Gol a gol

Era um persistente bloqueio mental. Eu não conseguia mais me recordar da data exata em que tudo havia acontecido. E, inconscientemente, não admitia memorizá-la, mesmo se alguém a dissesse. O incidente — em cada detalhe minúsculo — parecia sempre ter ocorrido no dia anterior. Dessa forma, eu carregava um pesar que, todos os dias, imiscuía-se no interior de cada minuto da minha vida. Mas será que devo dizer “pesar”? Busco até hoje uma palavra que possa hermeticamente conter em seu significado a expressão paradoxal de uma saudade imensurável e dolorosa, mas misteriosamente tranquilizadora, anestésica, sedativa.

Quando não restam mais opções, você tem que aprender a conviver com a angústia da maneira que puder. Se serve de consolo, algumas músicas ficam bem mais bonitas, mais tocantes, com um pouquinho de angústia. E alguns tipos de lembranças reavivadas por este tipo de agonia secreta possuem, em coexistência, duas maneiras de serem vistas e sentidas: a primeira é colossalmente desoladora e te aprisiona numa tristeza devastadora; a segunda te preenche de uma satisfação sublime e de um incandescente regozijo que te eleva muito próximo até a face da redenção. O que eu posso afirmar é que, depois de muito treino e força de vontade, aprendi a lidar com a lembrança mais importante da minha vida predominantemente através da segunda maneira. Obviamente, a primeira maneira, torturante e terrível, ainda está lá, pulsando debaixo da superfície, clamando pela minha atenção e pela minha sanidade. Mas a mantenho domada, mesmo que seus pungentes ecos tentem me tirar do sério vez ou outra.

- Não vale, você está olhando pro meu controle!

- É só cobrir o joystick com a camisa, como eu faço. Aí você não pode me acusar de trapaça.

- Eu vou cobrar o pênalti então, hein! Lá vai Koren, partiu pro chute, bateu… É GOL, É GOL, É GOL! Não acredito!

- Shhhhh….Fala baixo, ou a enfermeira vai brigar com a gente.

- E daí?! Eu conquistei a Copa do Mundo jogando com a Eslovênia!! Com a Eslovênia!!

Ele havia me chamado mais uma vez. Acordei bem disposto. Eram cinco da manhã: lilás e dourada, a tímida luz nascente condensava-se às nuvens esfarrapadas.

- Não posso esquecer da bola, não posso esquecer…

Sequer tomei café. Tratei de pôr um short batido, uma velha camisa do Botafogo e rumei para o campinho o mais depressa possível. Encontrei-o na metade do caminho, dobrando o quarteirão. Estava mais corado, sadiamente mais cheinho e o cabelo, depois de voltar a crescer, esparramava-se cacheado e negro até o lóbulo das orelhas. Vestia a camisa da seleção eslovena que ganhara de presente em um distante Dia das Crianças. Lembro de como ele fazia questão de trajá-la orgulhosamente em todas as peladas que disputávamos com nossos amigos no acanhado campinho perto da escola. Eu havia me acostumado a vê-la suja e manchada de lama na maioria das vezes, graças às peripécias e sacrifícios que ele cometia para defender nosso gol das investidas adversárias. Naquele dia, entretanto, o uniforme cintilava de tão límpido.

Até hoje não sei o motivo exato pelo qual meu irmão cismou com o time da Eslovênia. Desconfio que ele tenha se afeiçoado pelo desenho da camisa na Copa de 2010 (um traçado verde-escuro sobre o manto branco representando o Monte Triglav, símbolo nacional) ou enxergou algo muito peculiarmente divertido em tornar-se torcedor inveterado de uma modesta e simpática equipe de um país minúsculo. Assistiu a todos os jogos dos eslovenos no Mundial da África do Sul: berrou e vibrou como um louco na vitória sobre a Argélia e no empate com os Estados Unidos. Mesmo a derrota para a Inglaterra e a consequente eliminação na primeira fase não murcharam seu ânimo. Koren, Handanovic, Birsa, Dedic e Novakovic tornaram-se seus heróis. Declamava esses nomes eslavos com uma naturalidade fascinante. Foi em outubro do mesmo ano que minha mãe finalmente o presenteou com o tão sonhado uniforme, conforme havia prometido. Ele desembalou o presente avidamente, o vestiu e saiu correndo e pulando pela casa, incansável e hiperativo. Meus pais e eu estávamos muito longe de desconfiar de qualquer coisa.

- Qual bola você trouxe? A Jabulani?

- Claro. Está ficando desgastada, mas dá pra jogar perfeitamente.

- Ainda bem. Vamos fazer assim: você vai ser a Espanha; eu, a Eslovênia.

- Ah, você jura?

- No gol, eu serei o Handanovic. No ataque, o Novakovic.

- Beleza. Dessa vez, quero revanche. Perdi no videogame, mas aqui no gol-a-gol não admito derrota.

- Boa sorte, maninho. Não pense que estou fora de forma. Vamos lá! Três gols acaba!

Àquela altura, a manhã estendia-se gloriosamente luminosa de ponta a ponta no horizonte. Acolhedor, o gramado úmido e frio curvava-se debaixo dos meus pés descalços. Caminhei para debaixo das traves. Do outro lado do campo, meu irmão ergueu o polegar em riste para confirmar que estava preparado. Arqueou as pernas, esticou os braços e esperou o chute inicial. Saí rolando a bola, meio desengonçado depois de anos sem prática; ao chegar no limite da linha do meio-de-campo, disparei uma bicuda rasteira mirando no canto esquerdo do gol esloveno.

- Samir Handanovic faz belíssima defesa no chute de Villa! — ele gritou, narrando as principais ações do jogo como de costume. Tinha onze anos e não media mais que um metro e quarenta de altura, mas voava espetacularmente em direção às bolas chutadas. Seus reflexos apuradíssimos e a excelente agilidade compensavam a pequena estatura.

- Agora Novakovic tem a bola. Dribla Piqué e Puyol, impõe velocidade, decide chutar de longe e…. OLHA O GOL! OLHA O GOL!

Mal havia terminado de concluir a defesa e ergueu-se para iniciar sua primeira finalização. Simulava, comicamente, as fintas e os dribles que entortavam uma zaga espanhola invisível. Eu ainda recuava para minhas traves, numa retirada que já cobrava parte do meu fôlego, quando ele chutou colocado no ângulo direito e saiu comemorando e dando cambalhotas. 1 a 0. Gol relâmpago. E que golaço. Assemelhava-se ao gol que inaugurou o placar do videogame na grande final da Copa do Mundo do Hospital Estadual. Só que naquela ocasião, Koren é quem havia marcado pros eslovenos, sob o comando dos dedos enfraquecidos, mas precisos, do meu irmão. Entretanto, aos 45 do segundo tempo, numa cobrança de escanteio, forcei David Villa a executar um improvável voleio para estufar as redes de Handanovic. A decisão foi direto para os pênaltis, conforme havíamos decidido previamente. Foram necessárias quatro cobranças perfeitas e uma defesa do goleiro para a Eslovênia consagrar-se campeã do mundo. Confesso que fiquei meio desapontado e incrédulo nos primeiros segundos. Era a primeira vez que meu irmão, três anos mais novo que eu, me vencia numa partida no Bomba Patch. E veja bem: eu joguei sério, sem facilitar de maneira nenhuma ou tirar o pé do acelerador. Não tardou muito, entretanto, para a euforia contagiante dele me convidar a comemorar como um louco também, apesar do revés. Fiquei rodopiando e balançando os punhos ao redor do seu leito. Chegamos até mesmo a improvisar com palavras quadradas, todas terminadas com o sufixo “itch”, um pseudo-hino nacional esloveno no momento em que os pixelados jogadores virtuais erguiam a taça do torneio, emoldurados gloriosamente na tela curva e retangular daquelas tevês sem graça típicas de um quarto de hospital. Depois que a cerimônia de entrega da taça terminou e o menu inicial do Bomba Patch tomou o espaço da tela, o sorriso do meu irmão começou a desvanecer, sumindo dentro de sua face sonolenta e cansada.

- Agora Koren vem tabelando com Dedic, que passa para Novakovic. Nokavovic tenta um chute de trivela e… NA TRAVE!

Depois dessa jogada, saí conduzindo a bola pela lateral do gramado até atingir, em movimento diagonal, o meio-de-campo. Com um tirambaço seco e supersônico, marquei meu único gol na partida. A bola explodiu na parte inferior do travessão, quicou duas vezes no chão e, finalmente, foi tateando até repousar no fundo das redes carcomidas do gol do campinho. Meu irmão se esforçou para espalmar a bola em um pulo fantástico, mas acabou superado pela potência demolidora do tento.

Bom, daí bastaram mais quinze minutos de jogo até ele marcar o segundo e o terceiro gol, que certificava a seleção vencedora com a taça da Copa do Mundo do Campinho da Escola . Eu finalizei bem mais e com maior perigo, mas estava em desvantagem por causa da minha limitada condição física sedentária. Além disso, meu irmão enfrentava-me em um de seus dias mais inspirados. A conclusão triunfante da Eslovênia veio com um golaço de trivela de Novakovic, que finalizou no canto esquerdo de Iker Casillas após entortar Piqué com pedaladas escandalosas. Ao constatar que depois de tanto tempo voltava a me derrotar numa final de Copa, ele lançou-se, emocionado, numa corrida triunfante até o banco de reservas esloveno. Imediatamente, tratei de correr em encontro a ele, vibrando com os braços esticados para o alto. Deixei de interpretar a seleção espanhola para encarnar o efusivo técnico esloveno e mais seis ou sete membros da comissão técnica bicampeã mundial. Deslizamos de peito sobre o gramado e rodopiamos nossas camisas suadas e vitoriosas diante da nossa torcida miúda, mas apaixonada. Finalmente, recebemos das mãos de um sorridente chefe de Estado qualquer o reluzente troféu. Cantamos, a plenos pulmões e com lágrimas nos olhos, o nosso pseudo-hino nacional de palavras eslavas inventadas. Depois disso, nos deitamos no gramado e ficamos encarando as serenas e esparsas nuvens que corriam como vagarosas cascatas de algodão sobre o céu matutino. Eu estava exausto e ofegante. Meu irmão, por sua vez, mesmo deitado era um poço de agitação e entusiasmo inato. Ríamos como dois idiotas. Em certo momento, interroguei-o, com um murmúrio cansado.

- Posso te perguntar uma coisa, mano?

- Uhum.

- O que acontece quando a gente chega lá?

- Tem uma fila grandona, mas ninguém fica aborrecido ou impaciente. E no início é estranho se adaptar, porque parece que você não tem mais peso algum, mas depois a gente descobre que é muito maneiro.

- E parece com o quê?

- Parece uma festa de Ano Novo que nunca termina. Melhor: parece uma festa de Natal e uma festa de Ano Novo misturadas em um único dia infinito. É bem legal.

- Ah, sim.

- Mas e mamãe e papai, como estão?

- Ela se aposentou recentemente. Papai está juntando um dinheiro para viajarmos para o exterior pela primeira vez. Faz uns cinco anos que ele vem acumulando essa grana.

- E pra onde vocês pensam em ir?

- Adivinhe.

- É o lugar que estou pensando?

- Exato.

- Ah, não pode ser! Não pode ser! — e gargalhou, balançando a cabeça.

- Mais alguns trocadinhos e ano que vem podemos comprar as passagens e reservar o hotel.

- Por falar nisso, assim que eu cheguei lá, apareceu um velhinho alto, com uma barba branquinha, e reparou na minha camisa. Ele chamou a esposa para ver também. Era uma senhorinha baixinha e com uns olhos claros bem estreitos. Disseram que haviam morado em Liubliana. Falavam em esloveno, mas eu tava entendendo tudo perfeitamente. E olha só: a gente pensava que eles falavam tudo com “itch” no final, mas é bem raro de ouvir isso.

- Hahahaha! Ai, ai… o hino nacional que a gente criou ecoa na minha cabeça todos os dias desde que você ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez.

- E não te chateia?

- Não. Me acostumei. Preciso sempre lembrar desse dia, mano. Foi o melhor dia da minha vida. Ou pelo menos foi o melhor momento da minha vida ao seu lado. E pensar que na madrugada seguinte tudo desmoronou da forma mais bruta possível. Tudo.

- Não te incomoda que seu melhor amigo seja um garoto morto?

- Tenho que suportar isso ou não tenho mais nada. Sinceramente, não sei mais o que fazer. Não tenho outra opção.

Fitei o céu em silêncio por algum tempo. Ainda lentos e suaves, os farrapos nublados cruzavam levíssimos o horizonte. Pensar que a natureza, o mundo e as outras pessoas movem-se alheios à nossa infelicidade e à nossa angústia me trouxe uma tremenda duma melancolia. Observei meu irmão. Tinha a nuca repousada sobre os braços e balançava suavemente o pé direito escorado sobre o joelho esquerdo. A camisa estava incólume, mesmo depois de toda a intensidade do jogo; o brilho matutino a nutria de uma aura pulsante que a destacava da reclusa imensidão do gramado. De maneira nenhuma meu irmão pareceu abalado ou pensativo depois de escutar aquelas respostas agoniadas e pessimistas. A verdade é que ele não tinha mais tempo ou capacidade de compreensão para isso. Um Natal-Ano Novo eterno e o bicampeonato esloveno ocupavam a sólida brandura dos seus pensamentos. Era um garoto de onze anos em férias eternas. Ao seu coração bastavam um senso de aprendizagem sem limites e o exercício de uma sabedoria natural e incomensurável.

- Bom, vou indo, maninho. Você tem que treinar mais esse futebol, tá bem enferrujado — despediu-se, com ar zombeteiro.

- É, estou fora de forma mesmo. Até a próxima então. Amo você.

Nos abraçamos durante um longo tempo. Desejou uma futura boa viagem para mim e para nossos pais. Singrou sorridente o gramado, voltando os olhos para mim e acenando sem parar. Me mantive de pé no centro do meio-de-campo, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Uma brisa muito dócil e aprazível fez tremular as mangas de sua amada camisa. Dobrou a esquina da escola e desapareceu.

Depois desse encontro com meu irmão, a lembrança mais importante da minha vida simplesmente tornou-se menos frequente. Sequer percebia quando, em oportunidades raríssimas, surgia em meus pensamentos. A lembrança de sua partida naquela madrugada, depois da conquista da Copa do Mundo do Hospital Estadual, nunca mais teve força o suficiente para aprisionar-me num ciclo cotidiano de angústia controlada e privação. Aprendi a amar meu irmão sem ter a obrigação de pressenti-lo tragicamente em minha consciência. Antes de encontrá-lo no campinho para a disputa de gol-a-gol, lembrar das alegres últimas horas do caçula da famíla era um vício terrível que envolvia dor e felicidade conectadas. A memória parecia um anestésico extremamente relaxante e agradável, mas indissociável de um sofrimento lancinante e horroroso. Manter este martírio eclipsado era um esforço lamentável. Libertei-me, para minha sorte. Aliás, redescobri a data exata da partida do meu irmão. Foi na madrugada do dia 23 de julho de 2011.

Muito tempo se passou até que ele viesse falar comigo mais uma vez; três meses depois que minha filha nasceu. Falou pouca coisa: apenas me parabenizou pelo nascimento da Verônica e contou que estava assistindo, acompanhado pelo meu avô, aos amistosos do Brasil de 1950 contra os uruguaios.

No aniversário de oito anos da Verônica, fiz questão de levá-la para seu primeiro jogo no Maracanã. Dei a ela minha velha camisa do Botafogo (ficou bem grande, é verdade) e ao ver sua expressão emocionada ao adentrar nas rampas do estádio, soube imediatamente que ela havia herdado do meu irmão aquela paixão enorme e um fascínio extraordinário pelo futebol e pelo ato de torcer. O Botafogo goleou o Flamengo por 4 a 1. Na saída do estádio, eufórica e ainda muito ingênua, me perguntou se havia alguma equipe no mundo melhor do que aquela do Botafogo.

- Ah, é porque você nunca viu a Eslovênia bicampeã mundial jogando…