Só deixa fluir

Ou “Não consigo escrever um livro”

Sou apaixonado por literatura. Tenho uma estante recheada de exemplares, dos clássicos a livros de auto-ajuda, quadrinhos avulsos e revistas de crítica literária, sendo que são poucas as obras eu gostaria de ter escrito. Imagino o tempo, o esforço, as dores e dificuldades dos meus autores favoritos, da força de vontade que os moveu a concluírem seus clássicos. A vontade me corrói, mas me sinto tolo quando penso em escrever um livro. Fico assim por imaginar que tal desejo seja um tipo de futilidade, uma atividade egoísta. Fútil porque penso em colocar no papel histórias lotadas de clichês, bem superficiais e preconceituosas. Egoísta pois não penso no leitor, o protagonista da relação com o livro, e sim no quão famoso e intelectual serei caso uma historinha faça sucesso. Das vezes que me sento para rascunhar poemas ou redigir um conto, me sinto culpado. A boa literatura requer muita dedicação, paciência, solidão, paz de espírito, um pézinho na loucura e aceitação. Entender que o produto final tem grande chances de não gerar lucros, de se liquefazer e escorrer pelos ralos do esquecimento.

Não consigo aceitar tais possibilidades. É imoral ser reconhecido pelo trabalho?

Analisando bem, nada ganhei com os textos que produzi, para falar a verdade, eu já gastei mais de $200,00 para que meus contos e poemas fossem publicados. Sem contar os concursos literários aos quais me submeti. O mais desesperador é nunca ter a certeza da qualidade dos meus escritos, se fui lido e compreendido ou se me saí bem nos concursos. E a ironia se apresenta quando realizo que estou gastando dinheiro no exato momento que posto esse texto no Medium.

Atualizar um blog é sacrifício mínimo frente ao de sentar para escrever um livro. Deus sabe como é difícil para mim colocar em prática as ideias que tenho. Eu passo os fins de semana estudando sobre escrita criativa, escrevendo premissas, estruturando os enredos, criando personagens, medindo os versos, procurando ritmo para meus poemas, mesclando conceitos adversos, acumulando papéis na gaveta e arquivos no PC, me matando com café e analgésicos e… e… nada se concretiza. E o sonho fica um pouco mais distante e eu fico mais insone e irado. Posso culpar os fatores externos, como por exemplo, meu trabalho, a faculdade, meus relacionamentos amorosos, o YouTube, WhatsApp, e posso prolongar a lista de desculpas e criar inúmeras justificativas, mas nada colocará letras na mesa, digo, no papel.

O que posso fazer para diminuir o problema?

Escolher um dos diversos planos que tenho guardado, escolher um, só um, mesmo que não seja o melhor, respirar fundo, colocar de lado a necessidade de escrever uma obra prima, esquecer os louros e os lucros, sentar e por o lápis para trabalhar e só dar-lhe descanso no ponto final do final da minha história. Está na hora de aproveitar o processo e esquecer os orgasmos.