Pelé: o maior de todos os tempos atingido por mentiras.

Criaram-se mitos para contestar a realeza do melhor que já se viu jogar. Mitos estes que tentarei desconstruir neste texto.

Em um curto espaço de tempo, a imprensa esportiva reacendeu a discussão sobre quem é o melhor jogador de futebol da história. Com a atuação de gala de Cristiano Ronaldo na Liga dos Campeões, marcando três vezes pela Juventus contra o Atlético de Madri, além da temporada espetacular de Lionel Messi, aplaudido de pé pela torcida do Real Bétis após uma atuação fantástica, pôs-se em dúvida o título que é comumente atribuído a Pelé. Vários textos foram feitos, seja em redes sociais ou em portais de notícia, defendendo a tese de que o maior camisa 10 da Seleção foi ultrapassado pelos feitos de nossos contemporâneos.

No entanto, o que se mais vê sendo espalhado – em especial por europeus, mas também replicados por brasileiros – é desinformação. São várias as mentiras espalhadas sobre Edson Arantes do Nascimento e a era na qual ele atuava como futebolista profissional. Até pode se querer discutir sobre se o jogador nascido em Três Corações ainda é maior do que todos os outros. Já se fez isso em outros tempos, seja usando como termo de comparação Ronaldinho, Maradona ou Cruyff. Contudo, o que não se pode fazer é basear os argumentos em falta de conhecimento e perspectiva histórica. E, por isso, esse texto tentará desfazer alguns mitos que foram propagados, de má-fé, internet afora.


“Pelé nunca jogou na Europa”

Ele enfrentava os melhores jogadores de seu tempo, porque o melhor futebol do mundo era praticado no Brasil. E, nas excursões para fora, as mais rentáveis na época, ganhou da maioria das equipes com as quais se deparou. Mas, atendo-se ao futebol daqui: o país que ganhou as Copas de 1958, 1962 e 1970 tinha uma Seleção formada inteiramente por jogadores que atuavam a nível nacional. Pelé os enfrentava sempre, rotineiramente. Seja nos estaduais, no Torneio Rio-São Paulo ou nas ainda embrionárias competições nacionais.

Basta um leve exercício mental para se ter uma ideia daquilo que se praticava em solo nacional naquele tempo. Imagine só se Daniel Alves, Marcelo, Miranda, Thiago Silva, Casemiro, Philippe Coutinho, Firmino e Neymar jogassem todos pela mesma competição, aqui no Brasil. Bom, era isso que rolava na época: os nossos melhores atletas permaneciam atuando onse nasceram. Com uma diferença vital: eram de gerações que conquistaram o mundo três vezes em quatro oportunidades. E o Santos de Pelé era o time que encantava o Brasil com a magia nos pés de seu 10, que lotava estádios por onde passava no mundo.

Para exemplificar, peguemos o título do Torneio Rio-São Paulo de 1963 vencido pelo Santos. Nele, estavam, por exemplo, o Palmeiras de Ademir da Guia, Djalma Santos e Vavá; o Botafogo de Nilton Santos, Garrincha, Amarildo e Zagallo; o Fluminense de Castilho e Carlos Alberto Torres; e o Flamengo de Gérson, o “Canhotinha de Ouro”. Isso apenas para dar exemplo.

Pelé e Garrincha, dois dos melhores da História, se enfrentavam no futebol brasileiro dos anos 60.

Dá para usar também o Campeonato Brasileiro de 1968 (ou “Robertão”, se preferir). Nele, o Palmeiras ainda tinha Ademir da Guia. O Botafogo contava com o talento de Gérson, Jairzinho e Paulo César Caju. O Corinthians dependia do craque Rivellino, enquanto o Cruzeiro tinha aquele tal de Tostão. Pelé jogava contra todos esses craques, então por que precisava ir para a Europa? O melhor futebol era aqui.

Menon, jornalista do UOL, lembra em seu blog de alguns exemplos da inferioridade europeia, à época, em termos futebolísticos [1]. “Os suecos Gren, Nordahl e Liedholm, humilhados por Pelé em 58, viraram história no Milan”. Também recorda que Julinho Botelho foi ídolo na Fiorentina e Evaristo no Barcelona. Ou seja, é evidente que Pelé se daria mais do que bem no Velho Continente.

Entretanto, vale acrescentar mais substância a esses argumentos. O principal deles é que quando o Rei disputava partidas contra equipes europeias, na maior parte das vezes, vencia. Em 1959, o Santos pegou o Barcelona, então campeão espanhol, no Camp Nou. Aplicou uma goleada de 5 a 1, com dois de Pelé. Apenas três dias antes, havia tido um Santos x Inter de Milão. Foi 7 a 1 para os praianos, com quatro do melhor de todos.

Em 1961, os times voltariam a se enfrentar, dessa vez pelo Torneio Itália, e o Santos ganhou da Internazionale por 4 a 1. Pela mesma competição, venceu a Juventus por 2 a 0 e a Roma por 5 a 0. Naquele mesmo ano, os santistas pegaram e venceram adversários como Bayern de Munique, Lyon e o Benfica de Eusébio.

Filmagem existente de Santos x Juventus. A esquadra italiana contava com o então dono da Bola de Ouro, Sivori. O primeiro gol é de Pelé. É possível ver a bola entrando no gol, indefensável para o arqueiro.

Os portugueses, aliás, jogaram o Mundial contra o Santos em 1962. Em dois jogos, Pelé marcou cinco vezes. Para abrir e fechar o placar de 3 a 2 no Maracanã e no Estádio da Luz. Lá, fez os dois primeiros e o quarto, que deixaram o Santos com a mão na taça e vencendo por 4 a 0, que viria a se tornar 5 a 2 nos minutos finais. Enfim, o ponto é: o futebol europeu não era páreo para o brasileiro, e muito menos para o Santos de Pelé. Afinal, ainda seria possível citar vários outros exemplos de times europeus derrotados pelo Alvinegro.

Vídeo de Benfica 2 x 5 Santos, em Lisboa. A magia de Pelé aparece.

Ah, e não podíamos deixar de falar sobre as Copas do Mundo. Jogando nelas, o nosso camisa 10 enfrentava todos os melhores europeus e, mesmo assim, foi campeão mundial em três oportunidades de quatro possíveis. Que tal, hein? Com a Seleção, como já mencionado, sendo inteiramente formada por jogadores que atuavam no Brasil, como aconteceu até 1982 (na qual Falcão, titular, era da Roma; e Dirceu, reserva, do Atlético de Madri).

“A maior parte dos gols eram em amistosos”

Então, sabe esses jogos contra equipes europeias que foram listados acima? A grande maioria entra na contagem como “amistosos”. É sempre preciso enxergar o contexto da época. E, na década de 60, o Santos preferia jogar esses duelos amigáveis a até mesmo disputar a Libertadores da América, ainda muito pouco valorizada nacionalmente. A maior fama do torneio era de ser roubado e violento.

E nem sequer era mentira, “chororô” ou qualquer coisa assim. O Santos foi eliminado em 1964 pelo Independiente, por exemplo, em duelo marcado por denúncias de favorecimento aos argentinos desde aquela época. Cinquenta anos depois, áudios de Julio Grandona revelaram de uma vez por todas a tramoia. O então presidente da Federação Argentina assumiu, em conversa telefônica divulgada no ano de 2014 com Abel Gnecco (diretor da Escola de Árbitros da AFA e representante argentino no Comitê de Arbitragem da Conmebol), que “bateu o árbitro do jogo contra o Santos, juntamente com os dois bandeirinhas” [2].

Além disso, disputar o torneio simplesmente não dava lucro. Como explica muito bem o historiador do Santos, Odir Cunha: “O Santos estava acostumado a jogar grandes clássicos contra paulista e cariocas. Um desconhecido da Bolívia [por exemplo] não animava a torcida. Assim, o clube não faturava com a renda dos estádios na Libertadores” [3]. Aquela semifinal contra o Independiente supracitada, por exemplo, teve 23.916 de público no Maracanã – bem menos do que inúmeras partidas pelo Carioca daquele ano. Similar ao de América 3 x 4 Bangu, que levou 20.524 ao estádio. Embora o Peixe não seja do Rio, ajuda a mostrar o prestígio do torneio. Isso se dá porque os cariocas que torciam pelos quatros grandes costumavam a ir nos jogos desses times menores. Ou seja, era mais ou menos o mesmo público que ia ao Maracanã vibrar pelo Santos de Pelé.

E tudo isso faz bastante sentido, tendo em vista o nível elevadíssimo do futebol nacional na época. E do próprio Santos, que chegou a compor a Seleção com 8 dos 11 titulares em duas oportunidades nos anos 60. Não é à toa que o Alvinegro, mesmo tendo vaga garantida na competição, não a disputou em 1966, 1967 e 1969. Era muito mais interessante para o Peixe realizar as suas excursões e disputar amistosos. Sendo assim, é preciso enxergá-los sob o contexto da época. E este é: o time de Pelé preferia tais jogos a uma Libertadores. As partidas eram jogadas de maneira séria. Portanto, como não contá-las?

Ainda é preciso lembrar mais um ponto. Um time que havia sido campeão do torneio sul-americano da Conmebol entrava na disputa pelo título já na semifinal. A Taça Brasil, de abrangência nacional, era unicamente em mata-mata. Ou seja, no geral, havia menos partidas oficiais naquele tempo. Pelé, para usar como exemplo, jogou 37 partidas não oficiais em 1961, ao mesmo passo que disputou 38 jogos oficiais. Isto é, o calendário só durava o ano todo se com a disputa de torneios amistosos.

É justamente por essa quantidade enorme de partidas realizadas de caráter não oficial que o Rei tem tantos gols anotados em amistosos, e não porque estes seriam mais fáceis. Pelo contrário, eram disputados com bastante seriedade. E a grande evidência disso é que a média de gols do craque brasileiro fica praticamente inalterada se forem considerados apenas os jogos oficiais ou vice-versa. Segundo o FutDados, Pelé tinha uma média de 0,92 gols por jogo em partidas oficiais. Nos amistosos, a média é de 0,94. Caso a disparidade do futebol apresentado fosse grande, tal número seria bem mais diferente também, refletindo o desnível. Mas acontece que os jogos eram disputados como quaisquer outros, oficiais ou não.

“Ah, mas o Pelé conta gol até mesmo no time do Exército”

Na verdade, contam por ele. Mas e se deixássemos só os amistosos e torneios “não-oficiais” na contagem? O que aconteceria se não considerássemos essas “peladas”? O Globo Esporte já fez o cálculo [4]. Dos 448 gols feitos pelo Rei em amistosos do Peixe, no Brasil e no exterior, aqueles marcados contra combinados de equipes, seleções nacionais e selecionados locais foram excluídos. E o número é apenas de 77. Assim, o portal calcula que Pelé anotou 1.104 gols só e somente pelo Santos. Um monstro, que ainda marcou 92 vezes com a amarelinha e 64 pelo NY Cosmos, totalizando 1260 tentos, todos devidamente registrados e sem falcatruas.

“O futebol daquela época era muito menos evoluído”

Essa é uma questão complexa. Até quando o futebol evolui, e até que ponto ele apenas muda, se adapta? De fato, hoje temos muito menos espaços no campo. Principalmente – e este ano é um marco —, a partir de 2004. Mas isso é evolução? Afinal, tais mudanças significam um esporte com menos espaço para criatividade e jogadas individuais. Temos cada vez menos batedores de falta ou bons finalizadores de fora da área, para dizer o mínimo.

Concomitantemente a isso, às vezes parece que o futebol não mudou tanto assim quanto parece. Nisso, o comentarista que usa o pseudônimo de József Bozsik oferece uma boa contribuição. A tática, na verdade, não mudou tanto assim. Às vezes, se observa um resgate de algumas características antigas, mas tidas como revolucionárias no discurso. Comenta-se muito sobre como a pirâmide começou a ser invertida, mas os uruguaios em 1966 já se defendiam com cinco atrás. O Uruguai de 1930, o analista observa, já fazia uma linha defensiva de quatro jogadores [5].

E, o mais interessante: a França de 2018 guarda várias semelhanças em termos de movimentos táticos com o Brasil de 1958 [6]. A comparação, no plano ofensivo, seria entre Didi e Pogba; Zito e Kanté; Pelé e Griezmann; Zagalo e Matuidi; Garrincha e Mbappé; Giroud e Vavá. Como eram esses times em ação? Ele responde: “Um jogo mais vertical, com Didi (Pogba) buscando Garrincha (Mbappé) em velocidade, Pelé tendo que temporizar os ataques no terço final tal como Griezmann. Claro que com mais imposição física. A diferença está mais no 9. Giroud faz mais o pivô, Vavá era mais um 9 de movimentação”.

É evidente que precisa se fazer as devidas ressalvas técnicas, uma vez que aquele Brasil tinha mais qualidade individual, conseguindo “tocar mais e melhor a bola em velocidade”, ele adiciona. Mas enfim, são todos exemplos de que as coisas não mudaram tanto assim. A tática não exatamente evolui, mas sim se encaixa às situações. Um bom exemplo de resgate talvez esteja presente no jogo posicional de Guardiola, tido inúmeras vezes como revolucionário. As suas equipes atacam, na prática, em um 2–3–5. Justamente a forma de se jogar predileta dos anos 30, década em que o futebol deu os mais importantes passos rumo à profissionalização no Brasil.

Compilado de lances na atuação de gala de Pelé pela final da Copa do Mundo de 1958.

No entanto, de fato há de se reconhecer que muito mudou no futebol. Hoje, o preparo físico é melhor, os atletas possuem maior resistência, as chuteiras são mais modernas, os gramados melhores e as bolas utilizadas, por sua vez, mais leves. Sobre esse último detalhe, bom lembrar que durante toda a carreira de Pelé as mesmas eram de couro. Para piorar, em 1958, nem sequer eram impermeabilizadas. Isto é, com chuva, a bola pesava ainda mais e os chutes se tornavam menos precisos.

Agora, imagina se Pelé tivesse à disposição o preparo físico de hoje; as chuteiras atuais; as bolas mais leves, feitas por polímeros; e toda a atenção desfrutada por um esportista de alto rendimento no século XXI, da alimentação ao sono. Se o Rei era extraordinário na sua época, se destacando tão absurdamente em comparação aos seus contemporâneos, também o seria hoje. Basta que todos começassem em pé de igualdade nesse exercício de cenário hipotético.

Talvez uma mudança no futebol fosse essencial para o eterno camisa 10 do Peixe àquele tempo: a menor conivência com faltas que os árbitros tem hoje em dia, para a qual fez diferença o advento dos cartões amarelo e vermelho. Pelé foi verdadeiramente caçado por seus adversários em dadas ocasiões, da qual se recorda mais nas Copas do Mundo, uma vez que se considerava os europeus mais violentos.

Em 1962, uma lesão o impediu de jogar as etapas finais do torneio. Em 1966, foi deslealmente atingido infinitas vezes pelos búlgaros na primeira partida e pelos portugueses no terceiro jogo. Uma entrada dupla dos lusitanos é recordada com frequência em documentários sobre o Rei, pois ele foi eliminado do jogo contra Portugal pela brutalidade de Hilário e Moraes. Então, sem ser caçado em campo e com a tecnologia presente nos dias atuais, a coroa de Pelé ainda brilharia.

“Pelé jogava contra pedreiros e fazendeiros”

Não e não! Pelé enfrentava profissionais do futebol que eram os melhores de sua geração. Esse argumento, talvez o mais estúpido, foi difundido ao longo dos anos por europeus. Eles não conseguem entender, principalmente, a importância do Campeonato Paulista, torneio oficial pelo qual Pelé mais fez gols. Ou, ainda, são eurocêntricos demais para verem que o futebol brasileiro era melhor que o praticado no Velho Continente àquele tempo.

Mal sabem eles da importância dos estaduais nos anos 60. Eram os torneios mais prestigiados, aqueles que as torcidas dos clubes mais desejavam vencer. A Taça Brasil, via de regra, pouco importava. O destaque absoluto do calendário, em especial para os cariocas e paulistas, eram os estaduais. E não é por acaso. A Seleção era somente composta por jogadores de times do Carioca ou do Paulista em 1958 e 1962. Em 1966, apenas dois atletas não eram de Rio ou São Paulo. Em 1970, o número era de cinco (três deles titulares).

No cenário mundial, o futebol já era largamente profissionalizado há décadas. E Pelé, nas Copas do Mundo, enfrentou o supro-sumo do esporte em todo o globo terrestre. Os profissionais de maior destaque de cada país. Muitos dos melhores foram batidos por Pelé. Podemos falar do goleiro Lev Yashin e do zagueiro Bobby Moore. Ou, quem sabe, de Eusébio e Bobby Charlton no ataque. Foram vários os craques que o Rei derrotou com a bola nos pés.

Em especial nas Copas do Mundo. E aí, meu amigo, ninguém pode botar defeito. Mesmo sendo um ponta-de-lança, Pelé fez 12 gols no total de suas participações nos Mundiais, consagrando-se como o quinto maior artilheiro da história da competição. Sendo, no total, 3 gols em finais (dois em 1958, um em 1970), o que mostra a característica decisiva que possuía. Em relação aos gols marcados, é um dos poucos a ter deixado sua marca em quatro edições diferentes de Copas. Além disso, ele detém o recorde de mais assistências feitas pelo torneio (10 no total) e de mais assistências em uma única edição também (7, em 1970). É ainda quem deu mais assistências em finais de Copas, sendo 3 no total (1 em 1958 e 2 em 1970).

O Rei comemora o título do Mundial de 1970 nos braços de seus companheiros.

Sem contar que é o jogador com mais chances criadas na história do Mundial, por exemplo. E que, em 1970, criou 28 chances, segundo a Opta [7]. Uma a mais do que Maradona em 1986, que tinha um jogo a menos, mesmo com a imprensa adorando dizer que o argentino teve a melhor atuação individual de um jogador em uma Copa naquela edição. Na comparação, o Pelé de 1970 deu 2 assistências a mais e fez 1 gol a menos, embora, lembre-se, com 1 jogo de desvantagem. É inegável, portanto, que o craque rendia em altíssimo nível quando jogava contra os maiores de seu tempo. Dar 10 assistências e marcar 12 vezes no principal torneio do esporte não é só para poucos, como para apenas um só: Pelé.


Ao invés de menosprezar e tentar diminuir o tamanho dos feitos de Edson Arantes do Nascimento, o brasileiro precisa aprender a ver a obra desse artista com o orgulho que o seu futebol dava enquanto o Rei jogava. Não é nenhum crime discutir se Messi e Cristiano Ronaldo não poderiam ser equiparados, ou se então não teriam superado a grandiosidade daquele que, aos 17 anos, fez gol dando chapéu em um sueco na final da Copa do Mundo. Contudo, o debate precisa ser embasado e fundamentado com argumentos que respeitem o contexto histórico de quando Pelé desfilou por nossos gramados.

Para aqueles que nunca puderam ver de perto esse craque, assim como este que vos escreve, aqui vai uma boa introdução:

É difícil até de conjecturar a beleza que deveria ser ver Pelé jogando, um atleta que unia técnica refinada a um físico invejável. Se todos os jogos tivessem sido gravados, imagina só como um vídeo com alguns de seus melhores momentos seria ainda mais lindo? A categoria de quem batia com as duas pernas, cabeceava, driblava, chutava de fora da área, fazia gol de falta e dava assistências maestrais. De quem fez um golaço tão belo que mereceu uma placa no Maracanã. Bom, o vídeo acima dá um gostinho.

Nelson Rodrigues, antes mesmo da Copa do Mundo de 1958, sintetizou como atuava Pelé: “O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Mais tarde, viria a dizer: “Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: – ‘Como vai, colega?’”. De fato, é preciso criar um termo mais abrangente de artista que o inclua entre os grandes.