O Quadro

O prego não ofereceu resistência alguma
Liberto das leis da gravidade
Estático numa comodidade sem par
Desnecessário meus dedos ali em vão
Buscavam mante-lo equilibrado
Era de todo um exercício fútil
Não obstante o fenômeno inusitado
A hilaridade fez-me num riso soçobrar.

“O quadro ali de um lado
Preciso o golpe pesado
Três marteladas para fixar
O poeta e seu agourento pássaro
Um ao ouvido do outro a confidenciar
Crocitações de além vida
Aninhados murmúrios de desdita”.

No umbral da porta sempre a sondar
De todos os meus convivas o dorso
Tramando ofensas ou elogios
Das pessoas a alma à perscrutar
Para umas poucas:
“Voltem sempre, sejam bem vindas”
Para outras tantas:
“Teus pés, aqui não mais irão pisar”