Os ganhadores do livre comércio devem compensar os perdedores?

Os candidatos a políticos geralmente dizem que o governo deveria ajudar aqueles que são prejudicados pelo comércio internacional. Neste artigo, o economista afirma o contrário.

Tradução do artigo publicado por Steven E. Landsburg; New York Times 16/01/2008.

O QUE SE ESPERAR QUANDO SE FAZ PARTE DO LIVRE COMÉRCIO?

Alguns dias antes das eleições primárias para presidente, em Michigan, Mitt Romney e John McCain discutiram sobre o que o governo deve aos trabalhadores que perdem o emprego em virtude da competição estrangeira desencadeada pelo livre comércio. O discurso diferia — Mitt Romney afirmava que "lutaria por cada vaga de emprego", enquanto John McCain dizia que algumas ocupações "não existirão mais" –, mas as políticas propostas eram notavelmente semelhantes: educar e treinar os trabalhadores para novos empregos.

Todos economistas sabem que, quando um serviço é terceirizado, o americano em geral é o vencedor final. O que se perde por causa de salários baixos é mais que compensado por aquilo que se ganha com os preços menores. Em outras palavras, os vencedores têm condições de compensar os perdedores. Isso significa que devem fazê-lo? Isso cria uma questão moral para os programas de retreinamento subsidiado pelos contribuintes, como propõem John McCain e Mitt Romney?

Não necessariamente. Mesmo que você tenha acabado de perder o emprego, é um tanto grosseiro culpar o mesmo fenômeno que o colocou acima do nível de subsistência, desde o dia em que nasceu. Se o mundo lhe deve uma compensação por enfrentar as desvantagens do comércio, o que você deve ao mundo por usufruir das vantagens?

Duvido que exista um único ser humano na face da Terra que não se tenha beneficiado da oportunidade de negociar livremente com os vizinhos. Imagine como seria a vida se você precisasse cultivar a própria comida, fazer as próprias roupas e depender dos remédios caseiros de sua avó para cuidar da saúde. O acesso a um especialista pode reduzir a demanda por remédios caseiros, mas — principalmente na idade em que está — ela tem muitos motivos para agradecer por ter um médico.

Algumas pessoas sugerem, contudo, que faz sentido isolar os efeitos morais de uma oportunidade de comércio exclusiva, ou um acordo de livre comércio. Certamente há cidadãos que são afetados por esses acordados, pelo menos no sentido limitado de que estão em melhor situação em um mundo onde o comércio prospera, exceto nesse caso. O que devemos a essas pessoas?

Uma forma de analisar isso é perguntar o que dizem os instintos pessoais em situações semelhantes. Suponha que, depois de comprar um xampu na farmácia perto de sua casa durante anos, você descobre que pode comprar mais barato pela internet. Você tem obrigação de compensar o dono da farmácia? Se você muda para um apartamento mais barato, tem obrigação de compensar um proprietário? Quando faz um lanche no McDonald`s, deve compensar o proprietário do restaurante ao lado? As políticas públicas não devem ser projetadas para confrontar os instintos pessoais que rejeitamos cada dia que vivemos.

De que maneira moralmente relevante, então, os trabalhadores desalojados são diferentes do dono da farmácia ou do apartamento, que também são desalojados? Você pode argumentar que essas pessoas sofrem de interessante competição acirrada e que, assim, sabiam no que estavam se metendo, enquanto décadas de tarifas e cotas fizeram que os operários esperassem proteção mínima. Essa expectativa fez que o desenvolvessem certas habilidades, e agora não é justo puxar-lhes o tapete.

Mais uma vez, esse argumento não afeta nossos instintos normais. Há muito tempo, ser o valentão na escola é uma ocupação lucrativa. Em todos os Estados Unidos, os valentões desenvolveram habilidades para tirar vantagem dos mais fracos. Se mudarmos as regras para fazer que isso deixe de ser lucrativo, devemos compensar os valentões?

Valentia e protecionismo têm muito em comum. Os dois usam a força (diretamente ou por meio das leis) para enriquecer alguém à sua custa, involuntariamente. Se você é obrigado a pagar $20 por hora para um norte-americano por produtos que poderia ter comprado no México por $5 a hora, você está sendo extorquido. Quando um acordo de livre comércio permite comprar do México, comemore a liberdade, mesmo que John McCain, Mitt Romney e outros candidatos à presidente não queiram.

Artigo original, em inglês:

http://www.nytimes.com/2008/01/16/opinion/16landsburg.html?ex=1358226000&en=80d74b0483206f05&ei=5124&partner=permalink&exprod=permalink&_r=0