CAPÍTULO 5

Eram passados dois dias desde que Sarah, Alana e Hevan foram presos pelos soldados de Arche na saída da Mata dos Ventos. Uma carruagem os levou até um porto, onde foram colocados em um bote e levados à prisão, que se localizava em uma ilha não muito afastada da costa oeste do continente. A ilha possuía apenas a prisão, a uma altura de quase vinte metros do nível do mar, como se fosse um grosso e extenso pilar. A chegada ao local só era possível através de barcos, e sua entrada se dava após vários lances de escada, que ziguezagueavam da base do porto até um portão de aço, largo e pesado, na ala sul do local.

Sarah e Alana estavam dentro de uma cela no final de um dos corredores. Hevan se encontrava na cela ao lado, separado por uma parede de pedra maciça. As celas eram pequenas, onde cabiam apenas quatro pessoas acorrentadas. Toda a construção era feita de grandes pedras, com muito limo e goteiras. Grossas barras de ferro fechavam a entrada, de onde se via um corredor estreito e escuro, além de silhuetas de seres aprisionados em celas à frente. De vez em quando alguns guardas apareciam — sempre em duplas — fazendo a ronda.

Os três aventureiros não conseguiram ver nada do caminho, pois suas cabeças foram cobertas por panos pretos durante o trajeto. Foram alimentados de forma racionada com pão seco e água morna. Ao chegarem, foram desarmados, e seus pertences, apreendidos.

Durante os dois dias, eles debateram através das paredes sobre o que poderia ter acontecido para terem sido presos, mas não havia lógica que os fizessem chegar a uma conclusão. Alana chegou a tentar abrir a fechadura da porta com a ajuda de um grampo de cabelo, mas foi advertida por um guarda a não se aproximar das barras de ferro, caso contrário seria agredida. Hevan estava novamente pensativo, observando seu pingente, tentando entender um estranho episódio que ocorreu no dia da prisão: ao terem seus bens levados, um guarda tentou remover o pingente do pescoço de Hevan, sem sucesso. O cordão não se arrebentou com os puxões do truculento soldado, e estranhamente o mesmo cordão parecia se encurtar a ponto de não possibilitar que fosse retirado pela cabeça do elfo. “Seria algum tipo de mágica?”, indagou-se. Thelma não era uma feiticeira para aplicar tal propriedade ao objeto, e o próprio Hevan já havia retirado-o facilmente em algumas ocasiões, quando, por exemplo, ia se banhar no Rio Sul. Seria o próprio pingente que incidia algum tipo de encanto? Ou ainda — isso poderia ter algo relacionado com o fato de Hevan ser um elfo?

Mesmo concentrado em desvendar o segredo do cordão e do pingente, sua audição apurada percebeu uma movimentação atípica vindo dos corredores à frente de sua cela. Ele tentou se esgueirar até a porta, mas as correntes presas às pernas dificultavam a locomoção. De repente, o capacete de um dos guardas rolou pelo chão. O elfo se esforçou para chegar mais perto, batendo as correntes contra o piso, quando viu um vulto vindo pelo canto das paredes, sempre buscando as sombras para se locomover.

- Pare de se mover! Está fazendo muito barulho! Vai acabar chamando a atenção de outros guardas! — disse a imagem sombria em voz baixa, enquanto retirava uma chave do bolso para abrir a cela onde Hevan estava. Logo o elfo reconheceu o dono da voz: Dart.

Muitas perguntas passaram pela cabeça de Hevan. Ele tinha vontade de encher Dart com elas, e também esbravejar contra ele, afinal como ele pôde ser tão covarde ao fugir dos soldados e deixá-los para serem presos sem oferecer nenhum auxílio? Apesar de suas vontades, ele lembrou que era melhor fazerem o maior silêncio possível. Iria questioná-lo mais tarde, quando estivessem livres.

Dart soltou Alana e Sarah, que também pensaram em fazer perguntas, mas o sombrio ladrão pediu silêncio antes de qualquer tentativa de fala. Colocou os guardas mortos dentro de uma das celas e a fechou. Os quatro se deslocaram com cuidado pelos corredores, sempre nas áreas mais escuras, ao lado das paredes maciças. Alguns prisioneiros de outras celas que percebiam a movimentação pediam em voz baixa que os soltassem. Dart respondia, sussurrando, que depois voltaria para libertá-los. Confusa, Alana resolveu perguntar, também aos sussurros.

- Irá soltá-los também?

- Não, isso chamaria muita atenção. Mas pelo menos assim eles ficam quietos! — respondeu Dart, sem demonstrar compaixão.

Após caminharem por alguns minutos e desviarem da ronda de dois grupos de guardas, eles chegaram ao final do corredor, onde havia uma porta de ferro, guardada por dois soldados.

- Lá estão seus pertences! Temos que passar pelos dois guardas sem chamar atenção — disse Dart, tomando a frente.

- E como faremos isso? — perguntou Sarah.

- Apenas observem.

Dart retirou do seu cinto duas pequenas lâminas pontiagudas, semelhantes a diminutas adagas e com as pontas banhadas por um tipo de líquido viscoso, e fez um movimento rápido com o braço, lançando seu corpo para frente. Cada lâmina acertou um guarda diferente, na altura do pescoço. Os dois soldados colocaram as mãos na garganta, como se sufocassem, e caíram no chão, sem ar. Sarah olhou assustada para a cena, enquanto Alana ficou admirada com a habilidade do companheiro ladino. Hevan, por sua vez, mais uma vez se sentiu frustrado por ter que depender de um sujeito desconhecido, misterioso e que constantemente mostrava-se petulante.

Dart pegou um molho de chaves da cintura de um deles e abriu o depósito. O local era escuro e úmido, com caixotes de madeira espalhados por todo o piso. Hevan tomou a frente e começou a procurar pelos pertences. Dentre várias das habilidades naturais dos elfos, eles podiam enxergar no escuro, o que possibilitou a Hevan sentir-se útil pela primeira vez desde que Dart apareceu.

Enquanto estava separando tudo que lhes era de direito e até o que mais poderia ser útil, Hevan questionou o ladrão.

- Qual o próximo passo, Dart? Por onde saímos?

- Podemos sair por onde entrei. Há uma passagem secreta no chão do salão de jantar, mas precisamos ser rápidos, pois estamos a meia hora do horário da refeição dos guardas.

- Como você conhece tão bem esse lugar? O que está escondendo?

- Acho que é meio óbvio que um homem com minhas habilidades já tenha sido preso em algum momento da vida, não acha? Já fugi daqui dezenas de vezes!

- E foi preso por que, ladrão? Roubo? Assassinato? Como podemos saber se você é confiável?

- Deixe a conversa para depois, elfo! Basta lembrar que salvei vocês dos escaravelhos e estou aqui para tirá-los da prisão!

- E por que você está fazendo isso?

- Repito: deixe a conversa para depois. Vamos embora.

Alana começou a ficar chateada com Hevan. Apesar de Dart não ser um exemplo claro de alguém em quem se pode confiar, ele estava se esforçando para ajudar o trio. Além disso, ela reprovou a forma pejorativa como o elfo referiu-se a Dart ao chamá-lo de ladrão, já que ela mesma já tinha feito parte de clãs de ladinos e sabia que — assim como ela — haviam muitos membros que eram honrosos.

Hevan conseguiu recuperar os pertences e também encontrou uma armadura de couro já gasta, mas que lhe daria mais proteção, além de outros itens que poderiam ser importantes, como cordas, cobertores e comida. Com todos a postos, continuaram se esgueirando pelos corredores até o salão de jantar.

Após escaparem de mais duas rondas de guardas, chegaram ao salão, que já estava com as portas abertas para aguardar a chegada dos soldados que iriam participar da refeição.

O salão era mais limpo que o restante da prisão, embora também fosse feito das mesmas grandes pedras que os outros cômodos. A iluminação se dava por lustres e janelas no lado esquerdo da entrada, que tinham vista para para o mar. No centro, uma extensa mesa de madeira era cercada por mais de cinquenta cadeiras, sem muito requinte, e uma enorme cadeira na ponta mais longe da porta, com estofado vermelho e detalhes dourados. À direita, nos fundos, uma porta dava acesso à copa.

- A passagem fica embaixo da cadeira grande — disse Dart, sussurrando e entrando na sala fazendo o menor barulho possível.

Os três seguiram Dart, andando agachados, devagar e com todo o cuidado. Estavam na metade da extensão da mesa quando ouviram os primeiros soldados chegarem.

- Estou morrendo de fome! Tomara que hoje seja dia de javali! — um dos oficiais comentou com outro.

Eram cerca de oito, e logo após mais três, conversando entre si sobre vários assuntos, inclusive debochando de alguns dos prisioneiros que clamavam por ajuda ou por piedade.

Ao ouvir a chegada, Dart apenas olhou para Hevan, Sarah e Alana e apontou para baixo da mesa. Os quatro se locomoveram em silêncio para lá e ficaram à espreita, pois qualquer movimento poderia ser notado pelos guardas, e haviam muitos deles para arriscar um combate.

- O jantar é feito em dois turnos. Vamos aguardar o fim deste — aconselhou Dart.

Logo ouviram o barulho de panelas e talheres e perceberam que o jantar estava sendo posto à mesa. Mais guardas chegaram, conversando entre si.

- Alguém viu o Deleon hoje? — um deles questionou.

- Creio que hoje ele faz ronda com Klien, mas não encontrei com nenhum dos dois — outro respondeu.

Quando começaram a se servir, já impacientes para esperar os que estavam atrasados, um estrondo muito alto, como se um tronco de árvore fosse lançado contra a parede, ecoou pelo salão, seguido por um berro rouco e grave.

- Como ousam começar a jantar antes de minha chegada?

Era Kuthulen, o minotauro carrasco da Prisão de Arche, esmurrando a porta do salão durante sua entrada. Ele era o executor dos prisioneiros condenados à morte. O medo que a besta causava em todos os guardas fazia-o ser o mais respeitado dos trabalhadores da prisão. Meio homem, meio touro, Kuthulen possuía a altura de dois homens e um corpo robusto e coberto de pelos na cor marrom, quase acinzentados. A cabeça, hedionda, mesclava o olhar e feição de um humano com os chifres, orelhas e focinho de um bovino raivoso.

- Esqueci dele! — disse Dart, sussurrando, como se falasse apenas para si mesmo.

- Quem, ou o que é ele? — questionou Alana, assustada, vendo sob a mesa apenas as grandes e peludas patas do bicho, que terminavam em um casco negro e espesso.

Dart explicou rapidamente quem era Kuthulen e pediu para que ficassem em silêncio.

Após a gritaria de Kuthulen, todos os soldados se desculparam com ele e a janta continuou com pouca conversa.

Estavam há cerca de vinte minutos esperando pelo fim do jantar. As costas de Hevan e Alana já doíam por causa do tempo que estavam arcados, mas aguentavam firme. O elfo ouviu ao longe o passo apressado de duas pessoas indo em direção ao salão, mas evitou avisar alguém, para não correr o risco de desencadear nos seus companheiros uma reação que pudesse entregar o esconderijo deles. Poucos segundos depois, dois soldados chegaram no salão de jantar, ofegantes.

- Deleon e Klien estão mortos! Nós os encontramos dentro de uma das celas!

Kuthulen socou a mesa com força, fazendo bebidas e ensopados serem derramados.

- Absurdo! Então temos fugitivos! Vão, suas escórias humanas! Procurem os prisioneiros que escaparam!

Enquanto muitos deles se apressaram para sair da sala e ir atrás dos supostos prisioneiros, Kuthulen se concentrou e começou a farejar. Logo, rosnou e ergueu a pesada mesa com toda a força, derrubando os guardas que estavam saindo por último, bloqueando a porta e, enfim, revelando Dart e os três prisioneiros em fuga.

- Eu sabia que estava sentindo um cheiro estranho desde que entrei nesse salão! Pois eu, Kuthulen, o terrível, sentencio os fugitivos à morte! — disse o minotauro, aumentando o tom de voz e indo buscar seu machado, escorado no canto direito da sala, perto da entrada para a copa.

Mesmo assustados, Hevan, Alana e Sarah sacaram suas armas, enquanto Dart, em um deslize rápido, chutou o cabo do machado antes de Kuthulen alcançá-lo, derrubando-o no chão.

- Seu verme! Vai pagar por derrubar o lendário machado de Kuthulen, o terrível! — urrou a besta.

- Deixem-no longe do machado! — avisou Dart a seus companheiros.

Enquanto Hevan e Sarah foram em direção ao minotauro, Alana correu para o canto onde estava o machado e, fazendo muita força, lançou-o pelo piso para o meio do salão.

Kuthulen era grande e forte, mas devagar. Ao ver que seu machado foi deslocado, virou-se lentamente, dando oportunidade para Hevan, em um ataque surpresa, desferir um corte na altura do peito do minotauro. Sarah, com sua clava, acertou-o no braço direito. Furioso, Kuthulen urrou e acertou um soco em Sarah e uma cabeçada em Hevan, que por sorte não foi atingido por um dos chifres. Dart correu por trás do monstro e cravou dois punhais em suas costas e se impulsionou para acrobaticamente pular por cima dele, mais uma vez chegando do lado do machado. Alana chegou logo após, e ambos tentaram erguer a pesada arma para jogá-la pela janela. Vendo tal cena, Kuthulen bufou de raiva e, em um urro, ameaçou-os.

- Larguem meu machado, ou eu juro que farei vocês em pedacinhos!

Dart e Alana foram chegando mais perto da janela, encarando o bicho de frente. Hevan e Sarah, percebendo que seus golpes, por mais fortes que tivessem sido, não causaram muito dano ao monstro, desistiram de continuar atacando e se uniram a Alana e Dart para ajudá-los.

Os quatro ergueram o machado pelo cabo e ameaçavam jogá-lo pela janela, quando Kuthulen começou a bufar pelo nariz e arrastar uma de suas patas no chão, como um touro bravo pronto para o ataque. Os seus olhos escureceram, indicando que sua racionalidade havia sido substituída pelo instinto animalesco.

- Esperem! Não se movam ainda! — avisou Dart.

O minotauro continuava com seu ritual, cada vez mais ameaçador. Dart pedia insistentemente para que os outros não se mexessem e nem largassem o machado. Naquele momento, alguns soldados, que ouviram todo o barulho vindo do salão, estavam tentando tirar os destroços da pesada mesa que fora arremessada por Kuthulen para conseguirem entrar no salão e auxiliar a besta na batalha.

Quando finalmente o monstro começou sua corrida em direção aos quatro, Dart gritou “Agora!”. Eles então lançaram o machado pela janela e pularam rapidamente para o lado. O minotauro, cego de raiva, mal percebeu que os seus adversários saíram de sua rota e desferiu seu mais poderoso golpe contra parede, fazendo-a desmoronar. O salão de jantar ficava em uma das bordas da prisão, logo Kuthulen — que não conseguiu parar antes de atravessar a construção de pedras — entrou em uma queda livre de dezenas de metros, que iria terminar entre o mar e as rochas da costa da ilha.

Os quatro aventureiros se levantaram no momento em que os guardas conseguiram se livrar dos destroços na entrada do salão. Eram cerca de vinte soldados, todos rodeando o espaço entre Dart, Hevan, Sarah, Alana e a parede em ruínas.

- Não se movam! Estão presos em nome do Reino de Arche por tentativa de fuga e pelo assassinato de Kuthulen, o terrível, carrasco da Prisão de Arche!

Eles se levantaram com as mãos para o alto e se entreolhando. Dart, movimentando a cabeça, indicou a Hevan o buraco aberto na parede. Hevan olhou para trás, medindo a distância até a água e o risco de bater em algo. Mesmo com medo, concordou com Dart e, enquanto quatro guardas se aproximavam para capturá-los, os dois pularam em direção ao mar. Alana e Sarah viram a cena e, mesmo estarrecidas e com muito medo, resolveram fazer o mesmo.

Dart caiu por primeiro na água, seguido por Hevan, Sarah e, por último, Alana. Os guardas não acreditaram no que viram e ainda ficaram um bom tempo observando pelo buraco o mergulho dos fugitivos antes de se apressarem a descerem e persegui-los pela costa.

Após nadarem até a terra firme, ainda ensopados e com frio — afinal já era noite — , o grupo começou a caminhar pela areia, procurando um lugar para se esconderem dos soldados.

- E o minotauro? Será que ele também está atrás de nós? — questionou Alana, ainda com medo do monstro.

- Improvável. Um bicho pesado e estabanado como aquele não deve sequer conseguir nadar! — respondeu Dart.

Buscando ficar mais longe da beira-mar, o ladrão guiou-os por um difícil caminho na lateral do paredão de pedras e barro, formado pelo íngreme monte que abrigava a Prisão em seu topo. Ele tomava certa distância do restante do grupo, tateando as pedras a fim de encontrar alguma entrada no meio da escuridão que os rodeava, pois até a lua estava encoberta por nuvens. Hevan, utilizando sua visão apurada, ajudava as garotas a irem pelo caminho mais seguro. De vez em quando ouviam o vento trazer os gritos dos soldados e alguns latidos de cães farejadores. Por vezes, ainda conseguiam ver fachos de luz bem ao longe, provavelmente das tochas que os guardas traziam nas mãos.

- Arrá! — exclamou Dart, ao colocar a mão por dentro de um buraco nas rochas e sentir uma pedra solta.

- Encontrou algo, ladrão? — perguntou Hevan.

Ao puxá-la, Dart desencadeou uma sequência de engrenagens, abrindo uma entrada escura em meio a parede de pedras do monte.

- Consegue ver algo lá dentro, elfo? — questionou Dart. Hevan se esticou para olhar pela abertura.

- Parece um túnel, estreito e irregular. Há uma escada, que desce, ao que parece, para baixo do nível do mar.

- Bom, não temos como acender uma tocha, já que nossos pertences estão todos molhados. Você terá que nos guiar!

- Vamos entrar por um buraco que sabe-se lá onde vai terminar?

- Tem uma ideia melhor, orelhudo? Guardas com cães estão nos perseguindo, o cais do outro lado da ilha é muito bem vigiado e o continente está longe demais para nadarmos até ele!

Irritado pelo tom debochado que Dart usou, e ainda mais por não ter outra solução, Hevan entrou pela passagem sem sequer dizer uma palavra. Dart, Sarah e Alana o seguiram logo após, descendo o lance de escadas, que parecia interminável naquela escuridão.