Os louva-deus-orquídea

Thiago Yukio
Nov 2 · 3 min read

Era uma vez dois irmãos louva-deus-orquídea: uma se chamava Lis, outro Lótus. Ambos chegavam na adolescência, época na qual eles precisavam caçar sua própria comida.

Como todos da família, eles se alimentavam de insetos, como moscas, grilos e borboletas. Entretanto, sua espécie em particular resultava no improvável encontro da graciosidade de uma orquídea com a psicopatia de um louva-deus.

Um louva-deus-orquídea ao lado de uma orquídea
Um louva-deus-orquídea ao lado de uma orquídea
Fonte: https://thecabinetofcuriosity.net/wp-content/uploads/2018/07/df-500x330.jpg

Os dois irmãos pegaram os conselhos de sua mãe e partiram para sua jornada da vida. Lis foi investigar o bosque, ao passo que seu irmão foi ao vilarejo para ouvir as histórias de um renomado ancião.

Quando este era jovem, suas poses pareciam tanto a de uma orquídea que havia conseguido emboscar borboletas gigantes e passar despercebido por tarântulas enormes. Infelizmente, estas borboletas já estavam extintas e, as aranhas, mais espertas. Lótus aprendeu a pensar grande e aprimorou suas poses.

Lis treinava entre as orquídeas e tentava imitar os mais experientes. Sua técnica era terrível e apenas inocentes moscas de fruta viravam suas presas. O vento balançava todas as flores enquanto ela ficava imóvel, causando o mesmo contraste visual de uma clareira no meio da floresta. Um veterano, vendo os erros ingênuos da jovem, concordou em ensiná-la a deixar sua postura mais flexível.

Nesse meio tempo, Lótus visitou diversos especialistas e treinou para melhorar suas poses de orquídea com a determinação de um monge exilado. Após sua capacitação, entrou na Competição Anual de Orquidiculturismo e conseguiu ganhar em primeiro lugar na categoria masculina. A campeã feminina Camélia, admirada com a performance de Lótus, o chamou para sair e desde então viraram um casal inseparável.

As pequenas orquídeas já haviam sido abandonadas por Lis, que se arriscava perto das altas árvores e bromélias. Ali viviam saborosas centopeias, além de borboletas suculentas e aranhas perigosas. Por ter passado por diversas experiências de quase morte, a não-tão-jovem estava acostumada a voar ao menor indício de um predador. A mesma perícia trouxe a facilidade de apanhar qualquer presa que quisesse — ela nunca mais passou fome.

Lótus e Camélia, que formavam o casal mais apreciado pela sociedade, ficavam algumas horas por dia caçando no bosque e conseguiam capturar apenas pequenas moscas letárgicas. Não era o suficiente para saciar a fome, mas conseguiam sobreviver. Muitas vezes o jantar era substituído por uma noite de sono e/ou sexo.

Eles observavam outros louva-deus mais jovens conseguindo apanhar pequenas borboletas e não compreendiam o que estavam fazendo de errado. Deve ser falta de esforço. Passaram a ficar todo o período diurno caçando. Sem melhora de resultado. Lótus cogitou perguntar algumas dicas. Logo desistiu. Não se rebaixaria a esse nível. Ele era o melhor.

Teriam que arriscar mais. Foram para as bromélias. A experiência faria falta. Aranhas de vários tamanhos passavam perto deles. Tiveram a sorte de não serem reconhecidos. Tiveram o azar de não comer nada.

A fome doía. Enquanto faziam sexo para se distrair, Camélia salivava e pensou que até mataria alguém por um bom jantar. E foi o que ela fez.

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