A esquerda perdeu o rumo. E a culpa é da esquerda festiva.

Uma visão de um ideal segregado e em crise.

(O texto trata sobre os defeitos de uma identidade política em específico, se você está aqui para ouvir apenas para o conforto próprio, sugiro que pare por aqui. Se se sentiu ofendido, me explique o porquê e conversaremos a respeito)

Eles estabelecem divisões de identidade para se sobreporem, como análise e alternativa, à luta de classes. Às vezes vale a pena lembrar a origem e o propósito do utopismo comunista para quem estiver lendo: a construção da hegemonia da classe trabalhadora e do pensamento comunista tem como fundamento a unidade dos proletários, de todos os gêneros, raças e idades, a integração dos excluídos, a fusão de suas experiências e identidades, culturas e tradições, é passo fundamental para enfrentar as classes opressoras. E é justamente o oposto que estes defensores amigos meus estão conquistando.

Na prática, para exemplificar o que costumo ver de pessoas que se consideram de esquerda, a lógica funciona com dois exemplos bem banais, mas que não representam de jeito nenhum a esquerda:

  • Apoiar medidas econômicas de um governo — independente se elas irão beneficiar a população — para tirar um país de uma crise é ser conservador, golpista. E portanto você não merece respeito no tema.
  • Quem decide o que é apropriação cultural sob costumes afro-descendentes, por exemplo, é o branco ativista de Facebook que não tem domínio nenhum sobre a questão, e não o negro que sofre com isso no dia-a-dia. Pasmem os senhores: nas discussões não há nenhum negro. De repente todos viram especialistas e antropólogos.

Muitos que me conhecem irão julgar a minha persona por já ter feito isso. Mas por uma série de eventos durante os últimos meses que não cabem a esse texto serem explicados, compreendi que julgar o indivíduo pelo modo que fala, se veste e pelo que prega é primitivo, muito primitivo. Se eu já fiz isso com você querido leitor, peço minhas sinceras desculpas.

Mas aos outros que não querem ver como isso é inconsistente, como você acha que as pessoas vão reagir se você as trata e fala assim com elas? Quando é que alguém que foi convencido por ser insultado e rotulado? Nós tornamos as pessoas incapazes de articularem suas opiniões por medo de as mandarmos calarem a boca. Elas têm vergonha de se expressar, pois toda vez alguém da esquerda dirá: “você não pode dizer isso, isso é reacionário, conservador, ofensivo”. Aguarde mais uns minutos e uma manada de pessoas que se sentiram provocadas pelo seu ponto de vista irão aparecer, para te linchar e crucificar nos comentários do Facebook, e sem nenhum charme. Aparentemente, a ferramenta mais eficaz (e mais feia) para expor a sua indignação são memes. Sempre com a língua solta para o insulto a quem não pensa como eles: quantos pedaços de trumpismo existem em nós?

No fundo, são apenas leitores de manchetes, de cabeçalhos com tesão pelo conforto e de identificação partidária, que literalmente julgam o livro pela capa.

Vou te contar uma história: um cara chamado Daryl Davis, um tecladista e pianista negro que trabalhou com Chuck Berry e Little Richard têm passado as últimas décadas de sua vida em uma missão de “fazer as pazes” com membros do Ku Klux Klan através da serenidade. “Como você pode me odiar se você nem me conhece?”, ele diz. “A coisa mais importante que eu aprendi é que se você está constantemente aprendendo sobre alguém, você também está passivamente ensinado-lhes sobre si mesmo. Você fornece uma plataforma, você os desafia, mas não desafia de um modo rude ou agressivo. Você faz educadamente e inteligentemente. E quando você faz as coisas deste modo as chances de reciprocidade são enormes, eles também te darão uma plataforma.”

Em 1983, depois que Davis fez um show em Frederick, Maryland, um membro da platéia se aproximou dele para cumprimentá-lo em seu piano. Os dois iniciaram uma conversa amistosa, e Davis ficou surpreso ao descobrir que o homem era um membro portador do KKK. Através deste homem, Davis entrou em contato com Roger Kelly, o ex-Mago Imperial da organização supremacista branca. Com o passar do tempo, Kelly e Davis se aproximaram e Kelly finalmente abandonou o grupo de ódio.

"Ele não acredita mais no que disse", disse Davis ao Love + Radio. "E quando ele deixou o Klan, ele me deu seu manto e capuz, que é o manto do Mago Imperial. Você tem ideia de como isso é simbólico?"
Daryl Davis (direita) e ex-membo da KKK, Scott Shpephard, promovendo o documentário “Accidental Courtesy”.

Apenas se sentir ofendido não funciona mais. Insultar não funciona mais. Sonho meu no dia em que vocês parem de chamar de fascista, ignorante ou estúpido qualquer um que discorde de seus ideais. Ao invés disso, converse, chame para um debate, convença-os do contrário.

Eu vejo uma massa de “desconstruídos”. Amigos de esquerda que só possuem amigos de esquerda. Que não cedem o espaço para conhecer pessoas com coração gigante com opiniões contrárias, que estão dispostas a conversar, debater, entender o nosso ponto de vista. E o mínimo que poderíamos fazer é o mesmo. Mas não, tudo é à base da tiração de sarro, de memes que consigam preencher uma fúria interna com quem não concorda com a sua opinião. Pregam tanto a tolerância, mas jogam debaixo do tapete qualquer tentativa de expressão vindas “do outro lado”.

É uma realidade, uma realidade que eu demorei para compreender e me recusava a aceitar: a esquerda desistiu de colocar argumentos sob a mesa. Quantas vezes vamos perder até perceber que nossos argumentos não passam de insultos e rótulos? Infelizmente, se prefere discutir sobre o mundo tal como gostariam que ele fosse e não como ele realmente é. O resultado está aí: Trump como presidente dos Estados Unidos, Supremacismo branco acendendo das cinzas, Brexit e Marine Le Pen conquistando a população francesa. Se abrimos mão de conversar, se criam as condições para Donald Trump e gente como ele prosperar.

A esquerda continuará a ser indispensável para contribuir para manter viva a democracia e para que se dê atenção aos excluídos. Mas deve ser feito ao lado de todos os outros, sem necessidade de demonizar ninguém. E se continuarmos com essa brincadeira de mal gosto, dessa segregação de ideias, aguarde pelo pior em 2018. Enquanto isso, recuperemos o poder do diálogo com o oprimido, com o opressor e com todos que não pensam como nós.

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