CAPÍTULO 4

Hevan acordou sentindo muita dor no peito e uma dor de cabeça insuportável. Ele percebeu que estava dentro de uma caverna, e havia uma fogueira acesa à sua frente. No outro lado da fogueira estava um homem, vestido com uma capa negra e roupas escuras, encapuzado, assando no fogo um pedaço de carne em um espeto feito com um galho de árvore. O elfo não conseguia ver seu rosto por completo, apenas a boca e dentes. Ele ria sarcasticamente.

- O pequeno elfo despertou de seu sono de beleza, finalmente? Estou muito curioso para saber o que três aventureiros tão inexperientes como vocês estavam procurando por esses cantos.

Hevan levantou-se depressa e tentou puxar sua espada, mas percebeu que estava sem ela. O homem riu novamente, se esticou um pouco e pegou a Mordaz de um canto perto dele.

- É isso que está procurando, pequeno elfo?

- Devolva-me! Essa é a espada de meu pai, e deve permanecer comigo!

- Não chore, criança! Eu lhe devolverei a espada assim que me provar que não tentará me fazer mal. Embora duvide que conseguiria fazê-lo, após ver sua pífia luta contra aqueles escaravelhos!

Hevan já tinha sido muito debochado durante toda a sua vida, e dessa vez, sem Mikelah para lhe apoiar, não iria deixar barato.

- Modere seu linguajar, homem! Não me conhece e não deveria julgar-me de tal forma! Agora me devolva essa espada e me diga onde estão minhas companheiras! — disse ele, ao rapidamente pegar uma das lenhas da fogueira para usar como arma.

No mesmo instante, Sarah e Alana entraram na caverna — que não era muito profunda — com galhos e madeira para manter o fogo. A clériga iniciou o diálogo.

- Que bom que acordou, Hevan! Estávamos preocupados. Vejo que já conheceu Dart, o homem que nos salvou dos escaravelhos gigantes.

Dart acenou com um sorriso cínico e esticou a espada para Hevan pegar.

- Tome, rapaz. Não precisa ficar alterado.

Após entregar Mordaz para o elfo — que o olhara com grande ar de reprovação — , Dart começou a se explicar.

- Sou um andarilho e conheço essa floresta como ninguém. Ao ouvir o som dos ventos, começo a percorrer toda ela para aprender o novo caminho. Eis que os encontro, estabanados em meio à uma batalha, e então resolvi ajudar. Posso acompanhá-los até a saída da floresta, se desejarem. Pelo que a clériga disse, parece que estão com pressa.

- Isso seria ótimo! — exclamou Alana. Ela mostrava-se empolgada com a presença de Dart, pois sua vestimenta e seu modo de agir lembravam muito os melhores membros dos clãs de ladrões. Hevan obviamente demonstrava insatisfação, mas logo lembrou que, se não fosse sua teimosia, talvez nada daquilo teria acontecido. Ele se aproximou de Sarah, observando Dart com o canto dos olhos.

- Sarah, já que possui o poder de visualizar a bondade nas pessoas, o que me diz desse homem? — perguntou em voz baixa.

Como a maioria dos clérigos treinados, Sarah aprendeu com o poder das orações a detectar o mal em pessoas e objetos mágicos. Uma espécie de aura reveste o alvo, indicando sua essência. Tons azulados indicam bondade, enquanto uma aura mais avermelhada aponta propensão ao mal.

- Assim que acordei já me concentrei para enxergar bondade nele, mas é como se algum tipo de barreira me proibisse de fazê-lo. Contudo, meu coração diz que podemos confiar em Dart!

- Ainda estamos no meio da noite — interrompeu o sombrio andarilho. - Sugiro que comam algo e descansem. Eu ficarei de guarda até o amanhecer.

Alana e Sarah começaram a se servir. Hevan, ainda chateado com a situação, apenas sentou num canto da caverna, um pouco mais afastado, e fez algo que costumava fazer quando queria espairecer: olhava para um pingente que sempre estivera pendurado por um cordão em seu pescoço — embora não soubesse de sua origem — e ficava imaginando e inventando estórias a respeito de seu significado. A ladra, curiosa, e tentando mais uma vez aproximação com o elfo, criou coragem e foi sentar-se perto dele para puxar assunto.

- Bonito pingente. O que é?

Hevan respirou fundo e decidiu que o melhor no momento era se redimir de ter sido tão frio anteriormente.

- Não sei ao certo. Como Sarah já lhe contara quando as interrompi, fui encontrado por uma família de Marts à beira do Rio Sul. Mikelah me contou que junto comigo estava esse pingente. Essa é a única pista que pode dizer quem eu sou e por que tudo isso aconteceu comigo. Por isso, pedi para que Thelma me fizesse um cordão e assim eu pudesse sempre carregá-lo. Tenho esperanças que isso ainda me traga respostas.

O pingente tinha forma de duas luas — uma negra e uma branca — , se mesclando em sobreposição, lembrando o formato do número oito na horizontal. A parte alva era áspera e opaca, mas de um branco absoluto, e a negra brilhava como se fosse feita da mais perfeita ônix. Um filete de bronze circundava a joia por completo.

Alana, percebendo como o amigo estava abatido, ofereceu sua comida. Hevan hesitou, mas acabou aceitando. Durante a rápida refeição, Hevan contou mais de suas histórias a ela. Sarah se pôs em oração em outro canto, enquanto Dart saiu para guardar a entrada. Após um certo tempo, todos caíram num merecido sono.

Os primeiros raios de sol começavam a entrar pela caverna quando foram acordados com Dart os chamando, com pressa.

- Precisamos ir. O dono da caverna está se aproximando!

Sem entender muito bem o que estava acontecendo, os três começaram a arrumar suas coisas para saírem da caverna, mas logo ouviram um sonoro urro vindo da entrada.

- Tarde demais! — disse Dart, desembainhando das costas duas espadas finas e compridas, visivelmente afiadas.

Um grande urso pardo caminhava para dentro da caverna, de pé, preparando-se para um ataque.

Alana e Sarah se posicionaram logo atrás de Dart, também com as armas em punho. Hevan, que estava mais ao fundo da caverna, optou por equipar-se mais uma vez com seu arco.

O urso avançou contra Dart, tentando lhe arranhar com a pata direita, mas o andarilho desviou do golpe com maestria e acertou as costas do animal com uma de suas espadas. Sarah também entrou na batalha, tentando ajudar Dart, enquanto Alana se posicionou para tentar surpreender o animal por trás. Hevan carregou seu arco e tentou mirar no urso, que se movia muito em meio a toda a luta. Ele se concentrou e soltou a flecha, que infelizmente acertou de raspão a orelha de Sarah. Ela deu um pequeno grito, mais pelo susto do ataque não esperado do que pela dor que sentiu. O elfo sentiu-se frustrado por ainda não conseguir utilizar o arco de forma correta e pegou sua espada, correndo em direção à fera.

Alana tentou um ataque, mas o urso se virou e a acertou com a pata. Sarah mirou nas pernas do bicho e Dart girou as espadas em torno dele, infringindo vários cortes pelo corpo. O animal tornava-se cada vez mais feroz ao sentir-se emboscado e usou toda a sua força para derrubar os oponentes, empurrando-os com as patas e com o peso do corpo. Sarah caiu para direita, enquanto Dart foi arremessado para o fundo, deixando apenas Alana por perto. O urso a agarrou e começou a dar um abraço forte, tentando esmagar a ladra. Ela tentava gritar, mas estava ficando sem ar — assim como havia acontecido contra os escaravelhos. Hevan, para salvar sua companheira, aproveitou a distração do urso e acertou um golpe certeiro do lado direito, entre as costelas, fazendo a fera urrar de dor e cair desacordada.

- Obrigada, Hevan — disse Alana após ser solta, ofegante e tossindo.

O elfo apenas acenou com a cabeça e, preocupado, foi ver Sarah.

- Desculpe-me pela flechada! Ainda não aprendi como lidar com o arco!

Sarah parecia um pouco nervosa, mas logo deu risada.

- Não se preocupe, acertou de raspão! Acredito que ainda irá dominar o arco, pois está no seu sangue! Apenas tome mais cuidado da próxima vez!

Dart apenas riu da situação, provocando Hevan.

- Apesar de toda a habilidade com o arco, pelo menos o pequeno elfo derrubou o bicho! Enfim, melhor nos apressarmos, pois existem mais desses animais por aqui!

Hevan, embora nervoso, sabia que o melhor a fazer era sair logo dali. Eles juntaram o que faltava para se arrumarem e abandonaram a caverna.

Durante boa parte da caminhada, eles não conversaram. O elfo sentia-se desconfortável com a presença do sombrio Dart, já que mal tinha conseguido ver o rosto — e os olhos — do homem. Sarah permanecia concentrada e Alana estava curiosa para saber mais de Dart, mas não tinha coragem de se aproximar. Em um determinado momento, quando Alana estava mais próxima do andarilho, ele mesmo se encarregou de puxar assunto.

- Menina, faz parte de algum clã?

- Já participei de alguns, mas nunca tive vontade de me manter. Ainda estou em busca do que quero para minha vida.

- Posso ensinar-lhe alguns truques em outro momento, quando não estiverem com tanta pressa.

- Então você também é ladino? — perguntou ela, com um sorriso.

Dart acenou positivamente. Hevan, com aquele mesmo sentimento de proteção que sentira por Alana no dia que se conheceram, resolveu se intrometer.

- Não precisa se incomodar. Apenas nos mostre a saída e pode seguir seu caminho que nós seguiremos o nosso.

Alana não gostou da intromissão, mas preferiu ficar em silêncio.

Andaram por mais uma hora e meia, até chegarem próximos à saída. Quando já estavam vendo a claridade e o campo verde da Planície de Arche, um grupo de cerca de oito soldados apareceu do meio das árvores, fechando o caminho em frente a eles. Ao ver a movimentação, Dart rapidamente se deslocou para dentro da mata e sumiu, sem deixar rastros.

- Alto! O que fazem aqui? Esse caminho é proibido, sob pena de prisão no calabouço de Arche! — disse o comandante dos soldados. Eles trajavam uma armadura negra que trazia o brasão família Reichdall cravejada no peito.

Os três começaram a se perguntar como o caminho era proibido se o próprio duque os enviou para lá. Hevan resolveu tentar ser diplomático.

- Perdão, nobre soldado. Por solicitação do duque Martinus, de Marts, devemos passar pela floresta e rumar para a capital de Arche, avisar sobre um ataque que ocorreu contra a cidade.

Enquanto explicava a situação, ele entregou a carta que o duque o deu. O comandante leu a carta, riu sarcasticamente e a rasgou.

- Prendam-os!

Sem entenderem o que estava acontecendo, Hevan, Sarah e Alana tentaram argumentar, mas sem efeito. Mesmo lutando contra, os três foram subjugados.