
Namore uma amiga
Ela era alguém que já admirava e respeitava, mais respeitava do que admirava porque era casada e eu também; bem como admiro e respeito várias outras mulheres do meu ciclo de amizades, até aí espero ter elucidado bem a questão de que não havia nem sombra de interesse.
O fato é que inadvertidamente nossos planos são frustrados e aquela imagem de amor ideal é substituída por inequívocos conflitos de interesse que desgastam definitivamente a relação, um fenômeno natural que não podemos de forma alguma prevenir ou remediar ou o tipo de coisa que simplesmente acontece. Assim sendo trocando em miúdos, desconsiderando toda a fase de angústia, mágoa e desespero ( para ser preciso, três meses que pareceram séculos) meu casamento acabou, foi para o beleléu, foi para o brejo.
Sorvendo a dor ao máximo a fim de (parafraseando Neil Young) "queimar de uma vez por todas ao invés de apagar aos poucos"- Hey Hey My My, resolvi me afastar de tudo, e erguer meu muro de isolamento pessoal tal qual o Pink no The Wall. Na companhia da insônia eu redigia tratados sobre a solidão nas madrugadas enquanto o dia lá fora surgia sem nem se quer notar, pela primeira vez em anos seria apenas eu com aquelas vozes que eu tanto abominava, tudo girava ao meu redor numa constância imperceptível e automática. Preenchia a cabeça com meus treinos, minhas leituras, meus textos, minhas músicas, mas nada disso parecia de fato adiantar.
Passeando despercebido pela timeline do Facebook numa noite dessas vi uma postagem dela comparando uma imagem antiga com outra recente ( em ambas ela estava linda). Mais do que depressa curti e mandei mensagem no Messenger parabenizando pelo empenho em ousar mudar elogiando sua determinação, ela agradeceu educadamente, falamos sobre dietas, treinos e música e a conversa morreu. Até então ela não sabia que eu havia me divorciado, até então embora soubesse que ela também já não estava mais casada havia uma singularidade de princípios básicos que limitavam qualquer diálogo mais aprofundado, eu só queria conversar com alguém que não me visse como um fracasso ambulante, com quem eu não precisasse forjar interesse, ser apenas eu mesmo. Por ter igualmente experimentado uma boa dose daquele martírio da separação ela soube exatamente usar a fórmula certa na hora certa trazendo uma estranha sensação de leveza e paz ao meu espírito conturbado. Os dias foram passando e o que então havia começado como meros diálogos ocasionais transformou-se em extensas confissões pessoais baseadas numa confiabilidade mútua. Eu já havia conversado e me exposto tanto para aquela garota, pela primeira vez tive o prazer de poder conversar a noite inteira com alguém que me compreendia de verdade, ela era de fato uma grande amiga, uma pessoa a quem eu continuava a respeitar e agora se tornava cada vez mais admirável e amável , era natural querer encontrá-la ao menos para poder abraça-la e agradecer toda aquela ajuda, afinal ela foi a incidência luminosa em minha hora mais sombria, era bom poder sentir que eu não era descartável. Fiz questão de presente-la com um quadro do Johnny Depp ( resquício tardio do frenesi da adolescência que perdura , ela vai me matar por escrever isso) no seu aniversário, e um colecionável do personagem do Rick do The Walking Dead, mas com a condição de que deveria ir ao meu apartamento buscar ( malandrinho nem um pouco o cara). E aqui abro um parênteses para revelar algo que ela ainda não sabia até ler esse texto, no dia que sai para comprar o presente eu a vi no shopping mas fiquei anestesiado observando-a de longe sem ela me notar, não era só vergonha ou medo, era algo como a certeza de que algo nela me atraia a ponto de não saber me controlar, simplesmente não fui cumprimenta-la eu estava com os presentes na sacola, mas de alguma forma sabia que ainda não era a hora certa ( desculpa não ter dito isso antes, achei que você iria rir da minha infantilidade).
Entre os dias 13 e 15 de maio de 2016 iria rolar o Bananada na cidade de Goiânia, o evento daquele ano como sempre traria várias atrações interessantes, não podendo comparecer a todos os dias devido ao meu precário estado financeiro, optei por ir no último dia do festival que daria no domingo, a desculpa era para ver a apresentação de uma das bandas mais icônicas da minha adolescência o Planet Hemp, contudo na verdade era o dia que ela estaria menos cansada do trabalho e poderia ficar até mais tarde porque não trabalharia no dia seguinte.
Eu que já não suporto aglomeração de pessoas e encontrava-me em tal estado de insociabilidade latente , decidi sair porque sabia que ela também estaria por lá, cheguei com um casal de amigos, encontrei mais alguns e comecei a beber e etc. Em dada altura no meio da multidão novamente aquela sensação de impotência, observando-a de longe, camiseta do Star Wars preta com o umbigo de fora, no meio da multidão sem saber ou dar pela minha existência ( sim, eu te vi antes e de novo fiquei neutralizado refletindo sobre o poder da sua influência).
Depois de algum tempo, já havia desistido até de cruzar com ela novamente, mil e um pensamentos cruzavam minha cabeça. E se ela está aqui para curtir e eu estou atrapalhando? E se ela já me viu e se arrependeu do que viu e só quer esperar a noite acabar para ir embora? De qualquer forma eu ainda teria os livros no meu quarto para viajar e entregaria o presente em ocasião propícia, ou talvez nem entregasse dependendo das nossas próximas conversas, sei lá , eu estava muito confuso e assustado. Após onze anos casado eu já não sabia mais o que era flertar e amedrontava-me a ideia de causar-lhe uma impressão equivocada, 33 anos nas costas e agindo como um garoto abobalhado. Enquanto a divagação fluía na minha mente convulsa e já um cadinho ébria, meu amigo se aproximou e disse : ela tá atrás de você!
Entre virar e cumprimenta-la com um beijo no rosto e depois beija-la na boca foi tudo muito rápido, e no fim das contas aquele sentimento de atração inevitável que eu temia era tudo que eu precisava para vencer os fantasmas que ainda insistiam em me assombrar, o tempo realmente parou no instante em que olhei dentro daqueles olhos castanhos, escutei o som da queda de cada tijolo do muro que erguera. O show acabou, a música silenciou, as pessoas a minha volta sumiram todas. Eu só tinha ouvidos para uma pessoa, eu só tinha olhos para uma pessoa.
Ficamos ali abraçados espantados com o inusitado do acontecido, eu simplesmente a ataquei como ela bem gosta de colocar. Lembro-me que pouco depois fui ao banheiro e pedi que me esperasse mas eu estava tão bêbado (sóbrio meu senso de direção já é bem fodido) que não consegui encontra-la. Fiquei preocupado, aborrecido comigo mesmo, achei que havia perdido a chance de despedir-me e com isso a chance de poder voltar a vê-la ( bêbado é uma miséria). Mas para a minha sorte e total felicidade ela foi lá no apartamento buscar o presente ao findar de alguns dias e eu ganhei o melhor dos presentes que é te-la ao meu lado uma namorada que a cima de tudo também é minha grande amiga, porque bem sabemos que o amor é uma amizade que nunca termina.
