Porque eu não tenho carteira de motorista?

É sempre a mesma ladainha: seja na mesa do bar, na escada do metrô ou na festa do apê. Toda vez que eu falo que não tenho carteira de motorista, os olhares mudam. O cara cutuca o colega do lado da mesa, a menina dá uma risadinha com a mão na boca, enquanto o namorado sai para fumar com o melhor amigo. Me sinto como um aidético nos anos oitenta, parece que o mínimo respeito que tinham pela minha pessoa acaba ali.

Até tentei dirigir algumas vezes, mas, aquilo não fazia parte de mim. O carro para mim é algo bizarro e ultrapassado. Acho que daqui há uns 300 anos, quando historiadores tentarem descrever o tempo no qual vivemos, terá um capítulo, mais ou menos, assim: “Naqueles tempos, das grandes cidades e ostentação de poder barato, os homens se locomoviam com objetos de metal que pesavam mais de 800 kg e tinham capacidade para levar apenas 5 pessoas. Além disso, esses veículos emitiam 7 substâncias tóxicas letais, como: monóxido de carbono e metano. Tais veículos, ficavam, em média, 96% do tempo parados, apenas ocupando espaço. Apesar disso, ter um veículo, naquela época, era algo que ia além da locomoção. A indústria automotiva fez com que o carro fosse uma marca de ostentação de poder.”

O carro, na minha visão, é nada mais do que isso: um veículo de 800 kg, para apenas 5 pessoas, que fode com o meio-ambiente: Para que ter um?

Quando entro nesse embate, muitos vem com aquela questão clássica: Mas os meios de transporte coletivo estão sucateados, então, os carros particulares são indispensáveis.

Sim, há vários lugares onde os veículos são indispensáveis. Para quem tem que fazer viagens longas todos os dias, trabalha em uma outra cidade ou, simplesmente, quer viajar com a família com um pouco mais de conforto, ter um veículo em casa é plausível.

Porém, a grande maioria dos meus colegas que vem com esse papo, residem em bairros próximos a alguma linha do metrô paulista. O máximo que o sujeito teria que fazer para chegar ao trabalho é pegar um ônibus e metrô. Além disso, na maioria das vezes, essas pessoas circulam em áreas com boas linhas de transporte público: Quem mora em bairro de classe média não pode usar isso como desculpa!

Mas, quando falo sobre isso, há sempre alguém que contra argumenta: “Mas não dá para pegar ônibus nem metrô em horário de pico em São Paulo”.

Para este argumento, uso a teoria do sacrifício social: Se todos pensarmos dessa maneira individualista, o mundo está perdido. Imagine se 40% dos cidadãos que vão de carro para o trabalho todos os dias em São Paulo resolvam pegar o metrô: O que vai acontecer? Uma hecatombe de gente; um formigueiro humano que não vai conseguir andar — Lógico que estou sendo utópico, imaginando um mundo colorido, onde, nesse dia, não aconteceriam incidentes, nem brigas-. Um formigueiro que iria estarrecer a mídia e a sociedade, colocando o transporte coletivo em pauta. Acontecendo isso, as autoridades teriam que olhar para o transporte coletivo com um pouco mais de carinho.

Se esse momento utópico acontecesse, apenas estaríamos adiando o colapso das grandes metrópoles: não há mais espaço para tantos carros. Segundo o documentário Bike x Cars, o número de carros em São Paulo é 2x maior do que o número de habitantes: quer dizer, há mais carros do que pessoas na cidade.

Se refletirmos um pouco, veremos que o cara que tem o fusca azul velho, tem mais motivos para ter um veículo do que o rapaz que ostenta sua BMW na Avenida Paulista. O cara do fusca, mora em uma região periférica, com transporte deficitário e precisa daquele veículo para chegar ao trabalho no horário. Já o rapaz da BMW, provavelmente reside em regiões próximas ao seu emprego e o máximo que ele teria que fazer para chegar ao seu emprego é pegar um Uber ou um Táxi: Mas o táxi não é um veículo? Sim, mas quando pegamos um táxi, estamos compartilhando um veículo, ao invés de colocar mais um nas ruas. Parece pouco, mas, voltando a história da formiguinha, a cada pessoa que deixa o carro em casa para pegar um táxi é contabilizado um carro a menos na rua, reduzindo pela metade o número de veículos.

O carro já é um retrocesso e um problema da sociedade contemporânea. Um problema que o homem, apesar de fingir que não existe, terá que enfrentar um dia; E terá que enfrentar pelo amor ou pela dor. Ou acontece o colapso do transporte, ou acordamos antes e resolvemos o problema. A merda é que, geralmente, preferimos o colapso.

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