Tiago, bom dia.
Mateus Goethe
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Olá! Tentarei responder da mesma maneira pela qual respondestes a mim: de trecho a trecho, pegando algumas frases de vossa pessoa. Começando: “A forma como você apresenta essas coisas deixa uma coisa clara: você sabe que nós temos razões pra crer que essas coisas não são discurso de ódio, mas discorda delas.”

Não, não acho que vocês têm razão. Mas são questões que, para mim, o fanatismo político não permite que a melhor das retóricas altere a percepção de um bolsonarista sobre o tema. É inviável para a minha pessoa que exista força da linguagem atingível para um ser-humano normal que permita alcançar o limite de falar sobre uma guerra civil que mataria 30 mil, ou piada de democrata que longe iria para falar de fechar um Congresso.

A questão do “merecimento de estupro”, por se assim qualficar, é um exemplo vívido dessa situação. Ainda mais quando pegas uma frase do movimento feminista originada, justamente, de Bolsonaro. Qual resposta indignada, de ser-humano verdadeiramente bom – ainda mais que deseja ocupar o cargo mais alto da República – que falaria de não estuprar alguém porque a pessoa não mereceria? O que significa “merecer” um estupro é o que vem de imediato à cabeça senão à de alguém que busca defendê-lo a qualquer custo.

É especialmente engraçado, neste caso, para alguém que se diz de “direita”, como ele. Já houve tempo neste Brasil em que a direita se unia em um único partido de grandes intelectuais, “a direita patrícia” da UDN de Carlos Lacerda e Afonso Arinos. As mulheres devem ter bons costumes, precisam não merecer serem estupradas, mas a prática termina no homem, que pode dizer, “por pura indignação”, usar apartamento pago pelo contribuinte com um auxílio-moradia imoral “para comer gente”.

Vamos lá, continuando para o trecho em que comentas sobre homofobia. “Não é uma piadinha que ele fez há alguns anos que vai mudar tudo o que VI ele fazendo a respeito de homossexuais”, diz você. Veja bem, meu caro. Não é só uma ou outra piadinha. Vamos relembrar um dos comentários feitos em tom claramente cômico: “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”.

(Empreguei aqui ironia nada sutil. Mas fazer o quê? No Roda Viva, ao responder sobre a sua frase em relação aos quilombolas, Bolsonaro disse que estava nítido em seu semblante o tom humorístico do comentário – Link: https://youtu.be/3AEc7mWucVQ])

Realmente é possîvel classificar tal declaração como simples piadinha? Você realmente pode ter visto, muito bem, Bolsonaro se relacionando com pessoas homoafetivas e as abraçando. Mas, ao mesmo tempo, ele as nega de um dos direitos mais básicos, o da igualdade civil, ao se declarar contra ao reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Afinal, Bolsonaro diz que ninguém gosta de homossexuais. Ele fala que apenas os suporta [link: https://m.youtube.com/watch?v=YeOGz8oJiUc]. Sendo assim, é fácil de perceber que ele deve “os suportar” por razões eleitoreiras, pois um mero abraço em um gay pode fazer com que alguém – como você – não tenha mais dúvidas sobre o seu comportamento homofóbico.

Resposta de Bolsonaro ao G1 sobre o tema, em teste de afinidade eleitoral lançado ontem.

Agora vamos partir aos meus comentários sobre a sua resposta ao começo de verdade do meu texto. Que bom que estás entusiasmado, respondo aqui enquanto leio a sua resposta. A minha reação aqui, dessa maneira, é genuína e direta.

1. Posicionamento Ideológico Contraditório

Aqui entram as minhas maiores discordâncias com você, meu nobre amigo virtual. É claro que você podia gostar de Lula e Harry Potter em 2006 e não mais hoje em dia, mas quando se trata de um parlamentar eleito constantemente sob a mesma bandeira, as coisas são um pouco diferentes. A questão principal que fica é: o quanto ele mudou por conveniência e o quanto ele mudou por dentro?

A minha opinião pessoal, baseada em algumas constatações, é que Bolsonaro é, na realidade, um grande mentiroso. Vamos ao seu slogan: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Consideremos aí que duas das suas principais defesas, por óbvio, sejam da Pátria – em sentido patriótico – e a questão religiosa. Primeiro, sobre o patriotismo, que citei brevemente no texto. Vai tudo para questões ainda mais concretas: o plano de política externa do capitão énum de subserviência aos interesses estadunidenses – motivo pela qual a ultradireita portuguesa o odeia, por sinal.

Sobre religião: diz ser católico, mas viajou rumo a Israel para poder ser batizado por pastores evangélicos. Mesmo sem grande formação cristã fica evidente a heresia do ato. O sectarismo, por sua vez, considero puramente eleitoreito: Bolsonaro já pensava em atrair para si o eleitorado evangélico. Como confiar em um homem que não é fiel nem sequer a uma das partes mais centrais de seu discurso e de todo o homem, que é a fé?

Isso sem contar a sua questão econômica, do Posto Ipiranga com o qual já brigou e de seu histórico de votações e declarações que, até o ano passado, iam no sentido contrário do atual. Para um liberal, faria muito mais sentido ir de Alckmin – com alguma divergência aqui e acolá – ou Meirelles e Amoêdo. Pois, veja bem: falamos aqui, na questão econômica, de 2017, não 1999, quando Bolsonaro já estava na casa dos 40 e era, portanto, bastante amadurecido.

Mas, em 2017, se opôs à reforma trabalhista até o último momento possível, falava de autonomia do Banco Central como algo negativo e, ainda por cima, rejeitou projeto de lei que suspendia o pagamento dos estados superendividados, como o meu Rio de Janeiro que ele representa – ou seja, foi contra reformas estruturais para resolver o caso das dívidas estaduais. O engraçado é que, conforme escrevo, mais exemplos lembro. A sua indecisão sem relação à Petrobras impressiona muito, uma hora ele diz que vai privatizar, outra hora ele diz que não. Quanto à Previdência, sempre agiu irresponsavelmente, e não só no governo FHC. Mais recentemente, se opôs à regulamentação do fundo de previdência complementar dos servidores. Em 2015, votou favoravelmente ao fim do fator previdenciário. E poderíamos continuar aqui por dias…

https://www.google.com.br/amp/s/oglobo.globo.com/economia/bolsonaro-defende-privatizar-petrobras-se-nao-tiver-solucao-22949381%3fversao=amp

Assim, o quanto ele é liberal por conveniência eleitoral – o que poderia mudar passadas as eleições – e o quanto isso é mudança de posicionamento, aí fica a seu cargo. Por isso é difícil ter candidato que muda tanto: não dá para saber se, empossado, manterá o projeto vencedor das urnas.

2. Deputado Medíocre

Aqui entra uma outra grande questão do Bolsonaro para o futuro. Muitas das propostas de Bolsonaro exigem mudanças na Constituição, isto é, de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), até algumas das mais banais. É o caso, por exemplo, da proposta de Paulo Guedes para o Imposto de Renda para Pessoa Física, anunciada essa semana. Basta ler o artigo 153, parágrafo 2, ou o artigo 145, parágrafo 1º, para perceber a gritante inconstitucionalidade da medida.

Já que Bolsonaro faz parte de uma coligação de dois partidos nanicos e com poucos deputados (PSL-PRTB), como aprovar projetos? Simples: da mesma maneira que ele sempre precisou fazer no Congresso Nacional, e mesmo assim nunca conseguiu. Não é simplesmente olhar para as suas propostas, vai além disso. Estamos falando da exequibilidade de seu programa.

Mas ser um deputado medíocre não se restringe à aprovação de emendas. Existe uma grande quantidade de formas para se buscar o protagonismo dentro da Câmara, como na participação de comissões, seja as presidindo ou delas sendo vice-presidente. Jair Messias Bolsonaro nunca fez isso. Até o seu último mandato, vivia às sombras, como mais um da baixo clero que fala besteiras e ninguém conhece. E, mesmo famoso, só usava o Congresso de palanque. Nunca como uma verdadeira casa legislativa.

3. É tão corrupto quanto alguns que acusa de serem corruptos.

Gostaria de frisar aqui o quanto “acusa outros de serem corruptos”. São acusações, meras acusações. Mas acusações similares utiliza-se como forma de condenação para outras pessoas pelos bolsonaristas, mas não por ele. Ao se tratar de mim, em particular, o princípio da presunção de inocência é algo do qual não abdico.

Mas falemos de Haddad e Ciro, que citastes nominalmente – e, no meu caso específico, não possuem minha simpatia em virtude das agendas econômicas que defendem. O primero foi denunciado neste ano em denúncia do Ministério Público que qualquer estudante de Direito lê e acha absurdo.

Haddad prejudicou a UTC, logo quando assumiu ao governo, no seu 54º dia de mandato, por indício de superfaturamento em determinada obra. Anos depois, o chefão da empreiteira vai lá e diz que Haddad recebeu de si dinheiro provindo de caixa 2, sem apresentar provas e claramente mentido. Diz aue deu o valor ao tesoureiro do PT, o que não faz sentido algum – teria que ser ao tesoureiro da campanha. Contra Ciro, há mais de 70 processos judiciais. Nenhum deles, porém, por nem sequer suspeita de corrupção. São todos geralmente por calúnia e difamação, boa parte deles por adversários políticos que dele recebiam muitas críticas, como Eduardo Cunha.

A minha questão nesse ponto do texto é: se indícios servem contra os adversários, deviam servir para si mesmo também. Eu acho imoral a contratação de filhos na política, mesmo antes de ser proibido. Acho imoral o uso de dinheiro público que devia ser gasto para a atividade parlamentar – e apenas para isso – tendo a sua finalidade desviada para custear uma campanha presidencial. Acho imoral receber auxílio-moradia tendo apartsmento, e acho muito esquisito alguém que viveu apenas da vida pública ter visto o seu patrimônio crescer de maneira exponencial. Também acredito ser esquisito que o valor dos imóveis comprados abaixem tanto por simples má-preservação.

Mas isso não é o suficiente para declará-lo como corrupto, nem mesmo pela lavagem de dinheiro interna, dentro de seu partido, para receber 200 mil e dizer que não provinha da JBS. Só serve para alardear a hipocrisia: se outros são desonestos com base em capas de jornais ou denúncias e investigações mal feitas, então ele, por óbvio, também deveria ser – seguindo a própria lógica de seus fãs.

E acho especialmente esquisito que estes não considerem opções que não defendem, por exemplo, carta branca para policial matar mas que, ao mesmo tempo, sejam de direita. Como Álvaro Dias, Amoêdo e o liberal Meirelles, até mesmo Alckmin. Que, caso procurem honestidade, não vejam em Ciro ou Marina opções, já que contra eles não pesam alegações de corrupção.

Você, ao que me parece – e, por favor, corrija-me se eu estiver enganado -, é conservador. O conservadorismo, diferentemente do que muitos imaginam, não é o preconceito pueril e medíocre que, infelizmente, ainda permeia uma parte muito expressiva do nosso tecido social. O conservadorismo tem todo um fundamento teórico. A maior parte dele, extraído de Edmund Burke, seu grande fundador. Burke era um irlandês nascido em Dublin e viveu um período de muitas rupturas (a principal delas, obviamente, a Revolução Francesa, quando, inclusive, se destacou por ter sido o primeiro grande crítico aos revolucionários).

Pois bem, o livro “Os Clássicos da Política”, obra obrigatória em alguns cursos de humanas, separou um texto de Burke que confesso levar para mim até hoje. Deixo aqui:

“Não basta que o homem colocado em um cargo de confiança deseje o bem de seu país; não basta que pessoalmente jamais tenha realizado um só ato prejudicial, nem que tenha votado sempre de acordo com sua consciência e nem ainda que tenha se pronunciado contra todo plano que lhe tenha parecido prejudicial aos interesses do país. Este caráter inofensivo e ineficaz – que parece se formar em um plano de escusa e desculpa – resulta, lamentavelmente, de pouco alcance no caminho do dever público. O que o dever exige e implora não é apenas que se manifeste o que está bom, mas que este bem prevaleça; não apenas que se saiba o que é que está ruim, mas que isto se frustre. Quando um homem público não chega a se colocar em condições de cumprir seu dever com eficácia, esta omissão frustra os propósitos de seu mandato quase da mesma forma que se o houvesse traído abertamente. Na verdade, não é um resumo muito elogioso da vida de um homem dizer que sempre trabalhou bem, mas que se conduziu de tal forma que seus atos não deram margem à produção de nenhuma consequência.”

Para pôr fim em tudo isso: sei que escrevi de maneira séria, mas o tom em nenhum momento se propunha a ser agressivo. Escrevo aqui de maneira espontânea, na madrugada de sexta para sábado, na tentativa de estabelecer diálogo. Acho muito legal que procures discutir com civilidade, e o agradeço por isso. Espero ter mantido o bom nível na medida do possivel. Forte abraço.