O senhor das memórias esquecidas

As I want you to be 
As a trend, as a friend, as an old memory.*

Aquele senhor austero trajando terno estendeu as mãos de dedos delgados até os ombros do rapaz de pé entre as poltronas e perguntou :

Qual sua memória mais remota?
Assim do nada fica meio difícil dizer.
Relaxe e pense, sente-se confortavelmente e tente se lembrar!
Aonde quer chegar com essa pergunta? 
Há lugar nenhum, só quero dialogar.
Certo, vejamos o que posso fazer. 
Ok, ok...quando estiver pronto é só começar.

Ajustaram o cinto ao redor da cintura e enquanto a aeronave levantava vôo o sujeito de terno enchia de ar as bochechas numa tentativa de evitar o efeito da pressão nos ouvidos. 
O outro simplesmente divagava compenetrado no encalço de qualquer reminiscência tardia sem se quer notar que já haviam estabilizado a aeronave e voavam equilibradamente há alguns pés do solo.
A expectativa da chegada e pouso era de duas horas e meia, conforme a voz entrecortada do co-piloto informara. 
Com a atenção devidamente presa por aquele inusitado trabalho de remontar qual detalhe ficara tão bem talhado a ponto de estar calcificado na memória, nem notara o tempo rápido se arrastando, trinta minutos já haviam transcorrido. 
Olha, foi complicado mas acredito que consegui.
Olha só, que bom! Então o que está esperando? Prossiga pois quero muito ouvi-lo. 
Lembro-me do berço, as grades ao redor e através delas a silhueta de alguém se aproximando, era um rosto grande e um sorriso que cobria o mundo inteiro, impossível descrever precisamente o fato de ser contagiado por aquela alegria tão pura, verdadeira e doce, era algo extremamente agradável. Aquelas mãos imensas conduziam meus pés minúsculos até a boca, uma vez alí recebiam suaves mordidinhas que causavam-me prazerosas cócegas. 
E quem era? 
Acho que era meu pai, ele abandonou minha mãe quando eu era ainda muito jovem, não tenho certeza. 
Que linda memória! 
Se você está dizendo, mas há algo, algo estranho, no que cavei tal lembrança outras surgiram do nada. 
Interessante, então teremos mais sobre o que conversar. Sou todo ouvidos!
Certo, eu ainda estou no berço, e pequenas luzes verdes de uma tonalidade fluorescentes tomam forma humana e sobem pelo meu corpo , mas eu não estou assustado, esses pequenos seres luminosos brincam comigo e passam a visitar-me constantemente e o dia que faltam é um dia triste e de tédio, só compensado pelo favor amoroso daquele rosto que também sabia alegrar-me. Até que de certa feita eles despediram-se, e embora não fosse possível saber de antemão o significado daquilo, a dimensão da dor e do vazio que causaram-me ao resolverem partir, deixou-me desconsolado e lembro-me bem que nem as subsequentes visitas daquele rosto conseguira apaziguar meu pranto. 
Uau, isso realmente foi estranho, poderia ter sido um sonho? 
Não, sem chance, essas coisas desde sempre sabemos diferenciar.
Entendo, entendo, só tentando uma alternativa para o relato tão incomum.
Claro, é o que fazem as pessoas sensatas. 
E olha, lembrei-me de algo mais. Um pouco maior na chácara de um conhecido, as crianças estavam reunidas, na ocasião eu devia contar com uns quatro anos e éramos um grupo de seis garotos. Eu, meu irmão, o filho do dono da chácara, mais dois primos e um amigo deste último. Encontramos uma garrafa com um diabinho dentro e abrimos sob uma mesa de madeira que ficava nos fundos da propriedade e servia de almoxarifado, era ali que os adultos guardavam entre nossas bicicletas, skates e patins um amontoado de ferramentas e materiais de construção. O diabinho dançava , pulava, sapateava e batia palmas e aumentava o ritmo conforme nossas risadas ficavam mais intensas e descontroladas, e a pesar dos risos e da aparente alegria, sabíamos que fazíamos algo errado. E a questão é que depois do filho do dono da chácara dizer que deveríamos guarda-lo novamente na garrafa e sairmos rápido porque seus pais estavam vindo, tudo ficou escuro, nublado e confuso até hoje aqui nesse vôo ao forçar-me a lembrar. É tão pouco provável que seja algo verídico, mas tão pouco creio que tenha implantado tal ideia motivado por uma impressão externa. 
Você tem testemunhas , pode confirmar com os outros que estavam contigo na chácara a história do diabinho. E ele simplesmente aceitou entrar novamente na garrafa? Não tentou barganhar através de promessas a chance de manter-se livre do lado de fora? 
Não sei, o que sei é que irei ligar para meu irmão, tão logo desembarcar.

Faça isso meu amigo! Faça isso! 
Com o tempo favorável o avião pousou como o previsto e os dois sujeitos desembarcaram rumo à esteira das bagagens dentro do aeroporto. Ambos caminhavam juntos sem contudo entabular qualquer diálogo, um deles estava ao celular, parecia entretido em algo sério a julgar pelo tom de gravidade que a face sustentava. O de terno recostou suavemente a mão no seu ombro direito e afastou-se sem qualquer mesura.

Mano, então, eu ia enviar áudio com uma perguntar sobre algo, mas já não sei o que era. Simplesmente deu-me um branco, mando outro áudio novamente assim que lembrar. 
Dito isso notou de soslaio o dorso esguio do homem apático que se afastava a poucos metros, tentou não dar a devida importância contudo voltou-se porque pareceu-lhe um rosto familiar, era um rosto grande e quadrado como os de uma estátua antiga. Estava a puxar da esteira uma valise preta que abrira vagarosamente, colocando cuidadosamente algo ali e como que a fim de verificar se algo sumira de dentro da mesma, o que fosse que guardava, pareceu emitir leves reflexos de claridade esverdeada em seus olhos negros e profundos.
Ei, eu te conheço de algum lugar? 
O homem que antes passara duas horas e meia sentado na poltrona ao seu lado estancara o passo, fitara-o com curiosidade dissimulada, não sem antes fechar rapidamente a valise e falar: Não que eu possa me lembrar! 
Despediram-se cordialmente com um aceno e sorrindo do ocorrido , o outro continuo seu caminho ainda com o celular em mãos, aturdido e confuso. O senhor com a valise deixou-se sentar ao lado de uma moça que aguardava impaciente o horário de embarque, repousou delicadamente a mão no ombro da mesma e perguntou com uma voz quase sussurrada: Qual sua memória mais remota?

*Trecho da música come as you are do Nirvana.

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