Praça Sete

- Às vezes penso que estou sendo castigado — disse o rapaz, cabisbaixo. Olhava para os cadarços do tênis. O nó que dera estava visivelmente frouxo, a despeito das intrincadas laçadas que o sobrepunham.

- Que besteira, é você que não aguenta ficar sozinho por um tempo sem culpar a metafísica — retorquiu a moça. Ela pusera a bolsa sobre o colo e a vasculhava à procura do celular. Mas seus dedos finos esbarravam num emaranhado de tralhas depositadas no fundo.

- Metafísica, metafísica… Talvez Deus talvez tenha um nome, sabia?

Estavam sentados sob uma amendoeira ressequida e de folhagem austera no parque do bairro. À frente deles, margeando o gramado onde os dois se recostavam ao tronco da velha árvore, os ladrilhos do calçamento resplandeciam ao sol do meio da tarde. Um laguinho raso e pardacento, mais adiante, mantinha-se placidamente imperturbável, aquecido pela luz solar que lhe batia em cheio.

- Todos nós passamos por períodos solitários, Carlos. Que mal há nisso? Veja pelo lado positivo: é um momento para respirar, se reorganizar, corrigir uma ou outra coisa.

- Eu entendo, Pâmela, mas já tive o suficiente. Tive tempo para me reinventar mil vezes, e mesmo assim a vida permanece estagnada.

Ela encontrara o celular; conferiu as horas e voltou a guardá-lo. Sem ter o que responder, fixou o olhar no ipê próximo aos portões do parque. Admirava de longe seu contorno roseado e as delicadas flores ondularem como acenos de adeus.

Carlos não quis continuar o assunto. Em silêncio ergueu os olhos para o rosto da moça. Viu-lhe a face macilenta, os grandes olhos castanho-claros, algo entre melancólicos e complacentes, retidos numa distante visão. Seguiu a trilha; agora ambos consentiam ao conglomerado de pétalas menear suas despedidas de branda relutância.

- Quanto tempo faz? Dois anos? — Pâmela indagou, sem encará-lo.

- Dois anos e seis meses. Ainda guardo a data.

- Eu estava no terceiro período da faculdade, disso eu me lembro…

No centro da cidade, sob a marquise de um prédio do início do século passado, Carlos, ansioso, apoiava-se à parede, com as palmas das mãos cruzadas sobre as costas. “Precisamos conversar”, ela havia lhe dito. A marquise o protegia de uma chuva fina e gelada. Era uma rua estreita, remanescente do período colonial. Uma sequência de fachadas de velhos sobrados recém-restaurados interrompia-se na esquina oeste, na calçada oposta a que ele aguardava, e surgiam os imensos retângulos espelhados de um moderno edifício de oito andares. Jovens com mochilas agrupavam-se na portaria. Alguns se cumprimentavam e saíam sob a chuva fraca; outros se demoravam ali, jogando conversa fora.

No interior, além do balcão da recepção, um elevador chegara ao térreo. Suas portas se abriram; o rosto dela, abatido e fatídico, apareceu.

- E desde então venho sendo arrastado — disse Carlos — minha fé não basta. Tanta fé que eu me esforcei para ter depois de tudo, e do que me serviu? Ainda sou obrigado a nadar contra a corrente.

Naquele dia, Pâmela voltou para casa de metrô. Tinha um nó na garganta. O vagão trepidava, e o ruído intermitente crescia de acordo com a velocidade da composição. O alívio se corrompia na mágoa. Teve diante de si a plataforma cinzenta e longuíssima, apinhada de passageiros desembarcados que colidiam uns nos outros ao optarem pela saída A ou pela saída B. Posicionadas nos extremos, pareciam bandejas de uma balança. Ela hesitou, não porque preferisse uma a outra, mas porque agora pouco importava. O alívio se corrompia na mágoa, naufragava nela, e ao tentar voltar à tona, descobria a superfície solidificada.

Uma incômoda ausência se punha de guarda na entrada do parque, sob o ipê. Percebê-la era contorná-la, estar seguro do segredo que guardava e retornar humilhado. A tarde avançava; grânulos de sombra desciam desde o tronco do ipê e sua mancha escura escorria sobre o paralelepípedo. E o tempo…seu manto estendia-se por cima das grades do parque. Precipitava-se sobre a ramagem das árvores, rastejava pelo gramado e rolava sobre os ombros de Carlos e Pâmela, para prosseguir em eterna expansão para a cidade. Não sem antes atravessar, com odiosa arrogância, a ausência sob o ipê. Lacerava a sombra, punha-se à par de tudo e rumava adiante, indiferente aos vencidos que tragara. A grave tessitura de seu manto levitava, drapejando acima do mormaço que fervia sobre o larguinho pardacento. Envolvia as memórias, e ao encará-las, seus portadores punham-se a par de uma nefasta e vergonhosa solidão. Passado, presente e futuro, embolados, arrastados sempre pelos portões do parque e dali para uma invencível onipresença; e debaixo dela nossas repetidas tentativas, nossas ações sempre medíocres, a ineficácia de nossas fugas. Carlos e Pâmela se aproximaram, temerosos. Alinharam os ombros e acobertaram seus remorsos. A nódoa dilacerada tremula sob o ipê, para sempre:

25 de maio de 2012. Sob a sombra, fomos ingenuamente felizes pela última vez na vida. Um beijo, um pedido de namoro, carícias extasiadas. O início do primeiro ato; ele ainda persiste para além do nosso alcance, eternamente preservado, inviolável, inútil pela sua inacessibilidade. Nós o assistimos, reféns momentâneos do desamparo.