Só as mães são felizes

Mãe, vou dormir na casa de um amigo.
Bjs!
Ps:.
Não esquece de recolher minhas roupa no varal😉

Terminava assim sua última mensagem enviada.
Ainda há pouco antes de fazer o backup e esvaziar a memória do celular ( já não consigo mais carregar tanta coisa, já não suporto tanta coisa acumulada) a única certeza que eu tinha era a de que jamais te esqueceria. 
" Não esquece de recolher as minhas roupas...".
Não sei se já estavam secas mas sei que naquele dia elas molharam sem ninguém recolhe-las, caiu uma chuva e quando dei por mim já era noite e a impressão que tive era a de que haviam se passado dias dentre o momento que li seu recado e a notícia do que ocorrera. 
No hospital olhando as gotas baterem e escorrerem pelo vidro da janela, a necessidade de ater-se a uma fagulha exígua de esperança tomava o lugar da comoção inicial, mas não tardou e o comboio de pensamentos positivos fora dizimado pela presença abrupta do médico responsável pelo processo cirúrgico de emergência. Adentrando a sala de espera da urgência, silenciosamente e cabisbaixo num prenúncio antecipado de lamento comedido, despertando inquietação e desespero em todos os familiares e amigos que aguardavam por alguma notícia sua. Infelizmente não foram notícias boas, os traumas adquiridos a partir das pancadas e do tiro atingiram regiões vitais responsáveis pelo funcionamento do sistema nervoso central, naquela altura você já respirava através de aparelhos e a julgar pelo aspecto cansado e desiludido do médico e pelo conhecimento empírico do peso daquelas palavras desprovidas de indulgência, era fácil compreender o que aquilo significava. 
Nos dias seguintes a foto sua ao lado das imagens de você sendo covardemente espancado, transmitidas e compartilhadas exaustivamente tomaram as redes sociais. Os ávidos urubus carniceiros midiáticos não pouparam nem mesmo a mim, sua própria mãe; enviando-me como fizessem um favor o vídeo do seu martírio. 
Aquilo ocorreu porque se vestia como mulher, porque se portava exageradamente de modo afeminado, porque nunca teve medo de admitir e assumir que era homossexual, muito embora nosso ressentimento inicial em ter que aceitar sua opção, muito embora tantos "amigos" tenham se afastado, muito embora os discursos de ódio e preconceito encobertos por jargões morais e religiosos. Premissas por demais frágeis para se sustentar, às vezes gostaria que tivessem te surpreendido cometendo algum crime horrendo desses cuja a legislação carece de pena suficiente eficaz a fim de satisfazer nossa sede por justiça, abrindo um precedente informal para a banalização da violência nesses casos em que a arbitrariedade toma o lugar do pressuposto legal. Mas não, lamento que o seu grande crime tenha sido o de simplesmente viver à margem de um padrão social aceitável.
As imagens que salvei na minha memória não são aquelas de você sendo torturado e sim as do bebê ainda de fraldas dando seus primeiros passos, as do garoto sorrindo ao aprender a andar de bicicleta, dando-me um abraço apertado quando voltava cansada do trabalho, do adolescente alegre que sempre fazia-me sorrir. 
Por certo as pessoas que te cercaram aquele dia fatídico jamais conheceram esse seu lado, o que não serve de justificativa para o mal que lhe causaram. Mas gostaria que elas soubessem o quanto você era estimado e amado, o quanto você era especial e importante para a mim, que soubessem quão tremendo orgulho eu tinha em tê-lo como filho, que soubessem do vazio que ficou em meu peito, da dor que não tem fim.

PS:. Recolhi, passei, dobrei e guardei suas roupas no lugar de sempre.