Não ao Revisionismo Histórico: A União Soviética Invadiu a Polônia

Com cada vez mais desinformação sendo espalhada, com pessoas tentando mudar a História para uma narrativa que agrade o posicionamento político delas, é preciso colocar os “pingos nos is”.

Thiago Süssekind
Mar 4, 2017 · 5 min read

A Segunda Guerra Mundial, mesmo passados mais de 70 anos desde o seu término, ainda é alvo de fascínio e estudo por parte de milhões de pessoas mundo afora. Entretanto, é cada vez mais comum ver indivíduos que, se aproveitando do poder de difusão de ideias das redes sociais, tentam alterar a narrativa para torná-la mais conveniente com as ideias que defendem. Isso acontece por parte de todos os lados: desde ocidentais negando o Bombardeio de Dresden, a neonazistas negando o Holocausto. Todavia, foi um texto de cunho stalinista que mais me impressionou recentemente.

A página do Facebook “Contra o Pensamento Liberal” conta com mais de 8.700 curtidores e possui algumas publicações de extrema qualidade, em especial aquelas relacionadas à economia. Entretanto, recentemente, um texto foi publicado negando a invasão da Polônia por parte da União Soviética. O que, como se é sabido, não é verdade. A invasão e subsequente divisão do território polonês já havia sido acordada entre a Alemanha Nazista e os soviéticos antes, em 23 de agosto (na ocasião da assinatura do famoso Pacto Molotov-Ribbentrop, um pacto de não agressão entre os dois), antecedendo a invasão que aconteceria no dia 17 de setembro.

No artigo, o autor começa dizendo ser “notório que a ‘invasão’ soviética e alemã na Polônia é utilizada como argumento para as propagandas anti – comunistas”. Bom, a invasão da Polônia pode muito bem ser utilizada como um argumento contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mas não contra a ideologia marxista em si (ou ainda marxista-leninista). Logo depois, o autor afirma ser “sabido que eles (a Alemanha Nazista) possuíam as melhores armas e os soldados mais bem treinados da Europa, senão do mundo.”

Essa é a primeira mentira do texto. O exército alemão ainda não era tão bom assim, ele foi melhorando durante o percurso da guerra. Quando a Batalha da França começou, os franceses tinham mais (e talvez melhores, como o SOMUA S-35) tanques, mais artilharia que a Wehrmatch (o exército alemão) e sabia utilizá-la. Para completar, a sua Força Aérea, apesar de um pouco inferior em números que a Luftwaffe, essa quantia ainda era bastante comparável. Essa historinha de “não ter como guerrear contra os alemães” é besteira. Não ter guerreado antes, em decorrência da “política de apaziguamento”, foi o grande erro dos Aliados do Ocidente. A tentativa à exaustão de se evitar um conflito armado acabou gerando o maior de todos eles.

Depois, o autor cita a Conferência de Munique. Esse encontro aconteceu em decorrência dos planos nazistas de integrar a região conhecida como “Sudetos” à Alemanha. Trata-se apenas de mais um episódio da falha “política de apaziguamento”. Adolf Hitler, Neville Chamberlain, Édouard Daladier e Benito Mussolini (líderes da Alemanha Nazista, do Império Britâncio, da França e do Reino da Itália) se encontraram para tratar da questão da Tchecoslováquia, e mesmo assim, excluíram o governo desse país. Nessa Conferência, a anexação dos Sudetos (região deste país com porcentagem grande de uma minoria germânica) foi aceita pelos ingleses e pelos franceses, contanto que Hitler concordasse em não reivindicar novos territórios. Hitler depois anexaria toda a Tchecoslováquia, mas ainda tentando evitar uma guerra, nada se fez.

Na ocasião do retorno do encontro em Munique, Chamberlain declarou:

“Acredito que ela é paz em nosso tempo”.

Porém, a “política de apaziguamento”, como é sabido, se mostrou totalmente equivocada com o início da Segunda Guerra, um mês depois. O que se encaixava na lógica de Hitler de que “tratados existiam para serem quebrados”. Assim, a História mostrou que Churchill estava certo, pois após a declaração de Chamberlain, em contrapartida, ele proferiu uma de suas mais famosas frases:

“Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra; e terás a guerra”.

Não compreendi inteiramente o porquê da página mencionar o ocorrido em Munique em seu texto. O autor oferece uma pista, dizendo não ver “ninguém aí chamando os britânicos de nazistas/ comunistas tampouco os franceses.” Ninguém chama os britânicos de “nazistas”, de fato; mas chamam o Chamberlain de um imbecil. Serve?

Depois, vem a parte mais mentirosa de todo o artigo, dizendo não haver qualquer tipo de menção à repartição da Polônia no acordo de não-agressão assinado entre Hitler e Stalin. Negar que o Pacto Molotov-Ribbentrop incluía a partilha da Polônia ou é ignorância ou revisionismo histórico de má fé para distorcer os fatos para um “lado”. O acordo – e isso é um fato – tinha um protocolo adicional secreto que abordava isso de maneira explícita.

Pegando os pontos do protocolo aqui:

Artigo I. No caso de um rearranjo territorial e político nas áreas pertencentes aos Estados do Báltico (Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia), o limite norte da Lituânia representará o limite das esferas de influência da Alemanha e URSS.

Artigo II. No caso de um rearranjo territorial e político das áreas pertencentes ao Estado polonês, as esferas de influência da Alemanha e da U.R.S.S. será limitada aproximadamente pela linha dos rios Narev, Vístula e San.

A questão de saber se os interesses de ambas as partes tornará desejável a manutenção de um estado independente polonês e como tal estado deve ser limitado só poderá ser definitivamente determinado no curso de mais desenvolvimentos políticos.

Em qualquer caso, ambos os Governos irão resolver essa questão por meio de um acordo amigável.

Artigo III. O Estado Alemão declara o seu desinteressa pela Bessarábia.

Artigo IV. Este protocolo deve ser tratado por ambas as partes como estritamente secreto.

Moscou, 23 de agosto de 1939.

Pelo Governo do Reich Alemão v. Ribbentrop

Plenipotenciário do Governo da U.R.S.S. V. Molotov

Depois dessa declaração caluniosa, o autor do texto piora ainda mais, ao emitir mais uma afirmação falsa. Ele diz que “não havia governo” na Polônia. O governo polonês não deixou de existir em nenhum momento, o que mais uma vez, demonstra ou má fé ou ignorância por parte do autor desse texto. No momento em que os soviéticos invadiram a Polônia, no dia 17 de Setembro de 1939, o governo ainda estava funcionando normalmente na Polônia. Depois, continuaria em operação no exílio, durante toda a extensão da guerra.

Não compreendi muito bem as últimas declarações do autor do texto, mas é válido ressaltar que não é preciso que exista uma declaração formal de guerra para que um país possa invadir outro. A própria Alemanha Nazista, ao invadir a Polônia, o fez sem antes declarar guerra de maneira formal.

Mexer com fatos históricos de forma a tentar encontrar uma narrativa que lhe agrade… Isso sim guarda semelhanças com o Nazismo, mais especificamente com o revisionismo em relação ao término da Primeira Guerra. O autor, como admirador da União Soviética, poderia ainda se orgulhar de todas as ações do Exército Vermelho contra os alemães, como em Stalingrado e Kursk. No entanto, o Pacto Molotov-Ribbentrop e a invasão da Polônia não podem ser negadas.

Até porque, em tempos assim, como os de hoje em dia, a verdade nunca importou tanto.

Thiago Süssekind

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