41 linhas


Acordei tarde porque dormi tarde. Na memória ainda fresco o sonho em que andava de quatro e cortava a mão com vidro. Sei lá que vidro e sei lá que quatro que andava de quatro. Três, dois, um; meio comprimido e leite de soja. Lavo o rosto e ocupo meu posto de persona que tranca a porta e sai de casa. Não sem antes não escolher a roupa.

Saí de casa com fome, duas horas antes, adiantado para quem é atrasado; almocei meu café da manhã: um sanduíche (tomate que secou e pesto que restou), suco e café forte — mas com espuma de leite. Acorda! Mas, quem devia acordar foi quem fez meu café; subiu a escada e bateu a cabeça no pedaço de teto duas vezes.

Saio (sol, suor e calor) e penso quanta gente maluca em São Paulo. Salto um, salto dois, salto três moradores de rua. No meio do caminho tinha uma pedra, uma pedra enorme em degradê de azul e verde. Passo um, passo dois, passo três Mini-Extras. Quem me passa é o colega de academia com seu Nike de solado neon, sua garrafinha de líquidos proteicos e sua mochila com sei-lá-o-quê dentro (nada, provavelmente).

Saio (sol, suor e calor) e procuro um caminho pela sombra, limpando o suor da testa, andando de dois, contando de dois em dois passos maniacamente. Passo um, passo dois, passo três maníacos (um deles ao telefone grita, em tom anasalado, que devia estar em Buenos Aires). Passo um, passo dois, passo três teatros e desço na próxima rua.

Na quarta distribuidora de bebidas compro uma garrafinha de água mineral de Passa Quatro, MG, para repor as quatro gotas de suor que limpei da testa. Meus óculos, duas lentes em uma órtese (ou prótese?) escorregam pelo nariz. Arrumo quatro vezes com a mão direita enquanto carrego a jaqueta na esquerda. Depois da quarta placa de aluga-se, à direita, o portão verde fechado.Vai ser minha primeira aula com a Márcia. Estou ansioso sobre o que vou escrever. Chega um colega, chega outro e a Márcia é a quarta pessoa a quem digo oi. Ela pede meu itinerário. Eu me lembro do sonho em que andava de quatro. Quarenta linhas em quarenta minutos. Escrevo em rosa. Passo uma, passo duas.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.