Carta a Freud
Os dois filhos menores, que não tinham lá muito contato com o pai, mas cultuavam a presença dele, decidiram visitá-lo no bar localizado no centro da cidade. O bar já havia pertencido ao pai das crianças, fruto de uma herança que recebeu de uma tia rica, mas, sem que ninguém soubesse, ou mesmo perguntasse, ele havia vendido há quase um ano para pagar dívidas de jogo. Todos os domingos o pai fechava o bar mais cedo e encontrava amigos para irem distante quinze quilômetros daquele local, num inferninho à beira da estrada fora da cidade. Além de vagabundas, como eles nomeavam as únicas mulheres que frequentavam o espaço de machos, e acordos de homem em que trocavam até amantes, se presenciava ali uma quantidade de jogos de carta. Mesas distribuídas com baralhos Copag, cachaças, cinzeiros e dinheiro. Valores bastante elevados considerando a realidade social daquela pequena cidade do interior. Nesse ambiente, um bar foi embora e a maior renda daquela família de dois meninos e seis meninas, além de esposa e marido. Dizem que o contrato da escritura do novo dono foi assinado ali mesmo, em uma daquelas mesas com feltro verde, e no papel constava algumas gotas de sangue, pois não é só na caneta que os homens se comprometem. Para não dar pistas à família, o pai das crianças, que já tinha todos os contatos de fornecedores e a freguesia, se contentou em ser um funcionário do estabelecimento.
Sem saber de nada disso, os dois meninos, um de quatro e outro de seis anos, chegaram ao bar. Ao entrarem e darem a benção, ganharam uma bala cada um. Na verdade, o menor ganhou duas e o maior apenas uma. Após dar a recompensa pela visita, o pai começou a descrever os filhos aos outros do balcão. Dizia que o mais novo era inteligente, estudioso, enquanto o mais velho era arteiro e tinha a língua presa. Ninguém deu sequência ao papo iniciado, ou por estarem muito bêbados ou pelo tédio em beberem o dia inteiro. Sem saber como agir diante da cena, o pai pegou o menino mais novo e lhe abaixou as calças. O menino de quatro anos ficou com o pinto de fora em cima do balcão com o pai dizendo: “e vai ser viril, macho, ainda por cima. Esse é meu filho”. Falava do seu pinto, evidentemente. Os bêbados se tocaram ao que estava acontecendo e começaram os comentários e as risadas. Eram risadas de identificação, pois todos eram bastante viris na percepção dos iguais. Mas o menino entendeu como gozação. O que ele sempre aprendeu a esconder, era mostrado a um público de desconhecidos. E o menino mais velho, preterido, se perguntou internamente: e eu não tenho pinto? Quis mostrar que tinha, mas o pai o proibiu. Dali foram embora com o gosto de bala amarga, algo a ver com o perverso.