Uma cena numa lanchonete

Isabela sussurrou mais algumas palavras e emudeceu. Rangia os dentes de tanto ódio. Ela e o namorado mantinham os queixos apoiados sobre a mesa e as mãos dispostas sobre a nuca. Ricardo a encarava debilmente contemplativo e não era mais que um repositório de apatia, palidez e desespero balbuciante. Sabia que a perderia. Pronunciava patéticas gentilezas para a companheira tentando convencê-la de que não era um canalha desprezível. Acabara de confessar que mantinha um affair com a prima e não poderia morrer escondendo esse segredo da namorada. Isabela, por sua vez, avolumava-se numa sublime manifestação de indignação implacável típica de uma guerreira nórdica ou algo do tipo. Encarava o rosto magrelo do namorado e lutava com todas as suas forças para não sentar um fodendo dum tapa na fina bochecha do rapaz. Ansiava demais pelo prazer de ouvir o estalo seco da palma de sua mão direita sobre aquela camada de pele de traidor. Mas tinha de se conter, tinha de se conter.

A poça de sangue escorreu pelas brechas do piso, acalorando a fria planície branca mantida em constante refrigeração pelo ar-condicionado do restaurante. O líquido espesso alcançou o dedo mindinho do pé de Ricardo, que recuou enojado. Seus chinelos encardidos eram agora circundados pelo sangue do pobre gerente, esparramado no piso e com as tripas abertas em um rombo do tamanho de uma laranja.

Um sujeito grisalho e barrigudo, de calças militares e regata, movia os lábios tentando dizer algo. Tinha os olhos arregalados, expressão estupefata, estava paralisado. A contragosto, superou sua letargia e pôs-se de pé no balcão. Afinal de contas, um recado precisava ser dado. Os cozinheiros e o pessoal dos caixas atiraram-se no chão, temendo pelo pior. Gaguejando, meio vacilante, o sujeito anunciou sua declaração:

- Não nos julguem por esta morte! Somos cidadãos de bem lutando para que a ditadura militar que impôs ordem e respeito neste país retorne imediatamente! Precisamos ser salvos do comunismo petista! Mantenham as cabeças abaixadas, em silêncio, ou não mediremos nossos atos!

- Te amo, Brasil! Te amo, Brasil! — gritava o rapaz de cerca de vinte e cinco anos — aparentemente, o filho do sujeito com calças militares. Tremia desde o primeiro fio de cabelo até as extremidades dos dedos do pé. Soluçava como um louco e parecia prestes a afogar-se nas próprias lágrimas, profusas e grossas. Repetia seu mantra ufanista incessantemente e, sob sua cabeça raspada, veias dilatavam-se. A face pregada por loucura e cólera era a mesma no pai e no filho e não deixava dúvidas quanto ao parentesco entre os dois.

- Que tipo de idiota faz reféns em um Bob’s? Que lugar sem graça para fazer reféns — murmurou Isabela, baixinho e para si mesma.

- Isabela, você promete que se nos livrarmos dessa, ainda assim me amará? Poxa, você não pode sentir o amor hoje à noite? Ele está onde estamos… — disse Ricardo, alheio ao comentário da garota.

- Não! E já mandei você parar de citar músicas do Elton John o tempo todo!

- Mas este é o nosso momento. Você não vê que é o destino? O ciclo da vida?

- Escuta aqui, seu filho da puta: depois que sairmos daqui, está tudo terminado. Infelizmente, não posso recuar agora e não pude recuar na véspera. Mas, seja qual for o desfecho, quero você longe da minha vida para sempre. Aliás, quer saber? Não me importo nem um pouco se aquele moleque em cima do balcão disparar uma bala na sua cabeça — ela sussurrou, relativamente alto, com um ódio cada vez mais incontrolável.

Sete alunos de uma turma de Primeiro Ano do Ensino Médio do melhor colégio particular da região ocupavam a mesa vizinha à de Ricardo e Isabela. Apenas um deles não se intimidava com a ameaça dos terroristas e mantinha-se de pé, aplaudindo a atitude dos guardiões da Nação. Ele começou a cantar o Hino Nacional, com as mãos no peito e a cabeça rígida. Os próprios criminosos pediram, grosseiramente, para ele se calar. Ressentido, voltou-se para os colegas e apoiou a face na mesa. “Meu pai saberá disso, ele saberá disso”, resmungava. “E se eu cantasse o Hino da Independência ?”

- Agora estamos acabados. Esses babacas ferraram com a gente. Por que escolheram esse Bob’s? Por que? — lamentava-se Isabela, prestes a ter a crise de nervos mais modesta que alguém já vira.

- A polícia já está lá fora. Os negociadores, as tropas especiais. Esses dois terroristas não vão resistir por muito tempo. O que faremos? Sei o que faremos. Vamos continuar juntos e em paz na prisão. Isso. A prisão será nosso lar, doce lar — Ricardo se pronunciou, agora combinando seu desespero balbuciante com alguma parca lucidez.

- Você eu não sei, mas eu vou meter o pé daqui de qualquer jeito. Tomara que o Zezinho não tenha desistido de nós e ainda esteja nos esperando no carro.

- A área está completamente cercada, Isabela. Você não está ouvindo os helicópteros? Deve haver franco-atiradores no prédio ali da frente — ao ouvir isso, a garota baixou as sobrancelhas em expressão de desapontamento e mordeu o lábio inferior.

O carro-forte deveria ter aparecido às 17h30min. Isabela, Ricardo e os terroristas sabiam muito bem disso. Planejaram previamente tudo da forma mais meticulosa possível. Sabiam que cinco vigilantes vinham buscar o dinheiro dos caixas naquele horário, geralmente às quintas-feiras. Um amigo de Isabela, responsável pelas batatas fritas, havia confirmado a movimentação e a rotina de retiradas dos malotes. Havia pedido demissão na semana passada alegando que precisava cuidar de um parente doente. Queria participação nos lucros.

- Não acredito que concordei em vir aqui para nada. Principalmente para estar nessa situação ao lado de um canalha que nem você!

Às 17h40min, o carro-forte ainda não tinha aparecido. Isabela e Ricardo se entreolhavam, desanimados. Desde às 17h21min, Ricardo fazia pedidos para Isabela perdoá-lo e aceitá-lo de volta em seus braços depois que a ação tivesse sido completamente efetuada. E começou cantarolando “Sorry seems to be the hardest word”. Às 17:41, atrasados, o sujeito de calças militares e o moleque chorão chegavam atabalhoados no restaurante.

- Por favor, não vá quebrar meu coração…

Há sempre probabilidades enormes de chocar-se contra a porta de um estabelecimento ao tentar empurrá-la quando, na verdade, deve-se puxar a maçaneta. Isso acontece com centenas, quiçá milhares de pessoas todos os dias. Eu não sou nenhum especialista em estatística e tal, mas tenho quase certeza que uma pessoa ansiosa, apressada e desatenta tem o dobro (ou o triplo?) de chances de errar as instruções de abertura de uma porta. Bem, quando você carrega uma escopeta nas mãos e tem em mente apenas balear cinco vigilantes para roubar o dinheiro que financiará o embrião de uma luta contra o perigo comunista no Brasil, aí sim as probabilidades disparam, meu amigo.

O moleque empurrou a porta com toda a determinação reacionária que os conspiradores de 64 poderiam concentrar numa vil genki dama. Tinha a escopeta engatilhada, em posição de tiro. Mas a porta, feita em vidro temperado e moldurado em armação de ferro, deveria ter a maçaneta puxada para permitir a passagem. O vidro se estilhaçou, sem oferecer a menor resistência ao ímpeto justiceiro nacionalista do robusto militante. A ponta do seu pé direito, calçado por uma belíssima Dr. Marten, tropeçou na barra inferior da estrutura da porta estilhaçada. Difícil dizer o que chegou ao chão primeiro: a escopeta engatilhada ou a barriga do atrapalhado soldado defensor do bem nacional.

O gerente do restaurante estava de saída. Com sua mochila nas costas, despedira-se dos funcionários. Suas últimas palavras foram burocráticas: “adiaram a retirada do dinheiro para amanhã. Provavelmente, virão às cinco e meia, como sempre. Vejo vocês amanhã”. Como se parecesse concordar, a escopeta bateu no piso frio e a bocarra da arma berrou ruidosamente. Um acidente fatal. Tudo isso porque a porta não havia deixado claro para eventuais heróis da Nação que deveria ser puxada, e não empurrada.

Agora eram 18h56min. Um dos funcionários da cozinha rezava e pensava nos dois filhos. Entre os sete amigos do Ensino Médio, o almofadinha que havia aplaudido a ação terrorista ainda tentava lembrar dos versos do Hino da Independência. O moleque chorão olhava para sua farda militar e notava com repulsa os pingos de sangue do gerente. Isabela não sabia mais em que pensar, a não ser arrumar um meio de fugir. Ricardo formulava um meio maluco e absurdo de reconquistar a namorada como naquelas comédias românticas. E cantarolou “Rocket Man” para se distrair um pouco. O sujeito grisalho ouvia, apavorado, as insinuações dos negociadores lá fora. Bradava e fazia exigências: a renúncia do filho do ex-presidente Lula à chefia da Friboi, a rendição do foco guerrilheiro comunista em Roraima financiado por Hugo Chávez, o desmantelamento do Conselho Gay Secreto que envenenava as crianças brasileiras com seus livros didáticos pervertidos. Mas como nosso guardião da ordem nacional soubera de informações tão sigilosas?

- Ora, aonde! No Facebook! As verdadeiras páginas patrióticas são honestas e não veiculam as baboseiras das universidades marxistas!

Naturalmente, a mídia não demorou muito tempo para iniciar uma acalorada cobertura jornalística sobre a bizarra ocupação de uma lanchonete Bob’s por dois terroristas pró-ditadura. As emissoras de TV já sabiam que Antônio Emiliano Gonçalves, gerente da unidade, havia sido a primeira vítima fatal do ato. A Rede Globo teve a sorte de obter o relato de duas testemunhas oculares do homicídio.

- Senhor, senhor! Você pode nos dizer o que está ocorrendo lá dentro?

- Ora, vejam só se em Mântua, Roma ou no inferno eu seria tão maltratado! Encontrava-me de férias, a vagar a ermo por estas terras. Deparei-me com peculiar estabelecimento e decidi adentrar. Vejo então pobre homem bom a sangrar, inocente, graças à violência desmedida. Expulsaram-me de lá a tiros. Deixai toda a esperança, vós que entrais! — disse Virgílio, imensamente ofendido. Por sorte, as balas de escopeta não feriram seu corpo fantasmagórico.

- Ó, Mestre! Nobres e verdadeiras são tuas palavras! Reafirmo aquilo que o altivo Poeta declamou. Agora, guiai-me ao Spoletto! Beatriz há de irar-se com meu atraso! — Dante completou. Depois de oito séculos, balas também não causavam mais estragos em Aligheri.

- Muito obrigado — agradeceu a repórter — Nós, da Rede Globo de Televisão, gostaríamos de acrescentar que não apoiamos medidas violentas que defendam a volta de um regime que favoreça nossos interesses, mas apoiamos.

A tensão crescia mais e mais. Isabela pressentiu que o desfecho não tardaria. As tropas especiais invadiriam o restaurante em cinco minutos, no máximo. Olhou de soslaio para os terroristas e percebeu que eles não estavam lá muito atentos aos reféns. Sorrateiramente, ela deslizou a mão esquerda até a coronha do revólver que escondia debaixo das coxas. Seu coração palpitava, o suor grudava mechas de cabelo nas suas têmporas. Sua concentração descia até o fundo do abismo dos segundos e se contraía, pronta para ser expelida numa rajada fenomenal. Prendeu a respiração, repousou o dedo indicador sobre o gatilho. Bastava a ela erguer um pouco as pernas para puxar o revólver, esticar os braços e disparar dois tiros certeiros. Era como um nirvana. O mundo, o tempo, a vida, os sentimentos…Tudo deslizou para os subterrâneos do Nada, respeitosamente. Reservavam a plenitude do Todo à vontade de poder de Isabela. Ela faria aquilo com os braços revestidos de perfeição.

- Não faça isso, Isabela! Não faça! Ele vão nos matar!

O apelo esganiçado de Ricardo a demoliu como uma bola de boliche rolando sobre um castelinho de areia. O Todo desabou sobre ela, ininterruptamente. Seu coração fora rompido por um violento aguaceiro. A Holanda poderia ser inundada em um piscar de olhos?

“When the levee breaks, there’s no place to stay…”

O ódio a varreu por completo. Trouxe consigo indignação e destempero à reboque. Nunca mais alguém levará um tapa tão bonito. Ricardo tombou desacordado sobre a poça de sangue do gerente. Isabela sequer se deu ao luxo de sentir a ardência abrasiva na palma de sua mão esquerda e disparou, de olhos fechados, os dois tiros que planejara.

Mas, na verdade, nenhum deles foi necessário. O barulho ensurdecedor e inexplicavelmente orgástico do tapa que Ricardo recebera em cheio sacudiu as entranhas de todos as pessoas presentes, e o moleque chorão provou pela segunda vez que só mesmo alguém muito louco permitiria que um ser humano tão despreparado e assustado pudesse portar uma arma de calibre tão devastador. Ele deu um pulo e sentiu o coração gelar: tinha certeza que um franco-atirador havia disparado, mas não sabia da aonde. Correu os dedos amedrontados para empunhar a escopeta, não conseguiu firmá-la em suas mãos e fez uns seis ou sete malabarismos antes da arma se estatelar no chão pela segunda vez.

Estava engatilhada. A parte traseira da coronha bateu no piso, e a bocarra rugiu mais uma vez sob caprichos da aleatoriedade. Uma faísca. Fumaça. O projétil varreu do cérebro do pai todas as informações confiáveis e honestas lidas nas páginas ufanistas do Facebook. Restos de crânio voaram por todos os lados: alguns caíram sobre a carne dos hambúrgueres abandonados diante do Terror, outros pincelaram o teto e o restante tombou a alguns centímetros da perna do gerente morto.

Mas e os dois tiros de Isabela? Bem, um deles acertou uma lâmpada. O outro atingiu a máquina de refrigerantes. Ela abriu os olhos devagarinho e constatou que não fora inteiramente contemplada pelo sucesso em sua empreitada. Mas o militante atabalhoado estava em estado de choque, completamente imóvel. A garota soube que os fusíveis do moleque haviam queimado de vez: ele não era mais uma ameaça.

O assalto ao carro-forte havia fracassado, o último roubo não acontecera. Mas aqueles dois malucos não a tinham mais como refém e ela estava livre para tentar sua fuga. Pulou o balcão como uma exemplar saltadora olímpica e tentou alcançar a porta dos fundos do restaurante. Teve uma certeza absoluta de que fugiria. Iria para muito longe do traidor Ricardo, para longe da loucura chauvinista, para longe da captura dos policiais.

Mas as tropas especiais invadiram espetacularmente o restaurante, com cordas de rapel e acrobacias. Apontaram as armas e renderam o combalido militante chorão. Pensaram que Isabela, em fuga alucinada, era comparsa dos terroristas. Suas costas foram cravejadas de balas. Com um estranho sorriso libertador, morreu a dois passos da porta dos fundos.

Ricardo foi encontrado desacordado no chão e deixou-se capturar facilmente. Aliado a Isabela, era responsável por prejuízos na ordem de cinquenta mil reais a restaurantes e lojas da cidade. A dupla havia concordado que o assalto ao Bob’s seria o último. Mas o carro-forte enguiçara na metade do caminho naquela quinta-feira.

Os funcionários e os sete amigos do Ensino Médio saíram aliviados e imensamente felizes do restaurante. Menos aquele garoto: não lembrava de jeito nenhum a letra do Hino da Independência.

Dizem que num corredor da penitenciária de Bangu é possível ouvir Ricardo cantar “Sorry seems to be the hardest word” todas as noites para se lembrar de Isabela. E “Rocket Man” também — ele ama essa música.

E Dante e Virgílio? Acho que Dante chegou a tempo no encontro com Beatriz. Mas ao invés do Spoletto, decidiram experimentar o Subway naquela ocasião. Virgílio, para não segurar vela,deve ter ido procurar outra lanchonete do Bob’s para experimentar o milk shake de ovomaltine.