Marina o tempo do ônibus está…

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É quase meio dia. Algumas pessoas se apressam para ingerir carboidratos e voltar a tempo para um cochilo de leve antes do segundo tempo no trabalho. Hoje nem fui para o colégio. Estou sentado aqui nessa parada de ônibus, vendo o trânsito, escutando um som no celular e pensando.

Escolhi as músicas mais depressivas para acompanhar essa tristeza provocada por Marina. Quando somos adolescentes elevamos a potência máxima todas as nossas inquietações. Meus pais dizem que exagero tudo o que sinto. que preciso ter calma, ainda sou novo, vão aparecer garotas tão boas quanto Marina. É, mas Marina foi especial, tirou minha virgindade, furou-me os mamilos, fez até uma tatuagem com uma lâmina de barbear na minha virilha.

Terminamos. Entendo que ela irá fazer mestrado no Canadá e eu ainda estou no terceiro ano do ensino médio, ora, não consigo me desapegar. O sol hoje está fritando minhas ideias. Em casa não tem condições de raciocinar e pior de tudo meu pai não tem uma arma. Eu não tenho uma arma. Está vendo o exagero das minhas palavras?

A barriga já está pedindo alimento e ainda não me decidi. Passou diversos ônibus e ainda não me decidi. As músicas falam de uma tristeza enlatada, perfeita para o que estou sentindo, na verdade eu não sou corajoso. Deixei bem claro para Marina quando me neguei a pichar uma declaração de amor no alto dum prédio. Ela sempre tirava um bom sarro de minhas fobias: injeções, pugs, choro de recém nascido, daquele metal redondo que é usado nos chaveiros, chuveiros elétricos. Essa mulher me ensinou a superar vários deles, ela será uma brilhante psicologa e eu nem sei ao certo o que vou fazer se passar no vestibular. Sou bom com números, porém meu pai disse uma vez que astronomia não era profissão. 
Olha, passou outro bem vago, numa velocidade adequada.

Se Marina estivesse aqui já teria feito. Eu tenho coragem, problema é que uma frase da música que escutei martelou na minha cabeça — “Não morremos sozinhos.” Imagina o sentimento de morte que o motorista levaria no coração. E se o trocador do ônibus fosse uma mulher? pareceria um acidente?
Hora do almoço é foda, imagina o trabalho dos policias resguardando um corpo? Esperando a pericia judiciária, xingando o moleque tosco que se jogou debaixo de um ônibus, seus estômagos roncando, soltando impropérios na presença de minha santa mãe. O legista descobriria minha tatuagem e riria, ligaria os pontos, diria “que moleque tolo, tantas Marinas e ele aberto que nem porco nessa mesa fria”. Não. Lá vem outra condução, a velocidade é até boa, não está lotado, o motorista conseguirá frear a tempo? Não custa nada tentar.

Minha coragem pode ir para o inferno.