Empreender: a arte de administrar o próprio negócio. O resto é papo furado.

O assunto mais comentado da semana foi sobre o empreendedorismo e seus produtos emocionais oferecidos em grande escala no mercado do empreendedorismo de palco. Uma coisa é incontestável sobre os produtos desse mercado: há um oceano azul de oportunidades! Mas o que não podemos, é misturar as bolas: uma coisa é auto ajuda, outra bem diferente é empreendedorismo.

Um ponto que precisa ficar bem claro: em momento algum estou desqualificando a importância da motivação e da inspiração, afinal, os indivíduos tem suas singularidades. Uns precisam ler e ouvir frases de efeitos, já outros, mesmo com as dificuldades, o simples fato de acordar com saúde é o suficiente para criar aquela energia propulsora. Cada um é livre para produzir e consumir o que bem entender, desde que seja lícito.

Mas, afinal, o que é empreender?

O glorioso Google responde para nós:

Fonte: Google

Empreender é um verbo. É decidir, realizar, tentar, executar. Quem desenvolve esses produtos de auto ajuda são exemplos de empreendedores que são REALIZADORES, enxergam uma demanda e aproveitaram um nicho de mercado inexplorado de SONHADORES, entregando bons produtos que agregam para o EMOCIONAL dos consumidores. Num país em que há tantos picaretas roubando e matando, como nós poderíamos criticar pessoas que inspiram e incentivam indivíduos a partirem para o empreendedorismo? Em hipótese alguma essa é a questão. Jamais faria uma loucura dessas.

Minha crítica principal é a maneira no qual esse incentivo ao empreendedorismo é vendido, muitas vezes causando ilusões e enchendo bolsos de gurus.

O empreendedorismo, em sua essência, sempre existiu ao longo da história – muitos períodos sem esse nome como conhecemos hoje, mas com sua prática. Nesses últimos anos estamos vendo um "boom" no mercado.
Representação de navios mercantes. Fonte:http://imperioroma.blogspot.com.br

Hoje, o empreendedorismo representa para nós o que o concurso público representava para nossos avós. No passado, as bancas e livrarias eram entupidas daqueles livros para concursos públicos, com questões comentadas, provas anteriores resolvidas e todo tipo de conteúdo técnico que preparasse o indivíduo para acertar o máximo possível de questões para obter uma boa pontuação e conquistar a classificação.

Agora eu te pergunto, quem estava mais preparado para resolver aquela prova e conquistar a vaga: o indivíduo que estudou os conteúdos técnicos (português, matemática, história, química …) ou aquele outro que passou semanas estudando "Doze passos para passar no concurso público: 1.Durma bem. 2. Coma bem. 3. Beba bastante água …).

Algo muito similar está ocorrendo no empreendedorismo. Há uma distorção e confusão muito grande em cima desse conceito, que acaba impactando, negativamente o mercado.

Empreender não é filosofar. Pelo contrário, é agir. Inegavelmente quem vende 'auto ajuda' É EMPREENDEDOR. São pessoas com empresas criadas, que utilizam-se de ferramentas para desenvolver produtos, estratégias de comunicação para atrair seguidores, e por fim, realizam suas vendas. E não haveria absolutamente NADA de errado nisso se não vendessem com a embalagem errada.

Mas a questão que levanto é: se tiramos todas essas pessoas do palco, apagar a memória delas e coloca-las sentadas na plateia junto com todos inciantes para aprender através de um avatar deles projetado no palco que reproduz o mesmo conteúdo. Será que vão conseguir desenvolver empresas de sucesso?

Existe uma diferença enorme entre INCENTIVAR A AGIR e AGIR.

Imaginemos o futebol. Suponhamos que desenvolvi um produto para os jovens que sonham em se tornar jogador de futebol, e distribui no mercado. A essência do conteúdo é apresentar a história e trajetória dos melhores jogadores do mundo. Através da trajetória difícil e das conquistas no meio do caminho de muitos jogadores de sucesso, quero incentivá-lo a correr atrás, mostrando que se o Pelé alcançou aquele patamar, ele também pode.

Até nesse ponto, não haveria nada de errado. AH não ser que …

O jovem nem percebe, no calor do êxtase da esperança em ler histórias de sucesso, já se imaginando um jogador de sucesso, esqueceu de um pequeno detalhe: o produto não ensina como chutar, cruzar, marcar, correr. Não diz quais são as melhores chuteiras, caneleira e bola. Não dá um treinamento físico.

Com a falsa sensação de que está preparado para encarar um mercado extremamente competitivo e impiedoso – onde há players que treinam por dia 1.000 chutes, 500 cruzamentos, 800 desarmes, tinham as melhores chuteiras e caneleiras, treinando com as melhores bolas, e corria 10km, 100 flexões e 200 abdominais –, incentiva os pais a pegarem um empréstimo para pagar as inscrições e viagens para participar de diversas peneiras por clubes do Brasil.

Resultado final?
O sonho e a esperança transformaram-se em pesadelo.

Essa é a história mais comum que se repete constantemente no mundo dos negócios.

O Brasil vive uma grave crise de gestão , tanto política como privada.

Empreender é AGIR. Gerenciar é AGIR. Empreender é gerenciar, é a arte de administrar seu próprio negócio.

O empreendedor precisa de TÉCNICAS e não de HISTÓRIAS. Sua marca, precisa de história para vender no mercado, mas o empreendedor precisa de técnicas para consolidar sua marca no mercado.

Uma coisa é o que os empreendedores QUEREM ouvir. Outra bem diferente é o que eles TEM que ouvir. É muito mais confortável aos ouvidos ficar sentado ouvindo a brilhante história de sucesso do Walt Disney, do que chama-los numa sala e ainda COBRAR, para aprenderem a criar um SOLVER no Excel, que poderá salvar seus respectivos negócios.

VALE RELEMBRAR O ENSINAMENTO DA PRIMEIRA IMAGEM DO TEXTO!

Dados do Sebrae sobre empreendedorismo:

  • 34% da população brasileira adulta é empreendedora;
  • Sonhos do brasileiro: 1. casa própria; 2. viajar; 3. negócio próprio;
  • 99% das empresas no Brasil são MEPs ;
  • Representa 20% do PIB;
  • Representa 58% dos empregos formais;
  • 50% fecham em até 2 anos;
  • 60% fecham em até 4 anos.

FALTA DE CONHECIMENTO É O PRINCIPAL MOTIVO PARA DE FALÊNCIAS:

  • 46% dos empreendedores afirmam que abriram o negócio sem conhecer os hábitos de consumo dos clientes e o número de clientes que atenderiam;
  • 39% ignoravam qual era o capital de giro necessário para abrir o negócio;
  • 38% desconheciam quantos concorrentes teriam;
  • 55% dos empreendedores não planejaram nada da empresa.

Fonte: SEBRAE/SP

Enquanto o empreendedorismo for tratado como um palco de circo e não como uma sala de administração, as coisas tendem a piorar cada vez mais.

Não é por um acaso que só o Google e Apple, sozinhas, valem mais que todas empresas brasileiras listadas na bolsa de valores juntas.

Nos EUA existe empreendedorismo de palco? Para caramba, só que a diferença crucial é que o americano foca no resultado, sabe que precisa de técnicas para crescer. E pelo que tem mostrado os dados do relatório do Sebrae, o brasileiro acha que apenas ficar emitindo vibrações positivas para o universo basta, e que os resultados cairão do céu assim como a chuva.

SUCESSO é sinônimo de conta bancária?

O que é sucesso para você? Será que apenas observar os resultados finais ($$$) de indivíduos pela internet, sem analisar todo um contexto, é um parâmetro correto para seguir fielmente?

Um pessoa com bilhões na conta, é bem sucedido? Outro cidadão com algumas dezenas de reais na conta não é bem sucedido e não serve como parâmetro para o empreendedorismo?

Logo isso significaria que o todo poderoso André Esteves, dono de um patrimônio de 2.3 BI de dólares, merece ser colocado no pedestal e ser seguido por todos jovens brasileiros? Mesmo após os escândalos de corrupção absurdos no qual ele está envolvido com o Estado?

E que o feirante, gigante e brilhante trabalhador, que acorda de madrugada e paga uma fortuna de imposto, não merece ser um exemplo para os jovens empreendedores por não possuírem uma conta bilionária?

Quer aprender sobre empreendedorismo?

Vá comer um pastel na feira. Vocês aprenderão muito mais sobre empreendedorismo do que 90% dos cursos que existem pelo país.

Há um problema evidente no Brasil: deficiência administrativa. E empreendedorismo é ADMINISTRAÇÃO.

É um alto nível de hipocrisia argumentar que administração não é fundamental. Nenhum empreendedor prosperou sem ter em volta grandes administradores do lado.

Ter uma ideia é fácil. O difícil é rentabiliza-la!

Não adianta nada o indivíduo ficar três horas escutando a história do Steve Jobs que foi mandado embora da própria empresa, ou então, que o Walt Disney foi mandando embora do jornal em que trabalhava porque não tinha criatividade, se não sabe desenvolver nem um fluxo de caixa, ou então, não faz ideia do que seja capital de giro. Toda essa inspiração, virará lágrimas naqueles dois primeiros anos de vida da sua empresa, como mostra os dados do Sebrae. Não há mal algum em saber essas histórias. Mas há um mal maligno em saber essas histórias.

O maior problema existente no mercado é que os consumidores enxergam nesses produtos de auto ajuda – inspiração, motivação .. – uma solução que os guiará no desenvolvimento de suas empresas. Esses produtos estão sendo comercializados na embalagem errada, não é empreendedorismo.

É como uma Dolly Cola sendo vendida numa garrafa de Coca-Cola. A pessoa compra com uma expectativa, mas na hora que vai pra ação de tomar um gole, se ferra. O cara é incentivado a assumir os riscos com aquelas frases de efeito: "Um navio no porto é seguro, mas não é para isso que os navios foram feito", mas esquecem de avisar que o navio precisa de combustível para navegar. Traduzindo, por exemplo, o cidadão não sabe a diferença nem entre custo e despesa, não sabe o que é capital de giro. Controle de estoque então …
Já que apontei os problemas, segue uma visão de uma possível solução no qual acredito que seria o pontapé inicial para começar a criar uma nova cultura administrativa, criando bases sólidas no empreendedorismo brasileiro. Fazendo com que no longo prazo, tenhamos empresas do nível do Google, Facebook, Apple, Microsoft, Amazon …

Algumas das maiores empresas norte americanas foram criadas por empreendedores que simplesmente largaram grandes universidades. E muitos deles, nem administração cursavam. Então, de onde vem essa capacidade administrativa para criar e ser o CEO de uma empresa que muda a vida de bilhões de pessoas pelo mundo?

Desde cedo, as crianças americanas já são apresentadas ao empreendedorismo, a educação financeira e a arte. Respeitando cada fase da vida, programas educacionais são desenvolvidos para estimular capacidade desses indivíduos. Enquanto nossas crianças brincam de lojinha sem nem saber o que estão fazendo, por lá eles já começam a brincar de empreender, inclusive tendo noções básicas financeiras do tipo comprar e vender.

O primeiro passo, é uma reformulação total no sistema de ensino brasileiro, que está completamente defasado e deixando nossa população e nossas empresas em grande desvantagem competitiva em relação ao mundo.

O governo brasileiro já atrapalha demais a vida do brasileiro, tanto no avanço intelectual como no avanço econômico. A nossa obrigação, como pessoas ligadas ao mercado é PREPARAR EMPREENDEDORES para enfrentar o mercado. Muito mais importante do que ficar dando gritinho com as mãos pra cima sentado na plateia, é ensinarmos como arregaçar a manga para ganhar competitividade.

No empreendedorismo, vender esperança é uma covardia. O empreendedorismo precisa vender ferramentas, planos de ações e resultados. Participar de um curso que faça você toda manhã se olhar no espelho e dizer “sou um sucesso” não encherá a barriga da sua família. Mas um curso básico de finanças, ou então de gestão de produtos, contabilidade, marketing, esses não apenas encherão a barriga dos seus filhos, como vão proporcionar que eles entrem numa aula de ballet, futebol, piano, inglês, ou então comam no McDonald`s, ou um Danone gostoso.