbado que ousava lhe ameaçar, prendendo a gola de sua camisa semiaberta na parede.

Ao vencer, se sentou na cadeira ao lado do balcão e olhou ao estalajadeiro — Me vê uma água, por favor — ela murmurou. O homem correu para pegar um copo à elfa, a qual olhava ao redor, observando todos aqueles desgraçados jazendo nocauteados na estalagem.

- Aqui está — ele murmurou, aparentemente assustado.

- Não se preocupe. Vou pagar tudo o que quebrei. — ela tomou a água em um só gole — Eles quiseram do jeito difícil. Eu estava disposta ao fácil.

Ela deixou uma sacola cheia de dinheiro em cima do balcão e desejou felicidades ao estalajadeiro. Ao sair do Jüggernaut respirou o ar puro e fitou a floresta que se estendia à sua frente.

É… Teria sido melhor continuar na estalagem.

Ao menos ela teria diversão.

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