Facada Fake? Uma Insanidade Coletiva

Desde que o Bolsonaro foi atingido com um golpe de faca, no dia 6 do presente mês, uma chuva de postagens e memes nas redes sociais tem por objetivo negar que o atentado foi real. As pessoas postaram vídeos dele entrando num hospital andando e sorrindo, sem nem ao menos apurar que o vídeo foi de um compromisso de campanha que ocorreu na parte da manhã — a facada se deu à tarde. Outros pediram sangue nas imagens e chegaram a dizer que tudo era mentira por não terem visto o fluido vital escorrendo pela barriga do presidenciável. Mais de um médico explicou que aquele tipo de golpe causa hemorragia interna e quando o sangue escorre para fora do corpo é quando o intestino não consegue segurar a quantidade que lá já existe. Ainda tiveram aqueles que viram um médico sem luvas colocando um eletrodo e passaram a afirmar que tudo não passava de mero teatro, e que o Bolsonaro não foi operado coisíssima nenhuma. Seria tudo isso produto de mentes ignorantes? Será que as pessoas que fizeram estas postagens “geniais” são pessoas que tem um intelecto semelhante ao de um camarão?
Algumas das pessoas que fizeram estes questionamentos são gente que tem formação acadêmica, leem bons livros, tem acesso a cultura e lazer e até dominam mais de um idioma. Algumas destas pessoas são concursadas, ou seja, se submeteram a uma prova que testa seus conhecimentos para trabalharem num órgão público. Ignorantes não são. Mas porque que negam um fato como o atentado ao Bolsonaro? Há toda a sorte de provas incontestes: Testemunhas diversas, vídeos que mostram o exato momento da perfuração, confissão de quem deu a facada, laudo médico e cobertura da imprensa — a mesma imprensa que sempre fez de tudo para aniquilar a reputação política do Bolsonaro. Por que essas pessoas, que zombam de quem não acredita que o homem foi a lua ou de quem afirma que a Terra é plana, não se dão por satisfeitas diante dos fatos?
Acontece que essas pessoas tem pressupostos. Elas tem compromissos intelectuais dos quais não desejam se desfazer. São esses pressupostos as lentes que usam para enxergar os fatos, sendo assim, os fatos serão interpretados de acordo com tais óculos. Essas pessoas foram doutrinadas numa ideologia — e ideologias são narrativas. Qualquer fato que venha surgir para desconstruir a narrativa será descartado. Só os fatos pró é que contam. É por isso que tais pessoas, diante do espectro político-ideológico que se encontram, questionam se há sangue saindo do Bolsonaro, mas nunca pediram para a Dilma mostrar as cicatrizes da tortura que ela alega ter sofrido. Não estou afirmando que a Dilma não foi torturada, apenas tenho a intenção de demonstrar que tal contestação seria absurda para os anti-bolsonaristas, embora não soe absurdo negar o atentado do dia 6/9, mesmo que — e aqui estou sendo técnico, não taxativo — haja mais evidências da facada nele do que da tortura dela.
Outro viés de quem pertence a este espectro político é o de justificar o atentado. Denunciam discurso de ódio de um lado, fazem de tudo para respaldar o discurso de ódio do outro. Bolsonaro, dizem eles, colheu o que plantou. Para eles, Bolsonaro é culpado da facada que recebeu por ser um estimulador da violência. Mas foi omitida a violência da fala de quem disse que burguês merece uma “boa bala e uma boa cova”. Não existe discurso de ódio de quem alegou receber a turma do Sérgio Moro com balas (não, não me refiro a doces). Líder sindical ameaçou a população brasileira caso houvesse o impeachment da Dilma e ninguém reprovou sua oratória violenta. O que aconteceu com essas pessoas? Alguém atentou contra a vida delas? E se atentasse, seria usada a máxima “colheu o que plantou” ou seriam canonizados no panteão dos deuses laicos como pessoas boas que perderam a vida ao se devotarem as causas mais nobres desse mundo?
E sobre o dito cujo que desferiu o golpe com a faca? “Ah, ele é lunático, tem postagens desconexas, seu Facebook era cheio de teorias da conspiração. Não foi um crime por motivação ideológica”. Ah não? Mas se fosse alguém filiado por anos ao PSDB (que insistem em dizer ser um partido de direita) que tivesse golpeado o Lula, ou o Boulos, ou o Ciro? Se fosse um cara que ao invés de seguir páginas de conteúdo marxista seguisse páginas conservadoras? Será que seria tratado como um insano? Se fosse o oposto não seria um crime motivado pelo ódio da extrema direita? Esqueçamos as hipóteses e fiquemos com a realidade. Quem esfaqueou Bolsonaro é assumidamente de esquerda, chegou a ser filiado a um partido de esquerda, mas considerado louco por falar em conspiração maçônica entre outras teorias insustentáveis. Engraçado é que alegar que o ataque ao Bolsonaro é farsa não deixa de ser uma teoria da conspiração… O que isto significa? Seria, pois, um retrato da insanidade coletiva? O compromisso ideológico furtou-lhes a razão?
Bem, para quem alega que não existe ditadura na Venezuela, que Cuba é um lugar bom de se viver (embora parte considerável da população de lá se arrisque em fugas diárias) e comemora o centenário da Revolução Russa — regime que causou um número de mortes muito maior do que os números do regime nazista — deve mesmo ter perdido o juízo em alguma linha de algum autor da Escola de Frankfurt. É uma pena, pois alguns são homens brilhantes. Todavia, Heidegger está aí para provar que homens brilhantes também defendem ideias e políticas execráveis. Não adianta espernear, as narrativas seletivas não irão apagar as diversas demonstrações de qual é o lado, não apenas insano, mas também o mais odiento de toda essa história. Quem não tomar facada, e viver, verá!
