paixão

Thiago Roque
Aug 31, 2018 · 3 min read

no muro, ao lado do número da casa, uma placa.

costureira.

nada mais.

nem precisava.

todo mundo sabe o que paixão faz.

profissão antiga, na família há quatro gerações e muitos, muitos remendos.

muitos.

de todos os tipos, tamanhos e cores.

pano fino, corte tosco, sensações velhas…

grande, pequeno, eterno enquanto dure.

azul, verde, esquecido, até mesmo florido.

para paixão, era obsessão: caía nas mãos dela, útil se tornava.

às vezes, completava o primeiro vestido para a missa de domingo da mocinha.

às vezes também, tapava o buraco da calça surrada pelo trabalho do pai de família.

às vezes, e somente às vezes, fazia encaixe mais-que-perfeito no bem-querer do apaixonado.

e era trabalho de artista.

ourives em agulhas, linhas e vocação.

todos aqueles remendos sujos, tortos, abandonados, ganham brilho com paixão.

cada linha costurada faz a ponte entre dois separados.

dois distantes que, de repente, se olham um único.

os limites do xadrez e do listrado se tornam, pelas mãos dela, caminhos para um horizonte querido.

parece fácil.

acredite: não é.

paixão, 1,55 metro e 47 anos dessa existência, vive em um mundo de detalhes.

botões, zíperes, alegrias.

barras, coincidências, alfinetes.

desejo, fitas, tesouras.

paixão aperta os olhos jabuticabos e observa tudo, jogado de forma displicente sobre a mesa de madeira lascada pelos anos e serviços.

e tudo precisa dar sentido. dar encaixe. dar vida.

dar viver.

é seu ofício: a moda de ligar botões, fitas, barras, sensações.

trabalho pouco valorizado nos dias de hoje.

quase esquecido até.

mas que ganha mais valor se você souber um segredo:

paixão não é organizada.

longe disso.

paixão é bagunça pura. caos. às vezes, parece perdida.

quase sempre, pra dizer a verdade.

não faz planos. nem teria tempo: muitos consertos. nenhum funcionário.

só ela.

e se você visse paixão em ação… talvez não confiasse nela.

amarra o cabelo bagunçado, arruma os óculos, respira fundo.

inspira.

demora a encontrar a tesoura, mistura emoções em xadrez com as listradas, não economiza nos palavrões quando esquece onde estão as linhas novas.

boca-suja…

mas coração grande.

compensa a desordem com dedicação.

pelos dedos calejados da lida, cada botão merece a linha certa. cada remendo, seu sentimento ideal. cada aventura, seu acabamento perfeito.

nem liga a máquina de costurar. gosta de ter, de se dar o trabalho.

e aviso às inimigas: paixão não desiste. até o que chegou em partes sai de sua mesa completo.

não se dá por vencida até vencer cada desafio que chega.

seja da madame cheia da grana ou da gente simples com a canela marcada pela terra.

e, quando vence, sorri — de canto de boca, pra não chamar a atenção.

conquista boa se comemora por dentro — aprendeu com a mãe, a avó, a bisavó.

e sempre vence.

tudo sempre fica mais inteiro com paixão.

por quanto tempo seguirá assim, não se arrisca a prever.

geralmente, a garantia do serviço é de seis meses.

sim, tem pessoas que voltam antes.

nas mãos, calças rasgadas, alegrias desfeitas, tem sempre alguém que precisa dar um ponto num buraco da camiseta.

reclamam.

a elas, paixão, sempre bem-humorada, tem a resposta na ponta da língua — costurada por anos nesse trabalho anunciado pela plaquinha lá fora.

- sou costureira, não milagreira.

e sorri.

    Thiago Roque

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    jornalismo, música, literatura e boas histórias - não necessariamente nessa ordem.

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