Temer a morte é negar a vida.

“Mas eu tenho medo”, “Não gosto de falar desses assuntos”, “Me incomoda”

Difícil, né? A morte é construída por esses mal-olhares. A inclinação por um pensamento pessimista é esperada, e não é culpa sua. Fomos ensinados a temer a morte, e não a aceita-la. Numa rápida análise pessoal, percebi que foi a proximidade da morte me cercando nos últimos anos que fez com que eu cultivasse mais vividez na minha rotina. É revelador. A minha vontade hoje é de contar tudo sobre mim para as pessoas, conhecer aqueles que eu nunca dei chance de se aproximarem, aprender sobre a cidade e os tipos que me cercam e acima de tudo, dar a liberdade para quem tentou encostar um dedo em mim, mas que obviamente sentiu medo.

O tema é delicado e requer muita maturidade. Norbert Elias disse em 1980 que a morte é um problema para os vivos. Não só para os vivos, mas para os “humanos-vivos” exclusivamente. É o único ser que conhece a existência da morte. Esse reconhecimento leva ao medo, e o medo que nós temos de falar sobre faz com que o debate seja postergado e o assunto, esquecido. Por não saber lidar com o tema, recusamos a sua existência e a sua eminente chegada, dividimos a sociedade entre os vivos e os moribundos. Omitimos o que devia ser ensinado a nós desde pequenos: de que precisamos tratar o falecimento como o fim de um processo, e não o processo para o fim. Já que a sociedade omite a morte, ela passa despercebida, e quando aparece de surpresa — na porta da frente — ficamos em estado de pânico, sem conseguir entender o porquê e sem saber lidar com a situação do falecimento. Encontramos aqui também sob forma extrema um dos problemas mais gerais de nossa época: nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens, exatamente porque a noite do outro é uma lembrança de nossa própria morte.

Essa omissão, sobretudo do Ocidente, traz consequências devastadoras para a sociedade.

Em várias religiões, a morte é um processo transcendente, ela representa um estado latente durante na qual as energias são recarregadas para o renascimento ou uma nova vida. No espiritismo, a morte é um momento em meio a um caminho infinito. Quando alguém morre os espíritas utilizam a palavra desencarnação, que é justamente a separação do espírito de seu corpo físico. Assim, morrer é continuar vivendo em outra dimensão com os sentimentos adquiridos, com a visão espiritual expandida, com os amores, alegrias e saudades do ser, mas também com as imperfeições que não se conseguiu superar no processo carnal.

Mas deixando a religião de lado, como lidamos com a morte? Ou melhor, lidamos com ela a algum momento de nossas vidas?

O compasso histórico revela gradativamente a curiosidade pelos seres, elementos e funcionamento da vida. Somos curiosos por natureza, e também somos evolutivamente complexos, temos essa necessidade de compreender tudo a nossa volta, e tudo vira motivo de pesquisa, e isso é ótimo. Foi com essa curiosidade que descobrimos a gravidade, a radiação, o micro-ondas, o raio x, o marca-passo e a anestesia. As relações sociais, a comunicação e o avanço da tecnologia e da ciência contribuíram para a o progresso e acima de tudo, para o descobrimento de novos aparatos de extensão da vida.

É natural. Quando não possuímos conhecimento sobre um determinado assunto, costumamos estudá-lo e consequentemente abordá-lo com mais propriedade. Porém, as coisas se complicam quando não há como se comprovar os fatos de maneira alguma. O maior obstáculo de estudar a morte é justamente esse: ter alguém com propriedade para contar. O obstáculo se torna impossível de driblar, não há um morto que possa ensinar o vivo, restando apenas estudos e teorias sem embasamento científico comprovado.

Casos como o de NDE (Near Death Experience) são os melhores exemplos desse dilema. Pesquisadores identificaram os elementos comuns que definem as experiências de quase-morte. Bruce Greyson, cientista e professor da Universidade de Virgínia, explica que as características gerais da experiência incluem impressões de estar fora do corpo físico, visões de parentes falecidos e figuras religiosas, transcendência de limites espaço-temporais e principalmente a sensação de paz. Há uma hipótese de que tudo faça parte da programação do cérebro para enfrentar o momento da morte, tornando-o menos difícil e doloroso. A sensação de paz, por exemplo, seria resultado da liberação excessiva de endorfinas diante de uma situação de muito estresse.

Em 2001, pesquisadores holandeses entrevistaram 350 pacientes que, ressuscitados após paradas cardíacas, haviam passado por NDEs. Todos tinham em comum o fato de, por alguns minutos, terem sido considerados clinicamente mortos. O acompanhamento dos pacientes revelou que sobreviver a uma NDE leva a pessoa a mudar radicalmente o comportamento e a forma de encarar a vida. As vítimas dizem não ter mais medo da morte.

Essa reflexão, mesmo que não seja nenhuma resposta para as dores e sofrimentos do processo póstumo, traz um ponto importante à tona: ter medo do que ninguém (e ninguém mesmo) conhece não faz sentido lógico. Podemos ter medo de morrer tragicamente, de se machucar, de sofrer um acidente, de ter tanta adrenalina no corpo em uma situação de risco que o nosso corpo se torna insustentável, de desabar e nunca mais levantar, mas temer a morte em si é negar o que se viveu, negar as experiências acumuladas e memórias guardadas.

A morte só me serve para celebrar o que resta da vida e repensar o rumo que damos a ela. O dia pode ser hoje ou daqui há 40 anos, mas de modo nenhum devemos deixar as palavras não ditas, as coisas desamarradas, as pazes não feitas. Conclua.

E quando doer a morte próxima, se doer, chore. Faça seus rituais se eles te fizerem melhor. Respeite o modo que você lida com a dor. Até um pouco de lágrima ensina a gente sobre as coisas, aproxima quem vive, nos dá um pouquinho mais de força pra ir adiante.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.