resenha — Ditadura e Democracia no Brasil de Daniel Aarão Reis

Daniel Aarão Reis conta a história do Golpe Civil-Militar de 1964, percorrendo o início dos anos 1960 até a Constituição Cidadã de 1988, com muita simplicidade e tranquilidade.

o nome do capítulo de introdução é “Uma incômoda e contraditória memória”. destaco o “contraditória” pois nos dias de polarização radical na política em que vivemos, a leitura deste livro é interessante por justamente não valorizar nenhum “lado” da narrativa, ou seja, ele explica, já no começo, como a leitura historiográfica, a memória e a narrativa alterou significados, vencedores e perdedores.

de forma geral, a memória coletiva dos últimos trinta anos (desde o fim da ditadura) construiu a narrativa de um Golpe Militar, com uma certa “glamourização” das lutas da esquerda contra a opressão e autoritarismo dos militares no poder. é certo que direitos civis foram cassados, mas Aarão levanta questões importantíssimas como a participação de movimentos sociais e civis na tomada de poder em 1964 e como se arrependeram nos anos seguintes. também chama atenção a participação de figuras familiares à democracia entre aqueles que apoiaram essa tomada de poder, como Ulisses Guimarães, um dos líderes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, famoso movimento contra as reformas de João Goulard em 1964 e que impulsionou a legitimidade popular do Golpe.

Aarão destaca como a guerrilha urbana de esquerda era composta por jovens idealistas buscando a Revolução, mas que eram poucos e não contavam com apoio da maioria da população, de certa forma alienada ou pouco interessada nos meandros da conjuntura política. é correto afirmar que as classes média e alta brasileiras cresceram economicamente com o Golpe e, portando, é válido considerar que ainda o apoiava.

também dentro do contexto atual da polarização esquerda x direita, podemos levantar questões sobre qual espectro da ideologia política-econômica estava a ditadura, visto que foram anos de valorização das estatais e intervenção no mercado (práticas atualmente condenadas pela direita liberal brasileira) e na análise de resultados eleitorais, a história política revela que a população brasileira em geral era e se manteve conservadora durante todo esse processo. isso fica demostrado pela vitória de canditados ligados a ditadura depois da abertura democrática.

enfim, “Ditadura e Democracia no Brasil” é uma excelente leitura para percebermos que a política e a história não são tão “preto-e-branco”, mas um extenso e complexo jogo de interesses e disputas narrativas que poderão ou não ser esclarecidas com o tempo e que devemos sempre estar abertos a reconsiderar nossas crenças sobre os eventos passados.

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