5 momentos em que a Vivo/Telefônica boicotou o consumidor brasileiro

A primeira vez que acessei a internet foi quando visitei minha irmã em São Paulo, depois de viver 10 anos em um sítio na região do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. Na zona rural a nossa conexão com o mundo era feita por meio de um rádio ligado à bateria de carro que nos sintonizava à Rádio Nacional, na frequência AM. Não tinha energia elétrica por lá. Ouvíamos telenovela e aquelas folclóricas propagandas do colírio Moura Brasil. Nosso engajamento com a Nacional era tão grande que chegamos até pedir, por carta, um calendário da rádio que exibia fotos sorridentes dos locutores.

A primeira vez que acessei a internet foi suficiente pra entender o quão revolucionária seria aquela invenção. O computador, item de uso bastante limitado, no qual instalávamos aquele CD Rom comprado na banca de jornal passou a ter uma utilidade, finalmente.

Esse começo foi difícil. Para acessar a internet esperávamos até que o relógio virasse 00:01 — meia noite e um — e aí abríamos o discador iTelefônica e finalmente acessávamos a página inicial que o discador tinha definido sem qualquer permissão para a home do Terra. Aos finais de semana era uma briga: minha irmã queria telefonar e eu precisava terminar aquele download de 5 MB que durava algumas horas numa velocidade de 56 kbps que só batia nos 12 kbps e olhe lá. O telefone ainda era a prioridade e o download ia pro espaço graças à necessidade da ligação urgente.

Por volta do ano de 2005 chegou a primeira conexão tida como banda larga na casa da minha irmã: 128 kbps. Aquilo foi uma revolução: ela podia usar o telefone e o download não parava (teoricamente).

O cenário mudou bastante. Hoje moro em uma cidade de 3000 habitantes em que a prefeitura fornece banda larga ilimitada em alguns pontos da cidade. Mas a oferta não foi satisfatória para o consumidor que, agora, optou por planos oferecidos pela Vivo e por um provedor local chamado AmplitudeNet.

Na casa da minha mãe e do meu pai, de 60 e 65 anos respectivamente, a situação mudou bastante. Até pouco tempo a principal programação vespertina era tomada por aqueles noticiários urbanos sensacionalistas que veiculavam a pior visão possível de mundo: crimes passionais, roubos fúteis e o sensacionalismo barato dos apresentadores. Hoje, com uma conexão de 8 MB de banda larga, o Netflix assumiu ao lado do Youtube a tela da TV. O receptor de TV da Claro caiu no esquecimento.

A minha mãe trocou as ligações comuns de telefone por WhatsApp. Hoje, com a idade avançada, ela se prepara para o ENEM pelo app do Descomplica para tirar seu certificado de Ensino Médio. O sonho da educação básica fora interrompido quando era adolescente no interior do Pernambuco com extremas dificuldades econômicas. Hoje ela encontra na tela do computador e do celular a chance de ver uma fase dos estudos concluída.

Toda minha renda é gerada a partir da internet. Sou professor de inglês e português o ofereço aulas online utilizando ferramentas como Google Hangout e Dropbox. Também faço revisões, traduções e redação publicitária. Tudo online.

Nesse ecossistema de trabalho, entretenimento e educação podem se desenvolver à distância, na escrivaninha do seu quarto. Esta possibilidade revolucionou as formas como as pessoas ganham dinheiro, estudam e se comunicam.

Entretanto movimentações de operadoras, encabeçadas pela Vivo, ameaçam a educação, entretenimento e até mesmo o trabalho de muita gente. A imposição de franquias limitadíssimas na internet fixa interromperá a atividade econômica da qual sou dependente atualmente e processos educacionais em curso.

Certamente esse posicionamento da Vivo, contrário às demandas do usuário, não é novidade. O grupo espanhol Telefônica, detentor da marca Vivo e GVT no Brasil, tem um histórico de ataques à liberdade do consumidor. Vou recuperar alguns episódios conhecidos para traçar o perfil bastante agressivo que a operadora têm demonstrado desde o início de suas operações no Brasil. Algumas práticas soam até ilegais.

  • A Vivo já bloqueou o bluetooth do seu celular

Meu primeiro emprego com carteira assinada foi em uma empresa da Telefônica. A história bastante comum à milhares de jovens de periferia começou no suporte técnico da Nokia, representado pela Atento, empresa de contact center do grupo Telefônica. Por um período considerável de tempo a maior parte das ligações que atendíamos se referiam a bloqueios que os aparelhos CDMA da Vivo possuíam impedindo envio de fotos, músicas e vídeos via Bluetooth. A Vivo sabia da situação e a Nokia também, mas fingíamos, por orientação da Vivo, que era uma característica do celular. A resposta era “Esta funcionalidade não é compatível com o seu aparelho, Senhor”. Somente uma intervenção do poder público permitiu que os celulares com bluetooth bloqueados fossem desbloqueados. Mas só com uma atualização de software feita exclusivamente em algumas assistências técnicas resolveria o problema inventado.

  • A Vivo é a pior operadora no ranking da Netflix na América Latina

A Oi leva a fama, mas os piores índices que medem a velocidade de transmissão no horário nobre da Netflix no Brasil são da Vivo. A Vivo opera apenas no estado de São Paulo com conexão de internet fixa. A Oi detém todos os demais estados brasileiros. Nos países da América Latina as marcas da Telefônica (Vivo/Movistar) também ostentam os piores índices da Netflix. Em sua estreia recente na Espanha, usuários da O2, operadora da Telefônica na Europa, reclamaram de possíveis práticas de traffic shaping na Netflix, conduta também questionada por usuários brasileiros.

  • A Vivo foi a última a aderir à conexão de dados ilimitada e a primeira a bloquear os dados do consumidor nos planos móveis

Lembra quando seu celular acessava a internet e ao encerrar a franquia do plano sua velocidade era reduzida, em vez de ser cortada? Isso foi há dois anos atrás. A Vivo foi a última operadora brasileira a aderir a esse formato de cobrança. A sua desistência desse modelo, no entanto, foi breve, ainda no final de 2014. As demais operadoras seguiram o mesmo caminho, o que despertou algumas suspeitas de formação de cartel.

  • A Vivo diz que WhatsApp é pirataria

O atual presidente da Vivo andou por aí dizendo que WhatsApp é pirataria. Segundo Amos Genish o app é uma operadora que funciona sem licença no Brasil. O alto funcionário do grupo Telefônica chegou a dizer que os números cadastrados no WhatsApp eram propriedade da operadora.

  • A Vivo vai impor franquia na sua internet fixa

O último movimento da Vivo será o de impor franquias limitadíssimas aos assinantes de conexão fixa. Segundo entrevista de Christian Gebara, Chief Revenue Officer da Telefônica Vivo ao Tecnoblog, a operadora não pretende voltar atrás nesse posicionamento e argumenta que a limitação da conexão de internet fixa é uma tendência mundial. Ele adianta que quem usar serviços como Netflix, YouTube, Descomplica e Spotify terá de pagar mais. Veja um trecho dessa entrevista.

Tecnoblog: Um dos maiores selling points da GVT era que sua banda larga não tinha limite de tráfego. Até fevereiro de 2016, a Vivo também não tinha limite de tráfego e passou a incluir isso nos novos contratos. Por quê?
Gebara: Essa é uma tendência mundial. Grandes operadoras no mundo, inclusive do Grupo Telefônica, já estão acabando com o tráfego ilimitado e adotando franquias. A ideia é que o consumo seja como uma conta de luz, onde o cliente pagará apenas o que precisar.
Tecnoblog: Isso não irá atingir muitos usuários?
Gebara: Isso irá atingir uma porcentagem muito baixa dos nossos usuários, e beneficiará quem faz uso leve, como emails e navegação. Quem faz uso de streaming de vídeos, por exemplo, naturalmente terá que pagar mais.

A Telefônica já até definiu as franquias para usuários do serviço Vivo Fibra.

  • Vivo Fibra 15 Mb/s: 120 GB
  • Vivo Fibra 25 Mb/s: 130 GB
  • Vivo Fibra 50 Mb/s: 170 GB
  • Vivo Fibra 100 Mb/s: 220 GB
  • Vivo Fibra 200 Mb/s: 270 GB
  • Vivo Fibra 300 Mb/s: 300 GB

Tais franquias tornarão impossíveis as atuais atividades que realizamos aqui em casa. A conexão poderá se esgotar antes de terminar uma temporada completa da série House of Cards na Netflix, por exemplo, mesmo nos planos de 300 MB/s. Minha atividade econômica também vai por água abaixo, pois aulas online e uploads e downloads para o Dropbox consomem bastante dados. O ENEM da minha mãe também está ameaçado com a limitação de franquia.

O mais assustador é que essa mudança de contrato unilateral que afetará todos os usuários colocará o Brasil, um dos países onde as pessoas passam mais tempo conectadas, num ostracismo digital. A ANATEL, pra variar, é conivente com o movimento das operadoras e justifica que isso será bom pra internet brasileira.

As ações possíveis:

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Thiago Bomfim’s story.