O náufrago

Não, eu não consigo me lembrar 
Do malogro da saudade as suaves melodias que arranquei um dia 
Faziam-se ouvir nas profundezas 
E de lá por vezes as Nereidas surgiam gratas a suspirar 
E agora tudo me escapa 
Dedos dormentes dedilhando sem paixão nenhuma 
Foi quando aprendi a dividir os peixes daquele portentoso mar 
Mais precisamente ao resgatar numa jangada alguém que alí sucumbira 
Antes da pesca tornar-se predatória 
Antes até desse abismo a céu aberto nos tragar 
Não, não consigo me lembrar 
Sei que aos poucos a quietude solitária da ilha passou a incomodar mas não mais que toda aquela gritaria 
Tambores e flautas celebravam as benesses de uma ambundante colheita ao redor da fogueira 
Colheita que já em mais nada me satisfazia 
Fogueira cujo o calor já não mais me aquecia 
Não, não consigo me lembrar 
Foi em honra à deusa da fortuna que ergueram uma ruidosa glossolalia 
Cada qual disposto a medir a fé no incogniscível pela altura de suas vozes acaloradas ou de suas harpas distorcidas 
Os ébrios hedonistas só dançavam para celebrar a satisfação de desejos egoístas 
A lua preenchia a noite com seu toque mágico, revestindo-a em um translúcido acalanto a perder-se de vista 
E agora nada havia daquela necessidade poética onde contemplar a natureza era quase como discernir o inefável 
A disputa pela atenção das sereias enchia-me de enfado 
Custava-me mesmo aceitar o sincero abraço do zéfiro que indiferente permanecia a soprar 
Não, não consigo me lembrar 
Então deito-me quieto na areia, imóvel feito uma tábua 
Tal qual da embarcação, os restos que espatifou-se antes de alcançar a praia...só isso e mais nada!