Outro

fonte: Tumblr

Dario conheceu Mario pelo Tinder. Conversa vai, conversa vem, eles decidiram se encontrar e “ver o que rola”. Dario tem vinte e quatro anos, Mario trinta e dois. Dario acabou de sair da faculdade de arquitetura e Mario é economista numa empresa pública. Só tinha uma coisa que parecia não se encaixar: os dois se diziam passivos.

Marcaram às dezenove horas num bar do Centro, um que não parecesse boteco e que daria a possibilidade de uma conversa mais íntima. Dario gostou da barba de Mario, que gostou dos olhos tímidos de Dario. Um dos dois usava uma camisa xadrez de manga curta, que deixava à mostra uma tatuagem no braço; o outro usava uma camiseta branca justa, que deixava uma barriguinha aparente, mas sem crise alguma. Das afinidades do Tinder, ambos curtiam a página “sou/curto afeminado”. Na conversa, como o mundo gay às vezes era preconceituoso e difícil e o ideal de macho alfa que parece hétero: “afinal, isso é só um ideal e uma forma política de exclusão”, disse um; “isso é bobagem, muitos ‘homens másculos’ do Grindr tem uma autoimagem muito surreal”, disse o outro.

Um deles pediu um cosmopolitan e o outro uma cerveja. Um deles pediu uma porção de batatas e o outro já tinha comido um lanche rápido antes do encontro. Em determinado momento que ninguém sabe precisar, os olhos de um começaram a procurar os olhos do outro mais insistentemente. Um deles disse: “você tem uma mão bonita”. O outro sorriu, enrubesceu e pegou a mão do outro para dizer que também era bonita. Uma mão sobre a outra fazendo carícias. Os olhos de um agora não fugiam mais dos olhos do outro.

Dario sugeriu que pegassem um táxi. “A minha casa é bem perto daqui”, disse Mario. Lá foram eles. O trânsito, a rua movimentada à noite, as luzes dos prédios e o clima nem quente e nem frio lá fora tinham toda uma dimensão diferente. Cada vida ali fora era uma vida em especial, e todas elas não imaginavam que essas vidas dentro do carro também eram especiais. Também se sentem especiais nesse momento; um deles olhou os olhos do outro e sorriu, nada mais precisou ser dito.

Dario mal esperou Mario fechar a porta e o beijou. Amarrou seus braços nas costas do outro e sentiu cada poro, cada pedaço de superfície, e aquilo o excitava. Um deles sentiu o sexo do outro e o alcançou com um sorriso e um olhar. Eles usaram as mãos, a boca e também olhares e sorrisos e suspiros. Parecia uma noite promissora, parecia uma história promissora. Um deles disse que já estava tarde, que amanhã acordava cedo. O outro concordou e eles se despediram. Um deles disse que deveriam combinar qualquer coisa nos próximos dias, o outro concordou. Os dois dormiram bem e acordaram pensando um no outro.

Um deles mandou uma mensagem de bom dia, o outro não respondeu. Um deles abriu o Tinder e respondeu uma mensagem dizendo que podiam se encontrar essa noite. Um deles ficou pensando no outro e o outro teve um novo encontro e conheceu outra pessoa. O outro ficou triste e não conseguia imaginar por que não teve uma resposta. Um deles encontrou um homem másculo e ativo, e teve uma ótima noite de sexo. Um deles acordou no dia seguinte pensando no outro. O outro mandou uma mensagem de bom dia, dizendo eu queria vê-lo novamente.

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