Apesar da vida a alegria

Cléber era bom em matemática
O primeiro da turma a decorar a tabuada todinha 
Mas estudar era um regalo para os bem nascidos 
Bem cedo aprendeu que para comer teria de trabalhar.

Não teve a sorte daquela gente nas janelas a lhe observar
Desconfiadas do alto de uma gloriosa empáfia 
Perfumadas a caminho da faculdade Ou do trabalho em alguma repartição pública 
Sonhando com as férias ou com o final de semana num clube ou num bar.

Sob a sombra dos prédios na avenida congestionada 
No canteiro central ao lado dos carros apressados esperando o sinal fechar 
Cléber vendia pipocas, bombons e balas 
Sem férias remuneradas, sem hora para voltar para casa.

As vezes sentava na praça para contar as moedas 
Nem sempre havia moedas para contar 
Cléber sorria quando sentia que era engraçado o que ouvia de algum colega Revelando assim um quê de inocência pura prestes a se apagar.

Um gracejo qualquer sabia divertir seu dia
Um vento fresco que aliviava o calor 
Um "muito obrigado" de algum desconhecido 
Um olhar sem medo, um abraço sincero, o primeiro latido do seu cãozinho Bimbo 
Molho de frango e milho cozido para almoçar.

Coisas que valiam a pena e que ninguém mais parecia valorizar 
Coisas inegociáveis totalmente desprezadas 
Não entendia porque as pessoas simplesmente não conversavam umas com as outras
Porque de repente passaram a lhe evitar ?

Queria ter amigos importantes para mostrar para os pais 
Uma namorada bonita para poder amar, beijar, engravidar e casar 
Entendia de futebol, carros e pipas
E apesar de fria, bem satisfazia 
A comida que trazia na marmita.

Embora abaixasse a aba do boné envergonhado quando revia algum colega da escola, como tivesse queimado a largada, 
Fuzilado por aquele sentimento de frustração e derrota, 
Cléber sabia ser feliz apesar da vida
E a pesar da vida não precisava angariar pena.

Não usava chantagem emocional para fazer-se de vítima 
Melhor do que eu e você, Cléber não deixava-se abalar pelos problemas 
Nunca reclamou do preço da gasolina ou da alta do dólar
E provavelmente nunca saberá que serviu de inspiração para compor esse poema.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.