Autoflagelo: o porquê tomo banho gelado

Thiago Yukio

Se você procurar na internet os benefícios do banho gelado, logo vai encontrar: melhora a circulação, drena o sistema linfático, aumenta a imunidade, emagrece, dá super poderes, entre outros.

O normal é que dispare o seu alerta cético na cabeça. Se não disparou, cuidado! Existe muita bullshit (em bom português: groselha) na internet.

“Está na internet, então é verdade”

- Karl Marx, fundador da Ford

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Imagino que o que mais chama atenção do público geral é a parte do emagrecimento. Sempre somos assim. Queremos alcançar as coisas sem esforço. Meu amigo, os humanos tem uma potência de 80W. Se o calor produzido durante os 5 minutos de banho dobrar, você só vai queimar 5 kcal a mais (talvez equivalente a meia batata frita). Se realmente quiser emagrecer, compre aquelas máquinas da Polishop que vibram enquanto você não faz nada. Aí sim vai funcionar.


O primeiro banho

É incrível ver como a nossa mente muda completamente a forma de pensar dependendo da situação. Eu me propus a tomar banhos gelados por 1 mês: de 10 de março até 10 de abril. Na véspera do desafio, eu estava super animado para a minha nova rotina. Depois de acordar, eu pensei: “eu sou burro?”, “Por que estou fazendo isso?”, “O que quero provar para os outros?”

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Surgiram os pensamentos de autossabotagem. Aqueles mesmos que surgem logo antes de você chamar a sua crush para sair, aquele frio na barriga antes de uma apresentação ou de uma entrevista de emprego.

Estendi a mão no registro. Fiquei ofegante. Meu coração disparou. A água nem tinha vindo ainda, mas eu já queria desistir. Eu antecipava a dor que aquilo ia me causar. “Qual objetivo disso?”. “Vou ligar a água quente!”. Nessa hora, tive uma epifania: por que eu estava sentindo a dor e a ansiedade, sendo que não tinha acontecido nada ainda?

Autopreservação

O nosso corpo evoluiu com os genes que conseguiram sobreviver ao longo das gerações. E como estes chegaram até aqui? Cortando riscos desnecessários para preservar o hospedeiro. A única exceção ocorre quando os genes já serão transmitidos e o hospedeiro não importa mais, como escrevi no meu artigo anterior: Por que o Budismo funciona.

Eu pensei: “e se eu tivesse desistido de chamar a minha (agora) namorada pra sair no primeiro encontro, pelo medo?”, “E se eu tivesse fugido da reunião com os primeiros clientes da minha empresa?”. Se eu tivesse desistido toda vez que houvesse uma situação complicada, eu não teria alcançado nada do que eu queria. E sempre existe essa vozinha falando para você desistir.


Por que eu faço então?

Um simples motivo: para desafiar o meu maior inimigo, a minha mente.

O banho gelado se tornou para mim uma prática meditativa, pois percebo que a minha mente é um ser completamente separado de mim. Eu tiro a roupa, coloco a mão no registro de água fria e ouço todos os pensamentos de autossabotagem que aparecem. Então ligo a água, fico sem respirar por 5 segundos e vejo que não era nada do que os pensamentos tinham me falado. Até consigo gostar do banho!

Com essa epifania, senti que todas as minhas crises de ansiedade perderam embasamento e nunca mais tive uma.

E uma amiga me perguntou: “então você se tortura pra não ter mais ansiedade?” Ué, sim! Os problemas existem, claro, mas às vezes a nossa mente distorce a realidade para parecer que é o fim do mundo.

E eu continuo me lembrando disso toda manhã.

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