O homem-ilha

Resíduos de tijolos estilhaçados tamborilam sobre meu capacete. A alma de Varsóvia, incendiada e triturada, fragmenta-se em pedaços miseráveis e cada vez menores, como se a destruição desmedida perseguisse o limite da indivisibilidade. Tudo me leva a crer que assisto aos últimos dias de Varsóvia. Os nazistas exterminarão minha cidade natal da face da Terra.

Meu nome é Eugene Zubowsky.

Rastejo. Rastejo como um verme sob ruínas de lápides porosas. Rastejo até alcançar a fronteira dos pesadelos. Me detenho diante de um paredão rochoso e escuro. Meu organismo inteiro pressente que este é o marco zero da razão e as vísceras se debatem, mecanicamente, em convulsões que parecem virá-las do avesso. Contudo, é curioso que eu tenha me tornado incapaz de temer qualquer coisa. Ao que parece, ultrapassei a última zona de todo o terror possível.

Encosto na muralha. É gelada e úmida; agrada-me. No fundo, estou contente por ter direito a estas últimas horas. Apenas relaxo e estalo minhas articulações enquanto ouço as portas de ferro da barbearia do senhor Zarbó rangerem num assobio tosco e interrogativo.

- Ora, ora, Andrzej, barba e cabelo? — pergunta o velho Zarbó, elevando as sobrancelhas grossas em direção à testa.

- Sim, sim. E o jornal de hoje, por favor…

Quando o velho Zarbó estica os dedos rugosos para pegar o jornal, não consegue efetuar tal operação de maneira alguma.

Igniezka e a pequena Julita passeiam às margens do Vistula. Julita tem as faces coradas de tanto frio, mas não se incomoda.

- Minha amada Julita, minha amada Julita…

- Mamãe, Waclaw deve estar jogando bola do outro lado!

Vejo os alvos e singelos pés de Julita estremecerem as águas do Vistula. Ignieska a segura pela mão. As gotículas d’água pavoneiam-se e dão passagem a vestidos flutuantes.

Bondes singram Varsóvia e sombreiam paralelepípedos. O gorro perdido de um garotinho esmorece sobre os trilhos mornos. Os sapatos dos transeuntes são marrons, negros e absolutamente neutros, mas estão dispostos a inclinar-se ao pecado ou a pureza casta e santa enquanto balançam frágeis sob frouxas escolhas secretas. Varsóvia é o belíssimo caos pacato e controlado que admiro e amo eternamente. Descortina-se uma última vez diante de meus olhos. Por uma fresta na espessa camada de pesadelo, treva, medo e neblina no meio da qual rastejei moribundo, um fragmento incendiado da minha cidade penetra invasor, acompanhado por um magro feixe de luz que projeta na vastidão torturante dos terrores as esquinas, prédios e cidadãos que conheci por longos anos.

É irônico que termine assim. Estou satisfeito e em paz comigo mesmo, apesar de tudo. Tudo se desenrola como…uma miragem. Uma miragem. Como sempre.

Quando eu tinha cinco anos, meus pais levaram-me para Gdansk para que eu pudesse ver o mar pela primeira vez. Perplexo, debrucei-me sobre a murada do cais e fitei o Báltico manso e imponente. Minha mãe disse-me que, do outro lado, estavam os suecos, os finlandeses, os estonianos, os lituanos, os letões, os russos…

Estreitei meus olhos, forcei minha visão até a cabeça doer e não os enxerguei no fim das contas. Mas ela continuava repetindo e afirmando, com toda a convicção do mundo, que havia muitos povos além das ondas mansas que vinham beliscar a murada do cais de Gdansk. Posteriormente, as aulas de História e Geografia me fizeram crer nas afirmações da minha mãe.

Visitei Gdansk em mais uma oportunidade antes da guerra. Passeava pela zona portuária e detive-me, motivado por um saudosismo infantil, na murada em que havia visto o mar pela primeira vez. Repeti o mesmo gesto primário: forcei os olhos na expectativa de enxergar algum estrangeiro do outro lado do Báltico. Tomei talvez meia hora de meu tempo neste passatempo. Quando eu já começava a sentir dores de cabeça e os cotovelos dormentes, alcancei meu objetivo. Vi-os todos, com suas bandeiras, seus idiomas peculiares, seus hábitos. Meus pais passeavam abraçados no meio de todos eles.

O deslumbramento durou pouco e caiu miseravelmente diante da incredulidade. Tentei dizer para mim mesmo que toda aquela baboseira não passava de uma delirante miragem. Ora, fazia sentido: nevava e o frio era intenso. Eu não comia nada desde manhã.

Fui andando, lento e descompromissado, de volta para a hospedaria. Da borda dos meus pensamentos e da borda do meu corpo, eu me oferecia de peito aberto à noite gelada e solitária de Gdansk. Não foi exatamente uma epifania. Não quero de maneira alguma banalizar essa palavra. Foi antes uma veloz reflexão irresponsável e um ranger de ossos emperrados. A neve cadenciava-se, em quedas diagonais, dos céus que cobriam o norte da Polônia. Era a mensageira sinistra de algo. Forcei meus sentidos a se aguçarem: veio o cheiro ferruginoso das estruturas metálicas do porto, estatelaram-se ao meu redor os burburinhos e os berros das casas operárias e as espumas lançadas pelo Báltico de encontro ao paredão do cais preencheram o ar de salinidade.

Da borda dos meus pensamentos e da borda do meu corpo, inutilmente debruçado, era impossível alcançar tudo ao redor. Havia a…miragem entre eu e o resto das coisas. Ecos, formas sugeridas, cheiros banais: era isto que o mundo, sempre distante e constantemente se afastando, me oferecia de muito longe. Quando retornei para Varsóvia, pensei que esta estranha sensação se extinguiria. Ledo engano. Uma vez percebida a miragem, não pude nunca mais mentir para mim mesmo.Desde que avistei os estrangeiros do cais e percebi que os elementos gélidos da noite enevoada de Gdansk pereciam apartados de mim, admito sem relutâncias que estou fadado a receber apenas emanações de um mundo distante, de pessoas distantes.

Por mais incrível que possa parecer, meu amor por Varsóvia e pelas pessoas não arrefeceu. Ainda as contemplava e assistia à felicidade e ao sofrimento de todas, conectadas em grandes arquipélagos. Andrzej, o velho Zarbó, Igniezka e Julita e muitos outros foram histórias incríveis na exibição de fatos e eventos que eu era apto a captar dentro dos meus limites claustrofóbicos.

Meu único remorso nisto tudo foi que jamais o ardor do meu coração encontrou forças ou jeito para extravasar-se no meio das pessoas de maneira natural e fluida. Distraio-me constantemente com o mistério não-experimentado de divertir-se e sentir-se amparado por fortes, alegres e extrovertidas amizades. Eu costumava caminhar pelo centro da cidade, sempre sozinho, observando a felicidade esplêndida dos grandes amigos, bêbados e sorridentes, que brindavam suas cervejas e preenchiam a noite com óperas cristalinas e vítreas. E também dos amantes entrelaçados, sobretudos e vestidos e chapéus de mulher reunidos dentro da mesma singularidade.

Vi Irena três meses antes da invasão dos nazistas. Irena que às sextas-feiras, após o trabalho, sempre tomava um café na confeitaria do Sr. Zmiezchiesky. Inclinava-se na cadeira de vime e massageava os cabelos ruivos para se aliviar do estresse do dia. Disse-me quatro ou cinco frases naquele agradável final de tarde, enquanto o claríssimo céu azul, enrubescido pelo poente, levitava sobre os edifícios da avenida principal. Sorria docemente, e ao mover os lábios enaltecia suas sardas cor-de-ferrugem. Cada ínfimo detalhe de sua beleza era envolvente, hospitaleiro e distante léguas e léguas, como sempre. Prenunciava, contudo, um remorso a cada olhar terno que me dirigia. Para evitar que trocássemos olhares, virou o rosto para a rua e ficou a meditar, enquanto arqueava o canto dos lábios em mais um sorriso, desta vez ansioso. Levantou-se, despediu-se com um abraço que me surpreendeu pela duração e pelo vigor e deu-me às costas enquanto integrava seus passos ao calçamento de Varsóvia. Irena dobrou uma esquina e desapareceu entre os transeuntes. Nunca mais perdi-me em sua sardas enferrujadas e na doçura de seus gestos.

Irena foi ter para muito além do que eu sempre julguei inalcançável. Ela e todos, todos os habitantes enfileiraram-se desordenadamente para ultrapassar os limites da cidade uma última vez. Penso que algum dos garotinhos que corriam pelos subúrbios atrás dos outros colegas deve ter sido o último a deixar Varsóvia, e ao tê-lo feito, tropeçou na barra da película prateada e reluzente que um dia encobriu a todos nós na minha amada cidade. Este garotinho que agora idealizo, sem perceber carregou em seus pequeninos sapatos surrados todo o tempo e todos os sentimentos acumulados na cidade até aquele momento. Descortinou Varsóvia diante do horror, diante da morte humilhante. Mas Irena, ele e os outros partiram, sãos e salvos.

Meus grandes amigos sem os serem. Irena, meu grande amor sem nunca o ter sabido.

Tenho uma bala encrava no estômago. Morrerei em breve.

Pela segunda vez.

A primeira foi na noite de inverno do cais de Gdansk.