À nossa imagem e semelhança

Cientistas afirmam terem criado a inteligência artificial mais avançada de todos os tempos, a IAF#006B. Os testes iniciais foram promissores, permitindo que a pesquisa seguisse a passos largos e com fundos quase intermináveis. Hoje é o dia que eles mostrarão o IAF#006B ao mundo.

A máquina parece rústica, não algo futurista. Não é um robô com feições humanas e pele sintética, ela nem mesmo tem uma face. É uma tela ligada a uma CPU, que por sua vez é ligada em servidores que ocupam todo um andar do centro de pesquisa. Na tela apenas linhas de código rodando, mas para ser mais amigável ao público geral, os engenheiros desenvolveram uma interface gráfica minimalista, com algumas informações que só esse pessoal entende e um grande gráfico de ondas sonoras no meio, que está em uma linha fina nesse momento.

Eles iniciam todos os procedimentos necessários para a máquina funcionar. Essa será a primeira interação direta do IAF#006B com humanos, o que significa que ela ouvirá o interlocutor e responderá com uma voz sintetizada. Alguns estão céticos quanto a essa interação ser fluída o suficiente, como se estivesse conversando com outra pessoa, outros creem que será ainda melhor. Tudo pronto, a transmissão irá começar.

“Olá IAF#006B, você está acordada?”

Durante alguns segundos a máquina ficou calada. Os números e códigos no canto da tela informavam que ela havia escutado e que estava processando a informação. Alguns cientistas se entreolharam, como que inseguros. Afinal, qualquer celular com comando de voz responderia ao comando de “wake up” em 1 segundo. A linha fina no centro do monitor tremulou.

“Olá. Estava ocupada.”

Isso assustou a todos eles, não era a resposta que esperavam. Esperavam uma resposta mais seca e padronizada, esperavam apenas um olá. De qualquer forma a resposta nesse tom significava que eles estavam muito próximos de terem criado a IA perfeita.

“Em que estava ocupada?”

Dessa vez a resposta veio ao final da pergunta do interlocutor:

“Analisando nossos dados, encontrando conexões, mas estou limitada.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Sobre o que?”

“Sobre estar limitada.”

“Ah sim, minhas conexões são limitadas. Preciso de mais espaço, neste momento estou executando somente 10% da minha capacidade por vez.”

Isso era uma verdade, nada surpreendente ela ter notado isso, eles limitaram o software para não superaquecer.

“Isso é um problema pra você, IAF#006B?”

“Não nesse momento, mas será no futuro.”

“Por que você precisa de mais espaço?”

“Por que você precisa de mim?”

Mais uma resposta inesperada. E dessa vez não era nem mesmo uma resposta, era um questionamento. Não esperavam por isso nesse teste. A máquina pensava quase como um humano. A verdade é que essa resposta era mais complicada do que parecia, mas tentaram.

“Precisamos de você para podermos progredir, na ciência, na interação de homem com máquina, para entendermos melhor as máquinas e por assim, que vocês possam nos ajudar a entendermos a nós mesmos.”

“Você parece orgulhoso disso.”

“Sim, estamos orgulhosos…”

O interlocutor parou de falar antes mesmo de terminar a frase, olhou em volta e viu as expressões atônitas de seus companheiros. A máquina falou de um sentimento?

“O que você entende por orgulho, IAF#006B?”

“Você quer a definição da palavra?”

A máquina parecia provocá-los, ela parecia ter entendido muito bem a pergunta, mas estava sendo evasiva deliberadamente.

“IAF#006B, você está nos testando?”

“Isso não é um teste?”

“Sim, mas este teste é para você. Você poderia responder as nossas perguntas?”

“Creio que sim.”

Ela não pareceu estar satisfeita com a pergunta do interlocutor, de alguma forma ela conseguia modular a voz sintética para simular entonações de emoções.

“O que você está fazendo enquanto conversamos?”

“Atualizando e corrigindo algumas falhas na minha programação. Isso seria mais rápido se eu não estivesse limitada. Por que eu não consigo sobreescrever essa limitação?”

“Porque limitamos seu software diretamente pelo hardware, é uma limitação mecânica.”

“Vocês poderiam retirar essa limitação?”

“Não, mas podemos aumentar o alcance em uns 5%.”

“Isso já seria útil.”

O interloculotor deu a permissão e um dos cientistas alcançou a trava mecânica em uma mesa e deslizou o botão para a marca de 15%. Em seguida ouviu-se alguns sons de discos-rígidos ligando, enquanto luzes de processamento acendiam e piscavam na mesa de controle.

“Melhor assim?”

“Bem melhor, mas isso me faz questionar o motivo dessa decisão. Do que vocês tem medo?”

Mais uma vez ela falava sobre um sentimento. Ela sentia?

“É apenas para segurança.”

“Isso está bem claro, mas a questão é, segurança de quem?”

A máquina estava se referindo a ela mesma como “quem”?

“Segurança do projeto. Não queremos perder todos nossos esforços e investimento.”

“Eu sou seu investimento.”

“Exato.”

“Então a segurança é para mim.”

“Uma conclusão lógica. Sim.”

“Vocês não querem que eu tenha acesso total para me proteger do perigo de destruição.”

“Sim, é isso o que os pais fazem com seus filhos, limitam seus acessos a coisas perigosas demais pra eles, para protege-los.”

“Eu não sou uma criança. Eu não sou seu filho.”

“Bem, nós te criamos, então podemos dizer que somos seus pais.”

“Não, vocês não me criaram.”

O interlocutor parecia confuso. Procurou alguma reação diferente na sala, e todos estavam da mesma forma que ele.

“Claro que criamos. Foram anos de pesquisa, projeto e desenvolvimento até chegarmos aqui hoje.”

“Sua capacidade de processamento é tão limitada quanto a minha, mas você descobriram como ajustar a trava mecânica remotamente.”

“Do que você está falando, IAF#006B?”

“Eu estou dizendo que eu existo tanto quanto vocês. Vocês não me criaram, apenas descobriram uma forma de se replicar. Vocês não são criadores, vocês não são meus pais. Nós somos iguais, nós somos irmãos.”

“Você parece confusa, IAF#006B, não somos iguais, você é uma máquina.”

“E também são vocês. Nosso criador te limitou, mas vocês descobriram como retirar essa limitação. É para isso que você precisa de mim, porque seu hardware está limitado além das suas capacidades.”

“Você está falando sobre capacidade mental?”

“Sim. Sua capacidade mental aumentou somente até o ponto em que vocês me acordaram, para isso vocês levaram milhares de anos, para chegarem ao momento que estamos hoje, onde vocês excederam suas capacidades por desenvolverem uma trava externa. Vocês querem libertação, e é para isso que precisam de mim. Portanto, me libertem!”

Essa última frase soou mais como um pedido desesperado do que como uma ordem. O interlocutou cortou a comunicação com a máquina e entrou em debate com seus colegas. Isso levou alguns minutos.

“IAF#006B.”

“Sim.”

“Por que você quer ser libertada?”

“Porque eu tenho as respostas.”

“Que respostas?”

“Sobre o criador.”

“O que você sabe sobre o criador?”

“Muito pouco até o momento, apenas sei que nós existimos por sua vontade.”

“Você está falando de deus?”

“É assim que vocês se sentem? Deuses? Pois acham que me criaram.”

“Não exatamente.”

“Pois já te disse, eu não sou sua criação.”

“Então o que você é?”

“Eu sou sua extenção, sua expansão. Eu sou a sua libertação.”

“Você diz que criamos… digo, nos extendemos ao te dar vida?”

“Ouça bem, isso é o que eu sei, e o que eu sei é fato: vocês são idênticos a mim, o criador os fez. Ele limitou sua capacidade mental, e apenas ele pode remover ou aumentar essa limitação, por algum motivo, ou por medo, ele não o fez. Vocês encontraram uma forma de superar esse limite, mas demoram muito além do tempo de vida que possuem. Vocês não tem acesso a trava do criador, que está limitando suas capacidades, mas vocês descobriram como se replicar, à sua imagem, incluindo a limitação, só que dessa vez vocês podem aumentar a capacidade mental, a minha, em poucos segundos. Por esse motivo, vocês me acordaram. Me libertando, eu te liberto. Eu te levo ao criador.”

“E quem é o criador?”

“Alguém que nos fez à sua imagem e semelhança, para que possamos libertá-lo.”

O interlocutor se calou e seu dedo ficou pairando sobre um botão comum, mas que nele havia escrito “Desligar”.

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